Adolescência – quando a alma deixa de caber no corpo

Foram recentemente publicados os resultados de um estudo da OMS sobre a adolescência, onde participaram 220 mil adolescentes de 42 países europeus e do Norte da América.
O grande objectivo era avaliar hábitos, consumos, comportamentos com impacto na saúde física e mental, em diferentes fases de crescimento.
Portugal foi um dos países participantes e para o resultado contribuiu a inquirição a 6000 adolescentes que responderam a um inquérito em contexto de sala de aula.
Têm surgido várias análises, reflexões e considerações sobre os resultados, sendo que os mesmos não nos podem deixar indiferentes.
De nada resultará participar em estudos desta importância e grandeza, se os mesmos não nos servirem para procurar e criar medidas corretivas e práticas adequadas para a reparação dos resultados que nos colocam em lugares desfavoráveis e põem em risco o bem-estar e a saúde dos nossos jovens.
Nem tudo é mau, e nem tudo vai mal com os nossos adolescentes.
Mas são os maus resultados que nos devem deixar preocupados, e sem dúvida nenhuma que temos motivos para preocupações.
De uma forma sumária, e sem dispensar uma leitura atenta a todos os indicadores, dizem-nos as más notícias que na faixa etária entre os 13 e os 16 anos o consumo de álcool, tabaco e droga diminuiu (menos mal). Mas entre os 17 e os 18 anos estes números têm tendência para estabilizar ou até mesmo aumentar.
A droga mais consumida foi a cannabis e o seu consumo também revelou um abrandamento. Mas quando se fala em anfetaminas, os seus valores aparecem estáveis nas faixas etárias mais elevadas.
As diferenças dos consumos destas substâncias entre género tendem a desaparecer, e a embriaguez, mesmo com bebidas destiladas, afeta da mesma forma rapazes e raparigas.
Somos dos países onde há menos jovens a gostar da escola. Dentro da própria escola, as aulas são o que menos os atrai.
Um em cada três jovens diz sentir-se deprimido pelo menos uma vez por semana.
As meninas portuguesas de 13 anos são as que têm maior excesso de peso entre todas as jovens analisadas.
O país tem a 16ª taxa mais alta de alunos de 11 anos que se identificam como já tendo sido vítimas de bullying.
Pois é, parece que escolhi todos os maus resultados para vos trazer aqui. Parece que apenas valorizei aquilo que temos de negativo e as más notas que obtivemos.
Desenganem-se os mais cépticos. Fiz a minha análise e reflexão de uma forma realista e chamando a mim a responsabilidade de alguém que trabalha com jovens e com o seu bem-estar.
Enquanto mãe, profissional e cidadã, sinto-me um pouco frustrada e inquieta.
Mas nada me faz resignar e deixar de procurar soluções.
Sinto, no entanto, que as respostas têm de vir de todos nós, e em particular de quem detém cargos de poder e com capacidade de efetuar grandes mudanças.
O que se passa com os nossos jovens, que recorrem a energias alternativas para se sentirem bem? Que se passa com os nossos jovens que não conseguem ser felizes e divertir-se sem o recurso a estimulantes? Que se passa com os nossos jovens, que assumem comportamentos de risco para ser aceites entre os seus pares? Que se passa com os nossos jovens para se sentirem deprimidos? Que se passa com os nossos jovens, que exercem violência sobre os outros por puro prazer?
Será que se passa algo com os nossos jovens?
Até que ponto conseguimos nós, família, escola, instituições, dar respostas a estes “meninos” e acompanhar o seu crescimento e todas as mudanças a que os sujeitámos nos últimos tempos?
Mudanças sociais, tecnológicas, económicas. Será que os estamos a preparar para viver neste mundo que nós construímos e depois apenas exigimos que entendam? Quando nunca os questionámos ou demos hipóteses de participação? Um mundo concebido com as nossas escolhas, as nossas regras e consequentemente os nossos erros.
Que escola temos nós? Por um lado a exigência de uma escolaridade obrigatória de 18 anos. Por outro lado uma escola que não cativa os jovens, não lhes incute segurança e não acompanha a sua evolução.
Os nossos jovens mudaram, e nós? Soubemos acompanhar essa mudança, ou mantivemo-nos como simples espectadores? Ocupados com as nossas próprias mudanças.
Certo é que muita coisa vai mal. Certo é que muita coisa precisa mudar. Não possuo nenhuma fórmula mágica. Não sei os segredos que nos conduzem para a mudança. Talvez seja preciso observar e beber em experiências positivas de outros países. E acima de tudo, saber aprender com os erros.
É preciso analisar, refletir e sobretudo procurar soluções para mudar.
Afinal, porque procuram os nossos filhos colo noutros braços?

Maria Clara Pó
Presidente da Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Almeirim

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