A Tília do Cemitério, por António Godinho

Escrever acerca de árvores apresenta-se incumbência demasiado longa, bastan- te complexa e extremamente técnica, quiçá monótona para as páginas de um jornal.

Assim, opto por tecer algumas considerações gerais que julgo interessantes para a compreensão da causa que levou à rutura do ramo da Tília tomentosa no Cemitério de Almeirim. As árvores existem há cerca de 400 milhões de anos, têm uma extraordinária capacidade de adaptação, foram e continuam a ser fortemente condicionadas pelos movimentos da terra e pela ação do homem. A translação determina a fenologia, (forma abreviada de Fenomenologia) ramo da Ecologia que estuda os fenómenos periódicos dos seres vivos e suas relações com as condições do ambiente. A rotação permite, por um lado, o desenvolvimento da fotossíntese, realizada de dia, com produção de clorofila e de oxigénio, e por outro, a respiração celular, efetuada de noite, com a libertação de dióxido de carbono. São seres vivos altamente prestáveis, expressam-se morfologicamente, não sendo, em meio urbano, na maioria dos casos, compreendidas pelo homem. A sua copa vai medrando com a ida- de: da primitiva forma circular tendem a passar para a elíptica; no hemisfério norte apresentam notório crescimento para o quadrante sul, a que não é alheio o fototropismo, a direção do vento e o movimento aparente do sol. Para os nossos conterrâneos mais velhos, menos distraídos e ligados à agri- cultura, a rutura da pernada mais longa de árvores, (por ex., em figueiras) em dias de calmaria não é novidade, sendo sempre a culpa atribuída ao desleixo. No dia 6 de junho, em Almeirim, o vento estava de sul, tento rodado para oeste, com a velocidade de 25 Km/hora, o que, tendo em conta Beaufort, que classifica este elemento da natureza em “grau” e em “efeitos na terra”, numa escala de 0 a 12, sendo0=Calmoe12=Furacão e os efeitos destes na terra estendem-se de “Fumaça que sobe na vertical” (0) e “Estragos generalizados nas construções”(12). Esta escala, internacionalmente aceite, e à qual, no caso da tília, corres- ponde o grau 4 com a designação de brisa moderada, cujo efeito que provoca na terra é: poeira e pequenos papéis levanta- dos, movendo os galhos das árvores.

Fica, portanto, demonstrado tratar-se tecnicamente de brisa moderada, a qual, também, não pode ser a causadora, nem que seja por acréscimo, da rutura da pernada. Todos desejamos a análise pormenorizada da ocorrência, para que, no futuro, e com outros ventos, não haja consequências desastrosas. É meu dever, como cidadão e técnico, alertar para a leitura e o enquadramento correto desta conjuntura, que é um alarmante aviso aos responsáveis autárquicos, tendo em conta a morfologia

Quero acreditar que a tal equipa técnica, e mais o resto da rapaziada lá do instituto sabe quem foi o Dr. Alex Shigo, conhecido como um dos mais eminentes conhecedores da biologia das árvores, e, claro, de muitas outras matérias relevantes, incluindo a poda. Deslindar a ficção, (Despacho 781/2019), para justificar a realidade não é, seguramente, tarefa fácil.

e o estado sanitário das árvores do nosso Concelho nas escolas e áreas envolventes, jardins, parques, largos, avenidas e ruas. Surpreendidos ficaram os mais atentos com o facto de, passados menos de seis meses da publicação do Despacho no Diário da República, tal tenha acontecido em meio urbano, ainda por cima num exemplar acompanhado por uma equipa técnica do Ministério da Agricultura, do ICNF, (Ver notícia neste jornal de 15 de junho). Como a leitura do Diário da República n.o 13/2019, Série II de 2019- 01-18, pode tornar-se massuda, passo a citar apenas o Despacho Nú- mero: 781/2019 e quatro extratos: Emissor: Ambiente e Transição Energética e Agricultura, Florestas e Desenvolvimento Rural – Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas, I. P. Parte: C – Governo e Administração direta e indireta do Estado. 1o extrato: “O exemplar arbóreo referido não apresenta sinais de pouca resistência estrutural, de mau estado vegetativo e sanitário ou risco sério para a segurança de pessoas e de bens…” 2o extrato: “Desenho, a sua majestosa copa, permite-lhe ser aprecia- do pelo parâmetro forma e estrutura… A sua folhagem persistente…” 3o extrato: “ Foi ouvida a Junta de Freguesia de Almeirim, proprietária do arvoredo e do espaço envolvente, bem como a Câmara Municipal de Almeirim tendo havido uma pronúncia, no sentido de reduzir a zona geral de proteção, de 30 para 20 metros.” 4o extrato: “idade estimada de 110 anos,… Carecem de autorização prévia do ICNF, I. P., … a poda de formação…” Estes quatro pontos merecem os seguintes comentários: no 1o, a natureza contraria rotunda e claramente as afirmações produzidas; no 2o, tendo em observância os conhecimentos de Conrad Moench, médico, botânico, pteridólogo, químico, professor universitário em Magdeburgo, e classificador (que foi) desta espécie, a tília tomentosa é uma árvore de copa piramidal, ramos ascendentes, folha persistente, que tem o seu habitat na Zona Temperada, tendo a particularidade de, a sul, se tornar caducifólia (como no nosso caso) e que cresce até aos 25 metros, tendo 20 metros de diâmetro de copa como valores médios para o exemplar em questão, é uma das espécies arbóreas conhecidas por mais facilmente entrarem em rutura potencial. Estamos perante uma árvore de copa desestruturada e atarracada (para a espécie) com ramos pendentes, folha caduca e que ruiu, ipsis verbis; no 3o, o termo arvoredo é um exagero, já que em português signi- fica conjunto de árvores. É para mim uma revelação, nunca pela cabeça me passou que em questões técnicas se podia fazer um desconto, no caso, aparentemente de 33,33%, isto é, de 30 reduzem a zona geral de proteção para 20 metros. Como facilmente se compreende, uma árvore com 18 metros de diâmetro, (e 15 de altura) se fosse saudável, não apresentando problemas vasculares que comprometeram gravemente o normal crescimento, segundo as descrições para a espécie e aplicando rudimentares conhecimentos matemáticos, (regra de três simples) seguramente, teria uns 22,50 metros de altura, digo eu. Ao ser aplicada a fórmula de cálculo da área geral de proteção, (raio é igual ao dobro da altura) chegaríamos fácil e hi- poteticamente a um valor de 45 metros, a que corresponderia, no presente caso, um desconto, para amigos, de 56%, o que é notável ; e no 4o, afirmo que não seria de esperar outra coisa, “só com autorização do ICNF, I. P.” se podem fazer podas de formação em árvores com 110 anos; no entanto, propunha uma terminologia que fosse mais englobante, sem esquecer a sanidade vegetal, está claro. Assim, sugeria a V. Exas, ICNF, a original denominação de “Podas de Formação Geriátricas”!… Acho um bom nome “pá” coisa. Quero acreditar que a tal equipa téc- nica, e mais o resto da rapaziada lá do instituto sabe quem foi o Dr. Alex Shigo, conhecido como um dos mais eminentes conhecedores da biologia das árvores, e, claro, de muitas outras matérias relevantes, incluindo a poda. Deslindar a ficção, (Despacho 781/2019), para justificar a realidade não é, segura- mente, tarefa fácil. Pela demora, a tese está intrincada, há nomes em documentos, pareceres determinantes para outro negócio, tudo tem um certo emaranhamento, mas como o leitor compreende, o assunto é a tília que foi vítima dos certificadores. Resta-nos aguardar, possivelmente sentados, para ver como irão descalçar a bota.

António Godinho, Eng. Técnico Agrário

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