“João Fragoso, Fragoso, João”, por Patrícia Costa Mateiro

João Fragoso, Fragoso, João,

A Sandra ligou-me esta semana. A tua Sandra, a sempre tua Sandra ligou-me e eu não pude logo atender. Quando peguei no telefone vi para além da chamada perdida, um sms a dizer “preciso de falar contigo. Beijinhos”. Liguei de volta assim que pude. Temos falado com alguma regularidade. Andamos desde o verão a tentar combinar um almoço, ou um jantar ou um almoço e um jantar. Sei que vontade e conversa vão sobrar para muitos encontros se assim os conseguirmos agendar. Incrível como distribuímos mal o tempo por aqueles com quem gostamos mais de o partilhar. A Sandra, a sempre tua Sandra, pediu-me que escrevesse sobre ti. Fiquei em pânico, disse que não sabia como o fazer, que tinha medo de não conseguir, não da forma como ela poderia estar à espera. Mas não há possibilidade alguma de dizer não à tua Sandra, e isso tu sabes tão bem. E aqui estou eu. Pedi-lhe ajuda e aceitei o desafio. Pedi-lhe que partilhasse comigo tudo o que eu não sei de ti, que me contasse histórias e preferências, episódios e referências tuas, mais ou menos pormenorizadas, lembranças mais ou menos desarrumadas. E a Sandra, a tua sempre Sandra tem-me contado tanto João! Desembrulhou no chat do facebook (sim, a Sandra já tem facebook, com uma foto de perfil onde apareces a dar-lhe um beijo terno no rosto) uma série de frases e eu a vê-a a sorrir a escrevê-las para mim e logo a seguir uma pausa. E eu do lado de cá sem saber se foi o telefone que tocou ou o fôlego que a parou. E fico a olhar para o écran do computador, à espera que caia mais uma mensagem sobre ti, sem saber se do outro lado a tua Sandra, a tua sempre Sandra, abandonou o teclado para mexer no refogado do tacho, para atender o telefone ou para se recuperar da falta de ti.

Tanto de ti que eu não sabia e a tua, a sempre tua Sandra contou-me. Equipas de Jovens de Nossa Senhora (tal como eu), escuteiro em criança e mais tarde de volta para acompanhar os filhos, pai sempre presente e é aí que o coração da mãe Sandra sofre a dobrar, pela falta irremediável do pai dos vossos filhos, também tu perdeste o teu pai cedo demais, benfiquista com lugar cativo no estádio e no coração, banda preferida The Cure, futebol, basket e ténis, surf e skimming, snooker, poker e sueca, os concertos com a Margarida, a Fórmula 1 com o João Maria, as touradas a três, os fins-de-semana a dois, as férias e os planos a quatro. “Melhor sorriso do mundo. Super bem disposto, de bem com a vida”.

Passámos férias juntos pelo menos duas vezes. Parque de Campismo de Monte Gordo, eu com os meus pais, e vocês em tendas mais afastadas, e dois ou três anos mais tarde, já sem os meus pais, nós nuns apartamentos em Manta Rota. Nós e a tua Sandra, e a Sara e o Zagalo. E o meu irmão. E tu que gostavas mais daquela ponta do Algarve, da água quente, das praias com grande extensão de areia e do cheiro a sardinha assada nas esplanadas. E a Sandra a preferir o Frango da Guia em Albufeira e a noite em Vilamoura. Mas na verdade quem gostava mais de sair à noite eras tu. E dançar. Dançar muito. Os dois chegavam sempre a bom porto e juntos encontraram a vossa praia. Sei que as férias dos últimos anos as passaram junto a Tavira, onde te iniciaste a ti e ao João Maria nas aulas de surf.

Foste especial até na forma como nos deixaste. Partiste no dia em que fazias 43 anos, aquele que deveria ser de festa e é assim que queremos que continue a ser, o dia do teu aniversário, de festa por tudo o que foste e por tudo o que fomos contigo. É também o dia de aniversário do meu pai, e tu que festejaste tão poucos aniversários com o teu, tinhas apenas 18 anos quando ele morreu. Somos os dois cúmplices na ausência prolongada da nossa amizade e na partilha da dor de quem perdeu familiares próximos cedo demais. Eu estava a almoçar com o meu Pedro, o meu pai e amigos do meu pai num restaurante em Vila Chã de Ourique. Falei ao telefone com o David, que inconformado e incrédulo me confirmou a notícia que nenhum de nós queria ouvir. Mesmo sem eu lhe responder ele repetia do outro lado “não pode ser Patrícia, não é verdade”. E logo a mim, e logo a ti, e ao David. E logo a nós que conhecemos tão bem o significado dessas palavras, “não pode ser, não é verdade”, e nós por dentro a rejeitar todas as confirmações e todas as retaliações. Passaram 11 anos desde a morte do meu irmão, quase 12, e eu sei exactamente as palavras que a minha mãe me disse naquela noite. E a minha sogra a ralhar comigo porque eu não estava a dizer a verdade. E eu em silêncio a desligar a chamada à minha mãe e a desejar chegar a Santarém para poder desmentir tudo. E a minha sogra a chorar e eu a não querer acreditar. O João Maria no berço. O meu telefone a tocar. Ele a querer mamar. E a minha vida toda a continuar.

João, tenho tantas saudades do meu irmão e tanta curiosidade pelo sítio que vos une aos dois. Pedi-lhe que te recebesse de braços abertos. Encontraste-o? Reconheceste-o? Passam tempo juntos? Fazem companhia um ao outro? Abraçam-se a cada vitória do nosso clube? Surfam juntos nas nuvens que vos escondem de nós? Manda-lhe um abraço forte. Meu. Outro para ti. Não tenho presente a memória do teu abraço mas a Sandra, a tua sempre Sandra, diz que o melhor abraço do mundo é o teu, apertado até faltar a respiração e repleto de amor e paz.

Fiz 40 anos há pouco tempo. Fiz uma festa gira mesmo à minha medida. Juntei quase uma centena de amigos. No dia a seguir uma amiga perguntou-me como é que se mantém contacto com quase uma centena de amigos. Não se mantém, mas a amizade não se esgota na ausência e agora que penso nisso, faltavas lá tu, e a Sandra, e o David.

Chorei tanto no vosso casamento. Não sei se dos copos que bebi, se de te ver chorar a ti, choraste compulsivamente quando a tua Sandra subiu vestida de noiva ao palco para cantar o Restolho da Mafalda Veiga, ou do meu ex-namorado, o teu amigo Pedro, através de quem cheguei até ti, ter escolhido a festa do teu casamento para distribuir convites para o seu casamento. E eu ali, sozinha, a chorar, magra e muito morena mas sozinha e sem nada nas mãos para distribuir. Casaste em Junho não foi? Eu na altura vivia em Faro e em Junho já tinha um bronze mais ou menos invejável. Curiosamente no dia do teu funeral também estive sozinha. E a chorar. Menos morena, sem bronze invejável, sem nada nas mãos para distribuir e a chorar.

‘A paz começa com um sorriso’ dizia Madre Teresa de Calcutá. Soube pela Sandra que eras devoto da Madre Teresa de Calcutá. O Papa Francisco (Xiquinho como lhe gostavas de chamar), disse na cerimónia da sua canonização, onde tinhas programado estar presente com os escuteiros que tanto gostavas, que terá dificuldade em lhe chamar Santa Teresa porque “Sua Santidade foi tão próxima a nós, tão suave e espontânea que vai continuar a ser chamada de mãe, Madre Teresa”. Eu diria antes que a paz encerrava no teu sorriso, aquele que sabias tão bem mostrar, de forma bem diferente a quem gostavas, de sorriso aberto e rasgado, e a quem não, de testa franzida e sorriso fechado.

O sorriso deixaste-o à tua Sandra. À tua sempre Sandra. Consegues imaginá-la a sorrir pelos dois? A cada lembrança que tem de tudo o que foram um com o outro? Tal e qual a amizade, também o amor não se esgota na ausência. Alimenta-se da saudade e multiplica-se sem perder a identidade.

.