Duarte Chaparreiro resiste a uma atividade em vias de extinção

Duarte Chaparreiro é um dos fotógrafos que ainda resiste dos tempos antigos no mundo dos toiros. Diz sem receio que “o fotógrafo taurino está em vias de extinção. Em entrevista a O Almeirinense, o agora colaborador da Revista Novo Burladero conta as histórias atrás da máquina. Desenhador de profissão teve sempre uma paixão grande pela tauromaquia, ainda que critique quem defende o “tudo certinho” que quem está na festa gosta.

Como e quando surgiu o gosto pela fotografia?
Quanto tinha 19 anos arranjei emprego nas páginas amarelas como desenhador e todos os desenhos que fazíamos eram fotografados para depois serem impressos na revista. Lá existiam fotógrafos de artes gráficas que também eram apaixonados pela fotografia e tinham o seu material. Fomos falando sobre isso e eu comprei uma máquina, depois de ter aparecido um filme Blow Up. Foi aí que comecei…
O facto de estar em Lisboa ajudou. Quando tens interesse numa coisa e falas com alguém há logo outras pessoas que também pensam no mesmo. Apesar de ter sido antes do 25 de abril as coisas já estavam mais evoluídas. Isto terá sido em 1968/1969.

A primeira máquina foi comprada nessa altura?
Sim, comprei um Minolta e comecei a fazer fotografias dentro do espírito das fotografias que eu via nas revistas. Fotografias só branco e preto, pois a cor praticamente não existia. O que existia era nos slides e, normalmente, maus. Só depois do 25 de Abril é que começou a haver laboratórios a cores. Por exemplo, os casamentos eram feitos a branco e preto.

E depois…
Depois aparece a tropa e resolvi dizer que era fotógrafo da Revista Flama e que era desenhador quando preenchi a ficha da recruta. A parte do desenhador era verdade, a outra não.
Quando me perguntaram qual era a especialidade, fui prestar provas aos serviços cartográficos do exército e não fiquei porque o meu desenho era pouco conveniente politicamente e ganhou um indivíduo com um desenho mais lamechas e mais conveniente para a altura. Fui para a unidade e fui colocado em Lisboa onde tirei a especialidade de fotocine. Ai tive também umas luzes do que era fotografia e cinema.

A tropa surgiu com que idade?
Entrei em abril e fiz 21 anos em agosto.

E as primeiras fotos de toiros surgiram quando?
Recordo-me bem foi com Carlos Ferreira “Carlos Carrinho de Mão” que entrei nos toiros. Ele disse: “Podias tirar umas fotos e ganhar um dinheirinho e sem mexer no ordenado podias comprar material melhor”. A ideia era boa, mas muitos não pagaram, mas integraram-me no meio e tornaram-me conhecido.

Qual foi a primeira corrida?
Foi em Almeirim uma corrida com David Ribeiro Telles e Luís Miguel da Veiga e com os grupos de forcados do Ribatejo e Évora, em 1971. (foto abaixo)

Com a tal Minolta?
Sim, tinha uma qualidade extraordinária, não tinha era objetivas. Como estava nas páginas amarelas, com uns serões que fiz comprei logo uma objetiva para tirar fotos mais perto.
Andei sempre com o Grupo do Ribatejo. Em 1972 entrou o Rui Barreiros para o grupo e tiveram mais corridas e mais importantes. Como normalmente há dois grupos, o outro grupo pedia-me fotos. Eu nessa altura vivia em Lisboa e era fácil encontrar-me com os forcados de Montemor ou Santarém que ali estudavam … no Café Augusto ou no Gambrinus.

A formação específica foi na tropa?
Sim, mas a mais forte foi com o Zé Carlos – empregado de uma loja Colorfilme. Ele é que me ensinava tudo. A Minolta depois troquei por outra, depois outra … sempre com o Zé Carlos.  Naquela altura, já ninguém se lembra, mas existiam rolos. Hoje com o digital há menos dificuldade.

Mas a fotografar toiros e touradas…
Ainda hoje acho que fotografar toiros é uma arte menor. Podes fazer uma fotografia muito bonita, mas se o toiro não está na posição certa, o cavalo não tem as orelhas bem ou o cavaleiro tem a perna fora do sítio … a fotografia já não vale nada. Isto fotografar corridas é complicado. Têm de se conseguir aqueles momentos que eles acham que são bons. Não podes mostrar um momento em que ele é mau. Isto muitas vezes distorce a verdadeira essência da fotografia. O fotógrafo compõe ou espera que um determinado ângulo ou movimento produza algo bonito.
Nos toiros ninguém repara se a fotografia é bonita, vão logo reparar se os pormenores estão certos. E isso ainda hoje me incomoda.

Mas porque é assim? Padronizou-se?
Sim, o cliente é o artista e todas as fotografias que ele compra são para ele oferecer a alguém ou para uma revista e não vai colocar algo que não esteja bem. Por vezes é preciso prostituirmo-nos, mas é assim.

Nunca viveu da fotografia?
Depois das páginas amarelas tive outros empregos, mas sempre como desenhador. A fotografia tem sido sempre um passatempo/hobby.
Em 2002 fui despedido …

Consegue eleger as fotografias que mais gosta ou que o tenham marcado?
Tenho umas três ou quatro que são marcantes.

São de toiros?
Sim, mas também tenho outras e deixe-me contar-lhe que depois do 25 de abril houve uma exposição de um concorrente do Almeirinense que era o “Notícias de Almeirim” e fizeram uma exposição e cheguei a ter lá fotografias. Nessa exposição cheguei a vender umas fotografias ao Mocito. Uma fotografia com o pôr do Sol mas a branco e preto. Uma fotografia tirada perto da Vala para o lado de Benfica.

Tem pena de não ter seguido essa carreira e esta veia artística?
É mais difícil e como eu trabalhava mais difícil era. Acabou por ser mais fácil os toiros porque era ao fim de semana.

Tem mágoa de não ter vivido só da fotografia?
Não, não. Assim é que está bem. Quando estava a chegar aos 50 anos comprei uma coleção de aprender a pintar desenhar, embora soubesse alguma coisa, não sabia as técnicas de trabalhar com óleo. A intenção era quando fosse despedido ou quando viesse para Almeirim … pintar. É já comecei três quadros e terminei um. Já lá vão três anos para os acabar.

Porque não acabou os outros?
Para isto é preciso viver um estado de bem estar e estado de graça, embora digam que os pintores só pintam quando passam fome, mas hoje em dia não se vende arte. Nos toiros ainda há um certo consumo de pintura. Se pintar alguma coisa é sobre toiros e cavalos. Aqui podem existir conceitos estéticos diferentes …

E as revelações?
Enquanto não tinha laboratório, eu revelava na Colorfilme e depois quando comprei um ampliador, passei a revelar em casa, no meu quarto.
Este ampliador tem uma história linda.

Pode contar?
Numa altura em que eu estava com falta de dinheiro e já tinha deixado as fotografias dos toiros , resolvi vender o ampliador. Estava no Zé Henriques e falei nisso com um indivíduo que me comprou o ampliador. Pagou-me 15 contos. Muito Bom!
Fui a casa dele e montei-o. Usei uma moeda de dois tostões para apertar e deixei-a lá….
Quando decidi voltar a fotografar, fui falar com a pessoa a quem o tinha vendido e perguntei-lhe se me o queria vender…
Ele disse-me que vendia pelo mesmo preço e com a moeda que tínhamos usado. (sorrisos). Edgar Moita foi fiel depositário durante 18 anos…

Terá guardadas milhares de fotografias?
Sim, tenho milhares. Com o digital comecei a fazer em média 400 fotografias por corrida. Faço 70 corridas, por isso é só fazer as contas. No analógico a média era dois rolos por corrida.
Tenho uma que para mim é das mais extraordinárias: Um toureiro a rezar. Esse toureiro morreu uma semana depois e a empresa de Vila Franca fez um cartaz com essa fotografia, nos 40 anos da morte de José Falcão.

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