“Gostava que me tivessem atribuído pelouros”

A fazer três anos da eleição nas autárquicas de 2013, o vereador da coligação Amar a Terra faz uma avaliação da gestão socialista, e revela que ainda nunca reuniu com Nuno Fazenda, e o que poderá acontecer à direita em 2017. Uma entrevista que é muito mais que uma conversa sobre política local.

Que balanço fazem do mandato de Pedro Ribeiro?
Até agora, o mandato foi caracterizado pela aquisição de imóveis, uns com mais interesse que outros. Foi interessante a recuperação das escolas velhas, que ainda não sabemos o que custou ao Município, e o equipamento da força especial dos bombeiros, na zona industrial. Achamos que centraliza demasiado a gestão, não potenciando todos os recursos. Não sabemos se faz reuniões com os trabalhadores para ouvir aquilo que os preocupa.

Que autoavaliação fazem da oposição ao longo destes três anos?
Procurámos cumprir, mesmo na oposição, aquilo que prometemos aos eleitores. Como não fazemos da política a nossa profissão, procuramos ouvir as pessoas, para sentir as suas preocupações. Viajámos no Tua e ouvimos críticas aos locais de paragem. Apresentámos o assunto na reunião da Câmara e foram feitas algumas das alterações que os utentes ainda consideram insuficientes. Há pouco tempo apareceu, como uma obra a realizar, a construção do Crematório. Recordo que era um dos nossos objetivos e constava do Programa Eleitoral. Este investimento só é rentável se for feito rapidamente para que os concelhos limítrofes não o façam primeiro. Mas, mais uma vez, a tramitação vai ser demorada. No orçamento para 2017, apenas está considerada uma verba de 50 000,00 € e, pela leitura do quadro que acompanha o documento, em 2020 ainda não vai estar concluído. Fizemos propostas que foram aprovadas e temos apresentado muitos requerimentos, sendo de salientar que a maior parte tem uma resposta célere. Penso que somos o primeiro Executivo que teve cartão de identificação por pertencer ao Executivo, e também os membros da Assembleia Municipal, isto devido à nossa insistência em ter um documento que nos identificasse. No orçamento para 2016, a Câmara de Almeirim foi das poucas no País que não reduziu a taxa de IMI para as famílias numerosas. Havia margem para isso. É preciso apoiar as famílias numerosas. Precisamos de crianças, porque vamos ter um problema gravíssimo no futuro, com a redução de pessoas. Acompanhamos a Associação de Famílias Numerosas e conhecemos os seus anseios. Nenhum Governo, desde o 25 de Abril, se preocupou com o assunto. Pressionámos, mas o Presidente da Câmara não quis aceitar a nossa proposta. Penso que, aquando da aprovação do orçamento na Assembleia Municipal, já estaria arrependido de não ter sido aceite a nossa proposta. Fizemos a primeira proposta para condecorar o atleta almeirinense, Diogo Neves. A partir daí, muitos foram os almeirinenses que foram condecorados.

Como responde a quem diz que concorda com tudo o que é proposto pelo PS?
Não é verdade que concorde com tudo o que o PS propõe. O Presidente da Câmara tem poder para resolver a maior parte dos assuntos da gestão do Município. A maioria dos assuntos que vão às reuniões da Câmara são a concessão de apoios às instituições, clubes desportivos e apoios escolares. Fazia parte do nosso programa a legalização e transparência na atribuição dos subsídios a atribuir. Foi aprovado, com algumas lacunas, é certo, mas foi aprovado um regulamento para atribuir subsídios. As associações e os clubes têm planos de atividade e orçamento aprovados, contas em dia, cumprem a lei, não vamos votar contra. É preciso vigiar as contas dos clubes para que não gastem com profissionais o dinheiro que é destinado à formação. Vão à reunião de Câmara apoios a estudantes carenciados e outros apoios sociais. Não vamos votar contra, só para dizer que isso é oposição. Quando vão à reunião concursos e obras que são necessárias, pedimos esclarecimentos e, muitas vezes, o Presidente aperfeiçoa as propostas para evitar que estas não sejam aprovadas por unanimidade. O mesmo não acontece quando se mantém o mesmo Revisor Oficial de Contas durante anos, e não sabemos os procedimentos de auditoria. Nestes casos, votamos contra. Não votamos a favor no encerramento das contas das obras que, lamentavelmente, transitaram do Executivo anterior, e não foi só uma ou duas obras de elevado valor. Não votámos a favor no processo de liquidação da Aldesc. Tinha sido aprovado no Executivo anterior uma Comissão de Liquidação que tinha um ano para liquidar a empresa, mais propriamente até 31 de Dezembro de 2008. A Comissão não cumpriu com os prazos nem tratou do assunto com o cuidado que o mesmo merecia. Todos nos lembramos dos despedimentos e das “feridas” que ainda hoje não estão saradas. Foram-nos apresentadas contas de 2008, que já estavam depositadas, e com divergências na certificação das contas que tiveram de ser removidas. As contas de 2009, 2010 e 2011 não votámos favoravelmente, porque a Comissão Liquidatária não as assinou, não cumpriu os prazos e foram depositadas na Conservatória do Registo Comercial, com irregularidades. O que devia ser feito num ano, demorou cinco. Lamentamos que os órgãos de comunicação social não estejam presentes nas reuniões públicas para ouvirem a oposição e divulgarem o que foi dito. Muitas vezes não aparecem e, quando o fazem, já passou o período antes da ordem do dia e não têm notícias.

O executivo socialista já mudou alguma proposta por sua sugestão?
Sim, o executivo já mudou algumas propostas por nossa sugestão, entre elas parte das contas da Aldesc, que acabámos por não votar favoravelmente pelos motivos já indicados.

Que balanço fazem da atividade do vosso partido ao longo dos últimos três anos? Tem-se afirmado como oposição à liderança do PS?
A Coligação Amar a Terra tem feito muitas intervenções no período antes da ordem do dia. Quem tiver oportunidade de ler as atas das reuniões, constatará que fazemos propostas e reparos ao Presidente da Câmara. Para nós, fazer oposição não é votar contra tudo para marcar a diferença. Para nós, oposição, é também melhorar as propostas apresentadas e transmitir as experiências profissionais e sociais no sentido de otimizar os recursos. Na discussão do último orçamento criticámos o documento, cuja apresentação é pobre e não dá sinais de mudança na procura do desenvolvimento económico do Concelho. Criticámos a falta de iniciativas para a realização de feiras. Criticámos o não aproveitamento estratégico da localização do Concelho, especialmente no que se refere às vias de comunicação que temos ao nosso dispor.

Que principais diferenças notam entre a liderança de Pedro Ribeiro e a de Sousa Gomes?
Não acompanhei de perto a gestão de Sousa Gomes. Nos contactos que tivemos no último mandato, sentimos que nos escutava, mas não resolvia. Criticámos a falta de esforço e visão para a importância do vinho na região. O Pedro Ribeiro foi sensível a esse problema e concluiu que aquilo que vínhamos dizendo era importante e o que constava do nosso programa eleitoral fazia sentido. Temos em Almeirim a CVR, Confraria Nossa Senhora do Tejo e Associação da Rota da Vinha e do Vinho. Só que tudo isto demora muito a executar.

Tem-se batido muito na aposta pelo turismo, nomeadamente, apostando no vinho. O que podia ser feito nesta área?
Temos feito esforços para que o turismo gastronómico seja alargado à colaboração com os concelhos vizinhos, para que as pessoas fiquem pelo menos um dia na nossa região e não se limitem a comer sopa de pedra, que também é importante. Já falámos na candidatura de Almeirim a Cidade Europeia do Vinho. Era muito importante para o Concelho, porque trazia pessoas e aumentaríamos a nossa exposição junto dos consumidores de vinho em todo o mundo. A Associação da Rota da Vinha e do Vinho já estariam a trabalhar, mesmo em instalações provisórias. Juntaria os empresários e arranjaríamos soluções para os problemas e teríamos de ultrapassar a falta de associativismo, que é transversal a todas as atividades, tanto culturais como económicas e até religiosas.
Deus trouxe-nos o Papa Francisco, que como grande líder que é, inspira-nos que nada nem ninguém nos pode impedir de caminharmos juntos em auxílio de todos. Já teríamos a passar em Almeirim muitos turistas que caem em Lisboa e neste momento já se atropelam. Temos criticado o Festival da Sopa da Pedra e do “Petisco” por ser uma continuação das Festas da Cidade. Melhorou muito com a mudança do local e com as alterações produzidas. A Confraria tem sido extraordinária. Mas queremos que o Festival seja da Sopa da Pedra e do Vinho. A palavra “petisco” é redutora de um festival que se pretende para o país e não só para os almeirinenses. É preciso mostrar aos visitantes os ranchos, a banda, o coral e outras associações locais que são a nossa cultura. O festival tem de ser gastronómico e cultural.

Ainda defende uma fusão das adegas?
Claramente. Há muitos anos que defendo isso. No princípio do último mandato de Sousa Gomes, quando distribuiu 500 000,00 € pelas adegas, disse, publicamente, e na sua presença, que tinha perdido a oportunidade de ficar na história do vinho no Ribatejo. Fizemos uma proposta para reunir com as Adegas Cooperativas, que foi aprovada por unanimidade. Foi preciso muita pressão para reunir os presidentes das adegas. Foram feitas sugestões que ficaram de pensar, uma delas foi a de começarem por comprar energia em conjunto. Penso que foi uma reunião histórica, porque nunca tinha acontecido. Ficámos agradavelmente surpreendidos com a disponibilidade do Presidente da Adega de Almeirim para discutir o assunto. Passaram meses e como não havia notícias, começámos a pressionar o Presidente para escrever às adegas para saber que evolução tinha havido. Depois de muita insistência, lá saiu uma carta muito pouco “entusiasmante” por parte da Câmara a perguntar às Adegas qual o ponto da situação. Aquilo que tínhamos sugerido ao Presidente da Câmara é que pedisse aos Diretores das Adegas que levassem o assunto às suas assembleias gerais e ouvissem os associados. Questionei o Presidente da Câmara sobre a resposta às “frias” cartas que tinha enviado, e disse que não tinha obtido resposta. Isto resolvia-se com uns telefonemas aos Presidentes das Adegas a criar-lhes entusiasmo e esperança. Quando lançámos esta ideia, havia a promessa de disponibilidade do IAPMEI para participar neste projeto, que é bom para todos. Mas não houve vontade política para levar por diante o projeto reestruturante do setor do vinho em Almeirim. Não sei se por falta de visão ou por receio que tivesse sucesso, e a ideia fosse da oposição. Não é esta a nossa maneira de estar. Queremos é o melhor para todos, venha de onde vier.

Consideram que Pedro Ribeiro é o principal favorito a vencer as próximas eleições autárquicas?
Penso que ainda não há candidatos, logo não podemos responder a essa pergunta.

Qual o timing que consideram ideal para apresentar os candidatos às eleições autárquicas de 2017?
Não tenho muita experiência em campanhas eleitorais mas penso que é necessário estar no terreno pelo menos oito a nove meses antes do ato eleitoral. É com tristeza que vejo os políticos no poder começarem a próxima campanha eleitoral no dia seguinte à tomada de posse.

Será Manuel Sebastião novamente a cabeça de lista de uma coligação de direita nas autárquicas em Almeirim?
Em Janeiro de 2013 não me passava pela cabeça candidatar-me. Depois acabou por acontecer, em função das promessas que me foram feitas e que acabaram por não serem cumpridas. Nunca pensei candidatar-me a qualquer lugar político e depois acabei por aparecer.

Acha que PSD e CDS devem ir juntos ou separados em 2017?
Penso que podem ir juntos, para terem força. Devem agrupar pessoas, não só pessoas dos partidos, mas outras que tenham ideias e que estejam disponíveis para fazer serviço público. A meio do mandato convidei para um lanche todos os que incluíram a minha lista, para lhes dar conta do que tinha feito e pedir que alguém me substituísse, para ganhar experiência e ter outra maneira de trabalhar. Nunca tinha participado na Gestão Pública e sinto que apreendi e hoje tenho muito mais experiência e conheço os dossiers que não conhecia no início. Ninguém me quis substituir e fiquei. Não ganhei nem vou ganhar nenhum valor monetário com a minha participação no Executivo. Vou fazer o melhor que souber sempre a pensar nas pessoas.

Quantas vezes já reuniu com Nuno Fazenda (presidente da concelhia PSD Almeirim)?
Não reuni nenhuma, nem fui contactado para qualquer reunião.

Gostava que lhe tivesse sido atribuído algum pelouro?
Sim, gostava de ter o pelouro da ação social e do desenvolvimento económico. Este último nem existe. Não é uma preocupação do Executivo. Tenho experiência da ação social e conseguiria trabalhar em rede com todas as instituições e fazia muito mais com os mesmos gastos. Teria informação dos idosos que vivem sozinhos, e alguns abandonados, dentro do Concelho. Muitos aparecem no Centro de Saúde e têm o aspecto de não tomarem banho há várias semanas. Pedimos estes números ao Presidente, que nos remeteu para os números da GNR. Os números da GNR, não os da freguesia de Almeirim. No desenvolvimento económico conseguiria juntar à mesa muitos empresários e promovia a realização de várias Feiras de Produtos Agrícolas, com debates de vária ordem e ajudaria na procura de financiamento para os projetos que fossem exequíveis. Almeirim não seria a mesma. Almeirim estava no “Mapa” Estaria a funcionar um Posto de Apoio aos Empresários. Há um protocolo para abrir uma incubadora de empresas junto à Câmara, mas já lá vai um ano e ainda não abriu.

A quem pede opiniões sobre questões políticas?
Não peço opiniões políticas a ninguém. Falo com os almeirinenses e tento saber quais são as suas preocupações e problemas. Por vezes, viajo no Tua para ouvir as pessoas.

Alguma vez se imaginou ser de esquerda?
A minha preocupação são os mais desfavorecidos e os desempregados, em suma, as pessoas. Não sei se isso é direita ou esquerda.

Já alguma vez foi a algum comício do PSD?
Não. Apenas fui a um comício no Verão Quente de 1975. Foi em Santarém, onde os principais oradores foram Mário Soares e Amaro da Costa. Foram milhares de pessoas e numa altura muito difícil para Portugal.

Alguma vez foi a alguma manifestação?
Sim, fui a duas manifestações para defender o vinho. Uma da Cap e outra da Fnadegas, ambas junto à Assembleia da República contra a redução da taxa de alcoolémia de 0,5 para 0,2. A decisão do então Secretário de Estado da Administração Interna mudou os hábitos dos portugueses, tendo reduzido consideravelmente o consumo do vinho, prejudicando os viticultores. O consumo nunca mais foi o mesmo. Os políticos muitas vezes tomam decisões sem pensar no impacto que podem ter na vida das pessoas. Depois voltou ao 0,5 mas não se recuperou o consumo.

O que faz Manuel Sebastião nos tempos livres?
Visito idosos e doentes, leio e jogo golfe.

A que brincava quando era pequeno?
Futebol, com uma bola de trapo.

Qual o último filme que viu?
Acerto de Contas.

E o último livro?
A Rapariga no Comboio, de Paula Hawkins.

Vê telenovelas? Se sim, qual?
Não gosto de telenovelas.

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