Quinta-feira da Ascensão por Augusto Gil

Poderemos desde já recordar que a quinta-feira de espiga traduzida à letra representava trazer para casa, um ramo de oliveira, videira, cevada ou trigo, com algumas papoilas, fazendo um ramo que se pendurava atrás de uma porta. Secava e no ano seguinte, a tradição mandava queimar e substituir pelo novo que era trazido nesse dia. De todas estas plantas, oliveira (azeite), espiga de trigo (pão) e as videiras (o vinho), eram divinamente representadas para que o ano fosse melhor, em agricultura e a abastância fosse presenteada de forma a não existir fome.
Almeirim foi sempre convicta e seguidora desta tradição, apesar de nos últimos tempos, ir perdendo o que os nossos avós nos deixaram. Isto tem muito que se lhe diga. Conclusão: ser almeirinense nestes tempos modernos é difícil porque antigamente, um bom almeirinense levava um palhinhas e a mánica das pelingrafias ou o Kodak para onde quer que fosse, o barrete enfiado com a onça do tabaco lá dentro, o arroz de forno, o cão, a carroça e a velha à Feira da Piedade a Santarém, às Festas da Senhora do Castelo a Cruche ou às Festas da Raposa; ter visitas e mostrar a casa nesse dia até chatiar, a casa de jantar ser usada ao fim de 2 ou 3 anos ou então se estivessem à mesa e as visitas não interessassem, esconder os petiscos debaixo da mesa e colocar em cima previamente combinado um bocado de pão com queijo ou choriça, dizer mal de tudo e todos, mas fora da vila, brigar com tudo e todos se dissessem o contrário, ter dinheiro no bolso e perguntar ao amigo:“Não pagas nada?”, tirar a cera dos ouvidos com a unha comprida do dedo mindinho e limpar às calças ou às cortinas da sala que por acaso, foram dadas pela sogra, tirar saguins do nariz e colocá-los na parede da vizinha por sacanice, ir de vez em quando à vizinha que sabia ver o mau olhado ou o quebrante para fazer umas benzeduras com azeite e áuga, lavar carroça e burro ao mesmo tempo, falar mal do governo de cá mas mesmo contribuindo para o ter, ir beber um copito à taberna apesar de ter vinho em casa, não gostar mesmo de ciganos, ser católico e ir só à Igreja nos casamentos e baptizados e obrigar os filhos a ir à catequese, quando tinha dinheiro ir fazer compras fora de Almeirim, mas quando não tinha, pedir fiado aos comerciantes cá da terra, dizer bem dos sogros se estes tinham algum, dar aos afilhados dez escudos pela Páscoa e Natal e dizer que a vida está do pior, ir comer a casa dos compadres porque era mais barato, pendurar o chapéu de chuva nas costas no Inverno quando ia de bicicleta, estrear uma roupinha nova pela Páscoa e Natal e ir à missa ou ao Café e encontrar a mesma roupa em cinco ou seis amigos e perguntar se eles pagaram o mesmo, ser do União mas nunca ir ver os jogos, deixar de falar à família e vizinhos por dá cá esta palha, mandar o filho p´rá barraca onde estava a mula quando estava bêbado e dizer que a mula era mais esperta que a mulher, ir para a política com o patrocínio dos amigos e depois esquecê-los…um bom almeirinense era e é assim!
Mas quando chegava à Quinta-feira da Espiga, bem… O lugar mais aprazível e sossegado visto esperar ter que dar o Espigão, era sobejamente os mais tradicionais e escolhidos a dedo, isto quando se ia com a namorada ou uma amiga.
A Mina, o campo do Sobral, a Vala (como dizia o Malato), muita gente foi lá feliz e até… feita!
De manhã era hábito o tradicional passeio a pé para ver o local mais agradável ou mesmo já equipados com o farnel, de carroça, muitos já iam para o Tejo. Durante alguns anos as idas para estes lugares convencionais deram expressão ao simbólico acordeon, para umas “bailações”, mas muitos anos atrás, a gaita de beiços fazia as delícias das mais tradicionais modas, isto quando se juntavam muitos familiares e não só.

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