Pedro Bento: Os sacrifícios para ajudar os outros

Pedro Bento conseguiu mais de 10 mil euros na viagem solidária que fez de Almeirim até ao Nepal de bicicleta. Voltou muito mais magro, queimado do sol, mas com o coração cheio, porque apesar das adversidades e dos contratempos superou os objetivos e vai ainda ajudar uma pessoa que precisa de uma cadeira de rodas.

Quais foram as principais dificuldades neste percurso?
As dificuldades foram-se modificando sempre ao longo de toda a viagem, desde as dificuldades do terreno, que muitas vezes tinha muito acumulado, também às dores, que eu sentia: a nível de joelhos; a nível da anca; a nível da coluna, a determinada altura, comecei também a perder força nas mãos por causa da cervical e não conseguia ter as mãos fechadas normalmente, não as conseguia fechar. Mas pronto, penso que as dificuldades foram sempre sendo superadas, também com motivação extra, ter as pessoas a acompanhar e estarmos a conseguir todos aqueles donativos.
Muitas vezes acabava por esquecer estas dores, e os comprimidos anti-inflamatórios também ajudavam.

Teve mais furos nestes dias que ao longo da sua vida toda?
Tive alguns furos, mas também não foram aqueles que eu pensava que ia ter. Tive um furo logo aqui, à saída das Fazendas, e depois tive mais dois na Turquia, tive outros dois furos no Irão, e mais dois na Índia, se não estou em erro… Não, na Índia tive mais três.
O grande problema, muitas vezes, foi depois a forma que eu tinha para encher os pneus, porque a bomba que eu tinha não funcionava muito bem, e depois, muito mais tarde, só na Índia é que eu consegui comprar uma bomba em condições para poder encher os pneus corretamente – foi a grande dificuldade em termos mecânicos.

E como é que foi resolvendo esses problemas?
Os problemas fui sempre resolvendo da forma que eu tinha pensado: eu tinha todo o material comigo, tinha todas as ferramentas comigo, e era só fazer aquilo que era preciso, neste caso, remendar, tirar ou mudar a câmara de ar. Foi uma coisa fácil de fazer.

Onde é que dormiu?
Tive a sorte de conseguir dormir sempre em algumas pousadas, em alguns hotéis; inicialmente, eu tinha levado uma tenda comigo, para poder dormir, mas, como durante o primeiro mês esteve sempre muito mau tempo, chuva, vento, muito frio, nunca montei a tenda. Decidi sempre ficar nos hotéis mais baratos que ia conseguindo encontrar.
Depois, a partir de terminada altura, tendo em conta que mudei de país e os hotéis começaram a baixar o preço, achei que não valia a pena estar a montar a tenda porque ia ter um desgaste muito superior, ia perder mais tempo: tinha que montar, desmontar, a recuperação física não ia ser tão boa e então decidi ficar em alguns hotéis. Sempre o mais barato que se conseguia arranjar, nem sempre com as melhores condições, mas basicamente foi sempre pousadas, hotéis, apartamentos de amigos que encontrei ao longo do caminho, e foi assim que eu fui ficando.

Nos hotéis não achavam estranho como é que aparecia ali alguém com uma mochila às costas, com uma bicicleta carregada?
Completamente. Principalmente, a partir da Turquia, foi onde eu notei mais o choque e eu tinha sempre necessidade de colocar a bicicleta comigo no quarto, e isso era sempre uma grande negociação com os rececionistas.
Durante os 71 dias em que eu fiz o desafio, houve pelo menos três noites em que não consegui ganhar essa negociação e tive que deixar a bicicleta fora do quarto, mas a grande dificuldade era sempre como é que eu ia colocar a bicicleta comigo no quarto.

Há uma história que relata nas redes sociais, do rinoceronte a passar… Conte-nos lá essa história.
Essa história, que tive a sorte de viver, foi já no Nepal – foi em Chitwan, uma zona que é muito visitada por turistas, uma zona selvagem onde se pode ver elefantes em estado selvagem, tigres, rinocerontes, muitos animais em estado selvagem. E naquele dia tinha ficado nessa zona, tinha tido um contacto de um amigo que já tinha ali ficado, tinha tido um convite do dono do hotel para ficar ali naquela vila, e quando estávamos a jantar, começou a surgir um grande burburinho, muita gente a correr e ninguém sabia o que é que se estava a passar, até alguém dizer que vinha de lá um rinoceronte.
Fomos todos ver o que era e realmente vinha de lá um rinoceronte: um rinoceronte selvagem que vinha da selva e que estava a deslocar-se para ir para os campos agrícolas. E foi impressionante ver um rinoceronte em estado selvagem passar a menos de dois metros de nós. Foi uma experiência do outro mundo.

De que teve medo, se é que teve medo de alguma coisa durante esta viagem?
Tive algum receio, principalmente na Índia, após aquela tentativa de assalto. Depois, mais tarde, acabei por ser mesmo assaltado num hotel, só me apercebi disso no fim de já ter saído, mas na Índia foi o meu maior receio, porque é um mundo completamente à parte do nosso.
É difícil explicar por palavras, porque muitas vezes somos nós próprios que fazemos uma ideia errada das pessoas, da sua aparência, da forma como se vestem, como agem. Depois dessa tentativa de assalto comecei a ver as coisas de outra forma: enquanto inicialmente começava a ver que era tudo muito bom, depois já comecei a desconfiar de muita gente, comecei a desconfiar quando me mandavam parar para tirar fotografias, comecei a desconfiar dos apitos, quando me mandavam encostar por alguma razão.
Tudo isso começa a mexer com a parte psicológica e depois começamos a sair dali o mais rápido possível, e foi oque me aconteceu.

No assalto o que é que aconteceu?
No assalto começaram por me tirar os bidons da bicicleta, onde eu transportava a água, depois, entretanto, eu tentei falar com o assaltante para que ele me devolvesse os bidons, até porque nem tinha nada lá dentro pois transportava a água na mochila. Depois, mais tarde, ele encostou-se e puxou a mochila, queria tirar-ma só que, como eu tinha a mochila presa, ele nunca a conseguiu tirar. Entretanto, surge outro indivíduo de moto que conseguiu afastar o que me estava a tentar assaltar; ameaçou-o com a polícia e deixou-se ficar ali muito próximo de mim.
O outro indivíduo fez nova tentativa de assalto, tentando tirar-me a câmara que eu trazia no capacete, só que eu desviava-me e colocava-me entre os carros e as motas, porque aquilo foi sempre em andamento. O que me ajudou decidiu ficar comigo durante 40 quilómetros, acompanhando-me sempre e nunca deixou o outro aproximar-se, inclusive ameaçou-o várias vezes para que ele se fosse embora e acabou por ser a minha salvação, pois ele ainda surgiu mais três vezes, ainda fez mais três tentativas, só que como eu estava a ser ajudado ele acabou por não fazer mais nada.
Esta foi, sem dúvida, a altura em que eu tive mais receio.

Não se arrepende de…
Nada! Nada! Não me arrependo de nada que eu tenha feito, de uma decisão que eu tenha tomado, até porque todas as decisões que fui tomando foram tendo sempre o retorno e foram sempre sendo encadeadas umas nas outras e as coisas acabaram por correr sempre “cinco estrelas”.
Mas psicologicamente, ainda na Índia, veio um bocadinho abaixo.
Eu acho que vamos muito abaixo por tudo aquilo que vemos, por todo o calor, cheguei a apanhar 50ºC na Índia e a pedalar com 50ºC, com sede e com fome. Eu passei 15 dias na Índia a comer bananas e amendoins e a beber água. Não tinha mais nada para comer, porque não conseguimos encontrar supermercados como aqui ou na Europa; não há! E eu também não ia comer aqueles fritos que se encontram nas estradas. Até mesmo nos restaurantes a comida é toda muito picante, com muitas especiarias, e nós, europeus, não a conseguimos comer; eu falo por mim, não conseguia digerir aquilo, então só sobravam as bananas, os amendoins, água e Sprite – foi só a minha alimentação durante 15 dias.

Quantos quilos é que perdeu após estes dias?
Devo ter perdido perto de cinco quilos, entretanto já recuperei mais alguns.
Tendo em conta que já não fui para lá muito gordo, cinco quilos já foi bastante.

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