Russa: Rapper que dá nas vistas em Portugal mas é ignorada no concelho

Entrevista da edição em papel de 1 de agosto

Nestes últimos dias, semanas, isto houve aqui uma série de boas notícias!
Sim, acho que já foi em maio, digamos que, se calhar, nos últimos 30 dias, praticamente. Recebi o prémio “Novos Talentos FNAC”, na categoria de música, e agora, o prémio “Revelação do Mimo”, do festival “Mimo”. Então foram os meus dois primeiros prémios a nível nacional, e, claro, um grande avanço para mim, que nunca tive esse tipo de destaque, a nível do País.

A que é que achas que se fica a dever, em tão pouco tempo, estes dois gran­des momentos?
Eu não acho que seja em tão pouco tempo, porque acho que até há pouca gente que tenha lançado tanta coisa como eu lancei. Desde 2017, lancei cinco projetos, ou melhor, o quinto vem agora em agosto, e é um ritmo de lançamentos que poucos artis­tas mantêm e, mesmo no meu caso, terei de reduzir bastante, porque nem o próprio público consegue ficar a par de tanto material que vai saindo, mas, simplesmente, acho que é fruto do trabalho já com tanta coisa cá fora, ia acabar por acontecer de qualquer forma.

E porquê este ritmo, já que achas que, se calhar, é acelerado demais?
No meu caso isto não foi propositado, simplesmente quando me apetecia escrever alguma coisa, escrevia e de repente já tinha outras 30 músicas no estúdio, ou assim. Então, se eu acho que essas músicas têm qualidade na mesma, não vejo por que deixá-las ali ou mandar para o lixo se têm qualidade para estar cá fora, mesmo que seja só uma ou duas pessoas a ouvir. Então, o meu plano para 2019 era lançar todas estas músicas que já estavam em estú­dio e que se tinham acumulando por causa da minha febre de escrita, mas agora tenho que começar as coisas de forma mais pensada e lançar menos e de forma mais séria para o público, digamos assim, de forma a que as pessoas percebam melhor quando é que as coisas saem para que possam também estar a par, porque maior parte das pessoas têm uma rotina bastante atarefada e não conseguem estar a par de tanta coisa. Ainda por cima, hoje em dia, com tudo o que vai aparecendo na internet.

Onde é que vais buscar inspiração?
Eu não tenho uma inspiração especí­fica. Eu consigo escrever sobre tudo: quer sobre mim, quer sobre o que vejo à minha volta, e não há uma temática que eu possa dizer que me inspira. Acho que as pessoas ainda não podem apon­tar uma temática específica desenvol­vida por mim porque eu consigo ir um bocado a tudo e, mesmo em termos de instrumentais, tanto vou um dia ao estúdio gravar uma coisa com um ins­trumental mais metal, como noutro consigo gravar uma coisa que é o hip hop mais clássico. Portanto, não tenho essa necessidade de escolher um tema, até porque acho que não serei mesmo artista de ter uma temática específica, vou escrevendo só sobre o que me ape­tecer naquela altura.

E depois a parte musical, como é feita?
Anteriormente, eu comprava os beats a produtores, pessoas que já sabia que tinham qualidade, que mandavam pastas com vários instrumentais, eu acabava por ouvir e se gostasse de algum começava a escrever e com­prava esses instrumentais só à dis­tância. De qualquer forma, depois fiz algumas mixtapes, então aí, são ins­trumentais de uso livre: qualquer pes­soa pode usar, e agora estou a começar a trabalhar de forma diferente, tam­bém, é essa uma viragem em 2019, porque eu estou a terminar de lançar tudo o que tenho em estúdio e a partir de agora tudo o que eu faço vai ser de forma diferente, com os mesmos pro­dutos, mas em vez de ser à distância, é fazer um esforço, em vez de ouvir os instrumentais e escolher um para escrever, agora é marcar uma sessão; estarmos ali, nem que seja 24 horas; ouvir aquele instrumental, eu a escre­ver e eles a adaptarem o instrumental ao mesmo tempo; é um trabalho mais de equipa, e há muito mais energia em cada single por não se fazer as coisas à distância, separadamente, fazer tudo ali e no fundo é isso, trabalhar com as mesmas pessoas com quem eu fui ganhando confiança, ao longo destes cinco projetos: há três ou quatro pes­soas que se destacam e dessas três ou quatro é criar essa energia em estúdio.

Este prémio FNAC como é que surgiu? Foste tu também que submeteste, ou foi um bocadinho ao contrário? Como é o procedimento deste?
Sim, neste caso do prémio FNAC, acho que algumas pessoas já me tinham enviado, até em anos ante­riores, e eu nunca tive oportunidade de concorrer, porque não tinha tempo ou podia surgir alguma coisa assim deste género. Entretanto, este ano, vi que tinha aberto o concurso, inscre­vi-me, mas quando recebi o email eu já nem sequer me lembrava, porque já tinha passado algum tempo, e quando soube, obviamente, fiquei bastante contente, mas só na Gala é que soube que tinha ganho, eu inicialmente só soube porque estava nos finalistas para o CD dos novos talentos de FNAC, que é editado todos os anos, e depois, na própria gala, mesmo na altura em que anunciam, é que eu soube.

O “Mimo”. Foste tu que te candida­taste a este prémio, a este projeto?
Este, na verdade, tenho que agrade­cer a um dos meus produtores, porque nós estávamos em ensaios, nós temos estado a criar um concerto novo com novos arranjos das músicas, sem ser um concerto só com DJ, mesmo com banda, e ele tinha inscrito outra banda dele, chegou lá e disse que eu devia inscrever-me: “Olha, achei este concurso, quando chegares a casa devias ir inscrever-te porque eu acho que isto é muito a tua cara”. Depois acabei por me inscrever e acabei por ser selecionada, mas foi ideia dele, eu não conhecia o concurso, na altura, até porque foi a primeira edição cá em Portugal.

E em relação ao presente e ao futuro, nesta altura ainda estás no Algarve? Como é a tua vida?
Eu continuo a morar no Algarve, não sei muito bem como é que vai ser, por vezes é bastante cansativo, ainda ontem vim do Algarve até Lisboa, depois estive lá a trabalhar em estú­dio, faço umas entrevistas, às vezes venho dormir aqui às Fazendas, depois volto ao Algarve, são mesmo muitos quilómetros, mas nesta fase ainda é perfeitamente possível gerir tudo isto. No entanto, no futuro tenho que ver, porque, por exemplo, no caso do “Mimo” não era suposto eu ir atuar ao festival de Amarante, mas eles acabaram por me convidar na mesma, mas, por exemplo, neste caso é para ir fazer só um concerto de 15 minutos. Quando há este tipo de situações, fazer sete horas de via­gens para um concerto de 15 minutos, às vezes não se justifica. Mesmo se eu estivesse em Lisboa, a diferença não era assim tanta. O nosso país também é pequeno e, normalmente, quando as coisas já estão organiza­das e os artistas mais experientes já têm tudo organizado com montes de meses de antecedência, e, neste caso, dá para ter tudo arranjado: em vez de uma pessoa ir de carro ou de comboio, vai de avião, e do Algarve ao Porto há aviões que vão super-rápidos, acho que não é uma limitação assim tão grande, mas, às vezes, por falta de estrutura, por não ter um manager ou outra pessoa a ir comigo até Lisboa, o problema não é só a viagem em si, é ter que fazer a viagem, tratar de mui­tas coisas e gerir todo o tempo e todas as tarefas.

Essa é uma das mudanças que vai ter que acontecer na tua carreira? Vais precisar de um manager e dessas coisas todas que os que estão lá no patamar mais em cima precisam?
Sim e não. Porque, por um lado, como também tenho formação na área de gestão, na área empresarial, não pre­ciso de certas coisas, porque eu já tenho a minha própria visão e a minha própria estratégia, não só em termos artísticos, como em termos empresa­riais. Então, ter ali outra pessoa não adiciona muito valor, é mais no sen­tido de organização: as ideias já estão lá, já sei o que é preciso fazer, é mais ter alguém que ajude neste sentido. Mas, neste momento em particular, o mais importante é mesmo ter agente de booking, não sei como é que se diz em português, reservas!

E quando é que teremos a possibili­dade de te ver aqui a atuar na nossa terra?
Ainda bem que perguntas, porque na verdade é um desgosto que eu tenho. Eu recebo propostas praticamente do país inteiro, ainda agora tive a pos­sibilidade de ir atuar ao Brasil com este prémio “Mimo” e, nesta zona, parece que as pessoas não querem mesmo saber do meu trabalho, e isso é uma coisa que ofende, mesmo, por­que chamam artistas de tantos sítios, e ter uma pessoa que apresenta um trabalho de qualidade nacional que nunca recebeu qualquer tipo de pro­postas é uma pena; eu já entrei em contacto com as câmaras… E eu não estou só a falar por mim porque eu sei que há outras pessoas de outras áreas: seja no Fado ou mesmo no Rock, sei que há aqui bandas de qualidade, há artistas de qualidade que por vezes são desvalorizados, simplesmente por serem daqui, e às vezes os promotores preferem trazer uma pessoa de fora, simplesmente porque é de fora, acaba por gastar mais dinheiro e o espe­táculo não tem qualidade superior, em vez de chamaram pessoas daqui que, se calhar, até tinham gosto de atuar na terra. Isso é uma pena que eu tenho, porque ainda ontem tive para aí dez chamadas, entre entrevistas e concertos, e isso é uma coisa que vai acontecendo constantemente, mas parece haver um desinteresse total, nesta zona onde eu cresci.

És mesmo das Fazendas ou de Almeirim?
Eu sou das Fazendas, mesmo.

Tens orgulho em ser charneca?
Sim, e morei aqui até aos 18. Portanto, ainda foi bastante tempo, as pessoas sabem que eu sou daqui.

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