Pampilho ao Alto XLVI

Recordando.
O meu amigo João D’avó (assim chamado por ainda menino de colo ter ficado órfão de mãe e ter sido a sua avó materna quem o criou) era um conversador formidável. Conheci-o desde quando, com dois sacos às costas, calcorreava os casais das Fazendas e Paço dos Negros a vender loiça de barro e queijos. Era oriundo dos lados da Azervadinha ou algum casal para os lados do Couço.

O tempo passou, e o João D’avó, então mais velho ainda, vinha às Fazendas vender loiça de barro e queijos, só que em vez da velha pileca engatada numa carroça com canga à alentejana, vinha agora numa “carrinha Opel” algo já velhota, mas que era o seu orgulho. Apesar do tempo passado não tinha diminuído a amizade e simpatia por ele, e era certo e sabido que sempre que eu dispunha de tempo, almoçávamos no antigo café Fazendeiro, na companhia do proprietário, “o saudoso João Brito”, que era outro dos muitos amigos do João D’avó.

De modo que, o João D’avó perdia-se um bocado no seu desporto predilecto, que era nem mais nem menos que emborcar uns copos na companhia de amigos.

Ele conseguia prender-nos a ouvi-lo até ao fim da tarde. As Estórias dele eram um retrato da sua vivência, e contava que ter ficado órfão foi o menor dos males, já que tinha por mulher uma santa de senhora mas, dizia ele: era tão tansa, tão tansa, que quando a filha apareceu grávida ela pensava que era um milagre como o da virgem Maria, mesmo sabendo que sempre que o João D’avó estava fora, o namorado por lá se esquecia durante a noite. A filha, dizia ele, era mais ou menos como a mãe, e só quem era um pouco melhor era o genro. De modo que, o João D’avó perdia-se um bocado no seu desporto predileto, que era, nem mais nem menos, que emborcar uns copos na companhia de amigos. Numa dessas tardes chuvosas de outono, contou-nos a última que lhe tinha acontecido: disse ele que depois de uma tarde passada no café do Zé Tadeia, em Coruche, quando já a noite ia longa e se encontrava bem carregado, foi metido ao volante da sua “querida Opel” e despachado a caminho de casa. Quando lá chegou, ainda atordoado, não conseguiu sair de dentro do carro e, em grande aflição, começou a gritar por socorro. Veio a mulher em seu auxílio e, atarantada como era, começou a puxar o marido, mas não o conseguiu mexer nem um milímetro.

Ela, coitada, aflita e em grandes gritos, foi chamar a filha, e as duas entre gritos e aflições, puxando ao mesmo tempo, também não conseguiram tirá-lo da carrinha. O João D’avó já pensava que morria ali dentro do carro, quando chegou o genro e, agora os três, puxando ao mesmo tempo quase lhe arrancavam um braço sem conseguirem tirá-lo da carrinha. Finalmente veio o neto e fez uma chamada para os Bombeiros que prontamente acorreram ao local e, após breve inspeção da ocorrência, retiraram o cinto de segurança que impedia o João de sair da carrinha. Isto era dito com uma graça tal, que quase caímos das cadeiras com tanto rir.

Fiquem bem, de Pampilho ao Alto.

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