A ocupação de Santarém (3ª Parte)

A propósito das travessias do Tejo, deu-se também um episódio peculiar, que consistiu na tentativa de construção de uma ponte de barcas junto a Santarém, sob a responsabilidade do general Éblé, comandante da Artilharia. A questão interessante é que o ermamento da região foi tal, que não havendo materiais disponíveis, o general terá ordenado a demolição de casas abandonadas na vila, de maneira a conseguirem obter madeiras, barrotes, ferro, dobradiças, fechaduras e pregos, então tão necessários à construção da ponte. Trabalhos que avançaram de imediato, tendo sido estabelecido, para o efeito, um “estaleiro onde todos os operários do exército se deslocaram para construir barcos” (21). O único problema, que não foi considerado, foi que as casas da vila de Santarém “eram de uma construção tão ligeira que poucas pranchas delas retiradas poderiam servir, e nem a demolição de toda a vila as fornecia em quantidade suficiente” (22) – razão, portanto, do seu insucesso. Contudo, nas suas memórias, o General Marbot também fornece o testemunho de uma segunda tentativa, em que se vê a repetição do mesmo processo empregue em Santarém, só que desta feita mais a Norte, junto à foz do Zêzere: “O marechal Massena, temendo que faltassem víveres na margem direita do Tejo, resolveu abrir um novo carreiro ao levar uma parte do seu exército para a margem esquerda do rio, para a fértil região do Alentejo. Para tal, o generalíssimo francês mandou atravessar o Zêzere a uma divisão que se apoderou de Punhete (23), pequena cidade situada na confluência deste rio com o Tejo. Este lugar parecia muito favorável à construção de uma ponte, que nos poria em comunicação com o Alentejo, mas não tínhamos materiais. O zelo e a actividade do general Éblé, secundado pelos oficiais de artilharia dos quais era um digno chefe, acorreram a tudo. Construímos ferrarias e oficinas de serração; confeccionámos utensílios e peças em ferro, pranchas, âncoras e cordas; construímos, por fim, muitos barcos e todos estes trabalhos, que avançavam como por magia, puderam em breve conceber a esperança de construir uma ponte sólida sobre o Tejo.” (24) (21) MARCEL, Capitão Nicolas – Campanhas em Espanha e Portugal, 1808-1814. 2008, p.113. (22) KOCH, General – Memórias de Massena: Campanha de 1810 e 1811 em Portugal. Introdução e notas de António Ventura, tradução de Manuel Ruas. Livros Horizonte, Lisboa 2007, p. 130. (23) Actual vila de Constância. (24) MARBOT, op. cit., pp. 87-88.

 

Gustavo Pacheco Pimentel – Investigador

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