Mensagem Pascal do Bispo de Santarém

A Páscoa é o acontecimento fundante da fé cristã. Está na sua origem e deve dar forma à vida dos crentes e a todas as expressões da sua fé. Ser cristão é, essencialmente, acreditar que Cristo ressuscitou como nova criatura e como primogénito de muitos irmãos. Por isso, todos somos chamados a participar deste acontecimento traduzindo-o na vida nova dos filhos de Deus. Se não acreditamos no mistério pascal, é vã a nossa fé. Se acreditamos então as nossas maiores preocupações serão viver e testemunhar a Páscoa.

Preparamos a Páscoa ao longo dos Quarenta dias da quaresma. Temos bastantes exercícios espirituais que ajudam a viver esta estação litúrgica, como: renúncia quaresmal e partilha de bens; encontros de formação cristã; Via Sacra; celebração do sacramento da reconciliação; e outras). Mas a Quaresma existe em função da Páscoa. Não podemos cuidar apenas do caminho e esquecer de saborear a meta que é a Páscoa. Seria como permanecer na cruz sem chegar à ressurreição. Como alerta o Papa Francisco: “Há cristãos que parecem ter escolhido viver uma Quaresma sem Páscoa”(EG 6). Portanto, saboreemos e testemunhemos a luz e a alegria da Páscoa que ilumina o mundo e fundamenta a nossa esperança.

Uma das principais imagens para representar este mistério é a do sol nascente que rasga a escuridão e traz a luz do novo dia. Realmente, a Páscoa afirma a vitória da luz sobre as trevas e da vida sobre a morte. A nossa impressão, baseada nas realidades visíveis, é a de que a existência humana se apresenta como um caminho para a escuridão da morte. A Páscoa de Cristo, porém, abre horizontes diferentes que estão para além da realidade visível a nossos olhos. Se Cristo verdadeiramente ressuscitou, a última palavra é da vida e da esperança.

Deste modo, a Páscoa conduz a uma nova perspetiva e a um estilo novo para a existência humana. Viver a Páscoa é caminhar para a plenitude da vida, aproximar-se cada vez mais da luz e da santidade, progredir no caminho da verdade, da justiça e do amor. Assim, o encontro com Cristo Ressuscitado transforma todos os que o experimentam, desde os apóstolos até aos crentes dos nossos dias. Pela fé e pela ação do Espírito Santo, correspondida pelo esforço pessoal da conversão, alcança-se a vida nova em Cristo.

A luz esplendorosa de Cristo Ressuscitado não é para guardar fechada no íntimo de cada um. É um tesouro confiado aos crentes para oferecer ao mundo inteiro, para comunicar a todas as pessoas: às crianças que se abrem à realidade e necessitam de luz que as oriente; aos adolescentes e jovens que procuram um sentido e um objetivo para a vida; a todos os que são tentados pelo agnosticismo cujo fruto é o vazio; aos que têm preconceitos sobre o cristianismo, ou opiniões deturpadas sobre a fé ignorando o essencial e agarrando-se a aspetos secundários.

Como traduzir de forma visível a alegria da Páscoa? Precisamos de valorizar e criar sinais exteriores da esperança e da alegria da Páscoa que ajudem a viver e a anunciar o mistério mais importante da nossa fé. Na continuação dos exercícios quaresmais, podemos pensar em várias iniciativas como: assembleias festivas; concertos musicais ou corais; arranjos florais; marchas ou concertos de filarmónicas; representações de episódios bíblicos; Via Sacra da luz; e outras. As boas festas levadas pelas visitas pascais às casas dos fiéis continuam a ser em muitos lados uma manifestação significativa da alegria pascal. Enfeitar as cruzes e cruzeiros com flores pode ser uma iniciativa interessante. As próprias celebrações dominicais da eucaristia deveriam ser também um anúncio da Páscoa de Jesus. Aliás, para os crentes, todos os dias deveriam ser iluminados pela luz do novo dia da Páscoa: “Este é o dia que o Senhor fez; nele exultemos e nos alegremos”.

Irmãos e amigos que partilhais comigo a fé na Páscoa de Jesus: que a nossa alegria seja sincera e irradiante. Desejo a todos uma santa Páscoa.

Santarém 20 de Março de 2016
Manuel Pelino Domingues, Bispo de Santarém

.