“A ideia deste conto nasceu num momento de angústia”, Por Daphne van Winkel

Chama-se Daphne van Winkel é formada em teatro, televisão, cinema, escrita cinematográfica e no dia 5 outubro vai apresentar o livro “Sou como unicórnio”. A obra nasceu num hospital e pode ser apenas o início de algo muito sério.

Como surgiu a possibilidade de escrever o “Sou um unicórnio”?

Trabalho como copywriter e faço traduções, além de que também já publiquei um livro e algumas histórias na Holanda. A ideia deste conto nasceu há dois anos atrás num momento de angústia, nos cuidados intensivos do Hospital Dona Estefânia, em Lisboa. A minha filha mais nova, que no momento tinha cinco meses, foi operada de urgência. Algumas horas depois da cirurgia apareceram dois palhaços da operação Nariz Vermelho, no quarto onde ela estava, e começaram a cantar. Trouxeram de volta o brilho aos olhos da minha filha e devolveram a fé e a coragem ao meu coração. Felizmente, agora está tudo bem.

Naquela semana vi muitas crianças com doenças graves. Fiquei impressionada com a maneira como lidavam com a doença. Apesar do medo e das dores, estavam repletas de força e não deixaram de se maravilhar com as histórias, os heróis dos desenhos animados e os palhaços. Senti uma vontade enorme de fazer também algo para elas e  pensei: “porque não escrever?” Com este livro quero trazer magia ao dia a dia de todas as crianças, despertando-lhes a imaginação e estimulando o seu dom de se maravilharem com as simples coisas da vida.

E o gosto pela escrita surgiu quando?

Desde muito nova que gosto de ler. Talvez tenha herdado isso dos meus pais. Quando a minha mãe estava grávida de mim, leu o livro Rebecca da autora Daphne du Maurier. Adorou tanto o livro que decidiu chamar-me “Daphne”. Aquela escritora tornou-se numa das minhas favoritas.
Com cinco ou seis anos adorava ler livros, mas ainda nem tinha aprendido. Os meus pais contam sempre a anedota que quando tinha seis anos, lia jornais inteiros em “Espanhol” durante as férias na praia. Ainda nem sabia ler em Holandês. Desde sempre que adoro histórias. Em criança inventava-as e escrevia-as nos meus cadernos. Com dez anos ganhei um concurso de poesia e com ela ganhei uma viagem a Bruxelas, para participar num evento em memória das vítimas do Holocausto.
Sou formada em Teatro, Televisão e Cinema pela Faculdade de Letras da Universidade de Utrecht, na Holanda. Também tenho formação em realização e escrita cinematográfica pela Universidade de Artes de Utrecht.

Tinha muita coisa já guardada na gaveta ?
Sim, tinha as gavetas cheias, mas esta historia não veio de nenhuma delas. A ideia nasceu mesmo naquele hospital. Mais tarde, já em casa, não conseguia deixar de pensar no assunto e comecei a construir uma história. É um processo de escrever e reescrever durante muito tempo.

O que achou a editora do que lhes mostrou?
Estava com algum receio de mandar o meu trabalho para uma editora em Portugal. Antes escrevia só em Holandês, mas como a minha vida é aqui  e as minhas filhas são Portuguesas, começava a fazer mais sentido publicar o meu trabalho cá. Também adoro a língua portuguesa. É um idioma muito bonito e poético. Para mim, continua a ser um desafio escrever em Português e continuo a estudar para aperfeiçoá-lo. Durante a execução deste livro, contei muito com a ajuda da minha professora Ana Pombo e da editora Andreia Salgueiro (Alfarroba Edições) na revisão do texto.
Mandei o meu trabalho para a Alfarroba Edições, porque é uma editora que se destaca muito no que toca a livros infantis. Recebi logo uma resposta muito positiva. Consideraram uma história muito divertida e colorida, pois faz sonhar e imaginar. Fiquei muito feliz, porque para esta editora cada livro é uma aventura. Fazem muito para os livros voaram até às crianças, através de atividades e eventos. O livro também vem com um guião de trabalho. Isto permitará aos pais, professores e educadores fazerem atividades com as crianças com os temas da história.

Que história é esta?

É uma história sobre a burrinha Rosa, que está um pouco triste fechada numa quinta. Ela quer muito ir passear na floresta, fora dali. Um dia ganha coragem e decide fugir, mas por onde ela passa, todos se riem dela. A aventura não lhe corre como o imaginado… Sente-se desanimada, mas de repente ouve uma voz a chamá-la. É o elfo Dário, que gosta de ver tudo ao contrário. Ele vai tentar ajudar a burrinha. A inspiração para esta personagem principal vem de uma menina que partilhava o quarto com a minha filha no hospital. Ela tinha muitos problemas de saúde, mas era muito teimosa e corajosa para enfrentar os obstáculos que a vida lhe estava a colocar.

E as ilustrações quem as fez?

As ilustrações são da Shelly Perlman Kramer, uma ilustradora profissional e uma das pessoas mais criativas que conheço. Conheci-a há catorze anos quando ela morava em Portugal. Na época já trabalhávamos juntas. Ela transformou-se numa grande amiga. Atualmente vive em Kansas, nos Estados Unidos. Para mim, ela era a pessoa mais indicada para fazer as ilustrações. É um privilégio trabalhar com a Shelly. Só precisa de uma meia palavra para transformar uma ideia numa imagem maravilhosa.

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Um pouco mais pessoal para dar a conhecer a escritora. Quando veio para Portugal? Porquê?
Foram os cavalos lusitanos que me chamaram. Estes maravilhosos animais sempre foram a minha grande paixão. Comecei a montar cavalos lusitanos na Holanda. Fiquei tão curiosa em conhecer a terra natal deles, que viajei para Portugal. Senti-me logo em casa. Isto aconteceu em 2005, depois de terminar a minha formação académica. Decidi viajar para Portugal por alguns meses para conhecer melhor o país. Nunca mais me fui embora.

Já não pensa sair de cá?
Não! Os almeirinenses vão ter que me aturar, porque não saio daqui! Fui adotada por Almeirim de uma forma fantástica. É uma terra muito simpática, com pessoas muito queridas. Fui sempre bem acolhida. 

Como é que na Holanda vêm Almeirim?

Almeirim transmite uma imagem muito positiva. Todos ficam encantados com as tradições, a vida no campo, o rio Tejo, a boa gastronomia e a tranquilidade. Ao mesmo tempo, é uma terra muito dinâmica, porque há sempre algo a acontecer, como festas e eventos. Também estamos perto de Lisboa e das praias. Aqui, à nossa volta, há muitos sítios lindos para descobrir.

Gosta de sopa da pedra?

Claro que sim!

E já está na calha outro livro?
Sim, a gaveta está sempre cheia de ideias. Quero muito continuar neste caminho e já estou a preparar novos projetos. Por agora o foco está no livro“Sou um Unicórnio”, mas depois sim, haverão novas surpresas.

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