A ocupação de Santarém (2ª Parte)

Mas um dos problemas da sorte francesa foi que o generalíssimo se enganara redondamente quanto à esperada abundância de víveres na zona do Tejo, isto porque o governo português havia tomado providências para que todos os cereais e frutos, produzidos entre a Chamusca e Samora Correia, fossem no imediato colhidos e transportados para a capital. O que fazia com que aos franceses só restasse a alternativa de abastecimento em Santarém na zona do bairro, e a “ferro e fogo” com os lavradores. (18) Nas suas memórias, o General Barão de Marbot testemunha estas dificuldades: – “Durante esta longa estadia, os ingleses viveram bem, graças aos mantimentos que o Tejo lhes trazia de Lisboa. Quanto ao nosso exército, a sua existência foi uma das mais incompreensíveis, porque não tinha nenhum depósito e ocupava um terreno muito reduzido em relação ao grande número de homens e cavalos que era preciso alimentar.” (19) Por outro lado, ele testemunha também a organização de uma pilhagem em larga escala, como solução, de maneira a fazerem frente à escassez iminente de mantimentos. Ao mesmo tempo, uma exaltação às virtudes do exército francês e à sua capacidade recreativa em tempos de provação – “A penúria era imensa, mas também nunca a paciência e a laboriosa actividade das nossas tropas foram tão admiráveis!… Tal como numa colmeia, cada qual contribuiu, de acordo com as suas faculdades e a sua vontade, para o bem comum. Viu-se logo, graças aos cuidados dos coronéis e dos seus oficiais, formarem-se em todos os batalhões e companhias oficinas de trabalhadores de todos os tipos. Este regimento, organizando a pilhagem a grande escala, enviava para longe numerosos destacamentos armados e bem comandados, que, empurrando à sua frente milhares de burros, voltavam carregados com provisões de toda a espécie e traziam, à falta de bois, muito raros em Portugal, imensos carneiros, porcos e cabras. No regresso, o espólio era partilhado entre as companhias, de acordo com as respetivas energias e uma nova pilhagem saía em expedição. Mas, como as regiões próximas ao nosso acantonamento ficaram mais ou menos esgotadas, os nossos soldados que andavam a pilhar afastaram-se mais. Houve quem tivesse levado as suas excursões até às portas de Abrantes e de Coimbra, muitos atravessaram o Tejo”. (20) (18) SERRÃO, Op. cit., p. 86. (19) MARBOT, Op. cit., p. 84. (20) Idem, ibidem, p. 84.

 

Gustavo Pacheco Pimentel – Investigador

.