Pampilho ao alto LIV

Porque rir faz bem
O responso

A história é simples e os nomes são fictícios para não ferir a suscetibilidade de algum familiar dos personagens. Nos passados anos cinquenta, havia uma enorme carência de bens de toda a ordem. O cerne da nossa história prende-se com as faculdades que o ti João do Vale tinha para adivinhar se determinado objeto que tivesse levado descaminho, voltaria ou não a aparecer. Assim, se se tinha perdido dinheiro, ou outro qualquer objeto, recorria-se de imediato ao ti João do Vale para que rezasse o responso e dissesse se o objeto voltaria ou não a aparecer. Ora o ti Zé do Vale (irmão do João do Vale) era contrário a todo este ritual e dizia alto e bom som que o irmão era um vigarista e que não tinha qualquer poder para adivinhar fosse o que fosse.

Por estas e por outras, os dois viviam de candeias às avessas, quase nem se falando. Cada um tinha o seu bocado de horta que haviam herdado do pai de ambos, e para regar, utilizavam a água do mesmo poço que era comum, mas, cada um tinha o seu balde. Uma tarde, já quase noite, o ti João do Vale vendo que o seu balde se rompera, deitou mão ao balde do irmão e fez dele sua propriedade; melhor dizendo, roubou o balde ao irmão. Azar dos azares do ti João do Vale! O ti Zé do Vale que ia para a horta regar, viu o irmão roubar-lhe o balde. Calou-se, nada disse, e no outro dia, a meio da manhã, apresentou-se na casa do irmão para mandar rezar o responso do balde. Entretanto foram chegando mais pessoas, todas da mesma família para mandar rezar o responso pelo desaparecimento de uma rapariga (ela tinha fugido com o namorado na noite anterior) para saber se ela voltaria ou não. O ti João do Vale atendeu primeiro o irmão pois a coisa era simples de resolver; na casa que tinha reservada para as suas rezas de responsais, colocou numa pequena mesa “a que na altura se chamava banco da cozinha” um prato raso com água, na qual deixou cair dois pingos de azeite, e iniciou umas rezas que mais não eram que uma lenga lenga, que ninguém percebia, nem ele próprio. Feitas as rezas , o ti João do Vale assumiu um ar místico e disse para o irmão: olha, o responso diz-me que o balde foi roubado, e que quem o roubou já não tem ideias de o dar! O ti Zé do Vale que já ia à espera de um resultado daqueles não esteve com meias medidas, pegou no cabo da vassoura e desancou o irmão dizendo-lhe que para além de vigarista agora também era ladrão.

Entretanto, o ti João do Vale, vendo que o irmão não parava de lhe dar com o cabo da vassoura gritava: pronto, pronto, agora o responso já me dá que quem roubou o balde fui eu e que to vou dar agora mesmo. A cena motivou fortes gargalhadas dos outros clientes, que se foram embora sem mandar rezar o responso concluindo o que era óbvio. O ti João do Vale e os outros como ele, não passam de vigaristas, só que nem sempre está por perto um ti Zé do Vale.

Fiquem bem, de Pampilho ao Alto.

 

Ernestino Alves – Advogado

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