“Fui apanhado um pouco de surpresa” – Entrevista a Manuel Francisco

Como surgiu este desafio?

Antes de mais, quero agradecer à SAD e ao clube a confiança depositada em mim, e tudo farei para corresponder, através do trabalho, dedicação, empenho, respeito e seriedade. Dizer ainda que é sempre um orgulho poder representar o União de Almeirim, seja em que situação for; muito do que sou hoje, devo-o ao clube e às pessoas (treinadores e diretores) que representaram com dignidade o clube, e me aturaram. O desafio surgiu, de forma natural, depois de não haver acordo com o treinador anterior, surgiu o convite que inicialmente me deixou a pensar, e que depois de uma nova conversa resolvi aceitar, porque os objetivos da SAD estavam de acordo com a minha visão para o clube. Houve algumas situações que pesaram e me levaram a aceitar o desafio. Primeiro, o facto de alguns jogadores se manterem no clube do ano anterior. Em segundo lugar, as condições que vão ser proporcionadas. Terceiro, o facto de a SAD pretender o aproveitamento dos valores oriundos da formação. Quarto, a ideia da SAD em contar com jogadores do distrito até 23/24 anos que, tanto uns (da formação) como outros se possam potenciar e valorizar e num futuro próximo, chegar a outros patamares do futebol nacional. Em quinto lugar, a garantia de que iremos ter um plantel de qualidade que permita lutar por títulos (campeonato e taça), e quando digo lutar, é poder vencê-los.

Foi apanhado de surpresa?

Um pouco, sim. No sentido em que já tinha sido convidado por duas vezes pela direção em outras alturas e não aceitei, também tive convites de outros clubes e recusei, e as pessoas do clube sabiam isso e os meus motivos. A surpresa talvez tenha sido pelo facto de ser escolhido como o primeiro treinador do União Futebol Clube de Almeirim SAD. Por outro lado, sendo treinador, acaba por ser natural surgirem alguns convites. De resto, os pontos que referi anteriormente fizeram com que aceitasse o desafio. A vida é isto mesmo, desafios. É assim, vamos com tudo.

Fazia parte dos seus planos o regresso ao banco, enquanto treinador?

Posso dizer que não tinha intenção de voltar a treinar seniores, devido a ter ficado desiludido com certas situações que se passaram nos anos em que treinei, como falta de condições, falta de palavra de certas pessoas e de caráter de outras, vencimentos em atraso, etc. Quando tens pessoas que não cumprem, ou que te traem, ou que tudo fazem para te ires embora, ou que te dizem, “és a pessoa mais honesta que está no futebol”, leva-te a pensar que à tua volta só há pessoas desonestas e ficas desiludido, frustrado. Por outro lado, estava envolvido no projeto que iniciamos no U. Almeirim de recuperação do clube e com o sucesso que se conhece, com a presidência do grande André Mesquita primeiro, e agora do grande Agostinho e que na minha cabeça ainda não estava concluído, muita coisa havia a fazer, principalmente ao nível da organização e das condições materiais. Mas, e há sempre um mas, sou um treinador que vive intensamente o treino e o jogo, sou um homem do terreno e este convite motivou-me e fez-me voltar.

Este afastamento do banco teve mais prós ou contras?

Penso que os dois, não vejo por mais ou menos. Em primeiro lugar, a parte positiva é que me permitiu concluir a licenciatura em Treino Desportivo na especialidade de futebol, na Escola Superior de Desporto de Rio Maior, permitiu-me abraçar um projeto de reerguer este clube, em conjunto com uma direção fantástica e de pessoas incríveis, e de outras valências, e
outros conhecimentos em áreas como a coordenação, através do acompanhamento e intervenção nos escalões de formação e o trabalho (em treino) nesses escalões mais baixos, com pequenos jogadores a partir dos quatro anos de idade e que fiz com toda a entrega, empenho e coração nesta modalidade que amo. Os contras passam pelo facto de ter ficado sem treinar seniores, o que faz com que se esqueçam de ti e do teu trabalho como treinador de seniores, o que pode agora levar as pessoas a duvidar da tua competência. Mas estou seguro que posso fazer um grande trabalho e motivado para mostrar resultados. Na prática nunca deixei o campo, sempre dei treinos, apenas a visibilidade foi menor em termos mediáticos, por ser escalões de formação.

O que espera da próxima temporada?

Espero uma época dura em todos os sentidos, dura porque o campeonato não é fácil para ninguém e existem equipas que pretendem o mesmo que nós. Mas ao mesmo tempo normal, dentro da perspetiva em que estamos
no futebol porque gostamos, fazemos o que gostamos, o que me permite dizer que temos de trabalhar com alegria, com tranquilidade, mas com muita exigência, compromisso e rigor, é isso que exijo de mim próprio e é isso que exijo de todos os que estão comigo. Havendo isso, só posso esperar uma boa época.

O que lhe pediu a SAD?

Para ser sincero, nada em espacial, temos pontos de vista comuns, acho que houve grande sintonia de ideias desde o início, entre clube na pessoa do André Mesquita, da SAD na Pessoa do Palhinha e de mim próprio. Temos intenção de ter uma equipa competitiva que dignifique o clube, a SAD, e a cidade de Almeirim. Sabendo quem é Palhinha e a exigência que tem, sabendo quem é André Mesquita, que quer sempre mais e melhor, e sabendo que eu tenho mau perder e gosto de rigor e disciplina, acho que estão reunidas as condições para, em conjunto, fazermos uma grande época.

É para subir ao Campeonato de Portugal?

Quando falo de uma equipa competitiva, é uma equipa capaz de lutar por campeonato e taça, mas lutar de forma a poder ganhá-los. Mas, sabemos que há outras equipas que também se dizem candidatas, e ser campeão nunca é fácil em lado nenhum, há muitas coisas envolvidas, muitos fatores internos e externos, muita coisa que controlas e muita coisa que não consegues controlar; é necessário estarem reunidos todas estes fatores para se ser campeão. Mas com humildade e respeito por todos, temos de trabalhar muito, bem e com muito querer. A diferença entre o impossível e o possível está no querer, no acreditar. “Querer é poder”. Mas não interessa dizer apenas que queremos, o importante é mostrar na prática que queremos mesmo.

Quem são os grandes candidatos?

Julgo que U. Almeirim, Mação, Cartaxo, Coruchense, Amiense, não descartando o U. Tomar, Fazendense…
Começam a ser conhecidos os primeiros reforços. Já tem a equipa fechada? Não, ainda não está fechada, estamos a trabalhar no sentido de garantir um plantel equilibrado e competitivo, dentro dos parâmetros que definimos. O importante é saber o que temos e é muito bom, e saber o que queremos para completar, mas é um facto que não está fechado.


Quais são os elementos que vão integrar a equipa técnica?


A equipa técnica também ainda não está fechada, há contactos com treinadores mas não adianta falar até estar consumado
O Manuel Francisco foi um dos últimos treinadores a levar a equipa aos nacionais.

Que memórias tem desse tempo?

Boas memórias, claro, ser campeão e subir de divisão, assim como ganhar a Taça do Ribatejo é sempre uma coisa memorável, importante para todos os envolvidos numa equipa e eu já tive o privilégio de ser campeão (U. Almeirim) e vencer a Taça do Ribatejo (Fazendense) como treinador, faremos sempre parte da história desses clubes, isso é incontornável. Mas são memórias, boas, é verdade, mas são história, por isso passado, e temos de olhar é para o presente e prepararmo-nos para vencer no futuro. Na vida e no futebol somos o que fazemos, quero, acima de tudo, transmitir essa mensagem: só somos reconhecidos quando ganhamos, depois fazemos parte da história, mas primeiro temos de ganhar no presente, vencer, ser primeiro.

Que fez a diferença na altura?

O que fez a diferença na altura é o que faz a diferença sempre, um grupo unido dentro do campo, com jogadores de qualidade que formaram uma equipa no verdadeiro sentido da palavra, A equipa sempre em primeiro lugar, não existia o eu, sempre com grande determinação e vontade de vencer, o tal querer estava sempre presente. Um grupo que percebeu a mensagem do treinador, a soube interpretar e a pôs em prática da melhor maneira, e onde todos trabalhavam para o mesmo objetivo, com muita humildade. Sabe, o futebol é um jogo simples, ou parece, mas é de extrema complexidade (são os sistemas de jogo, os momentos de jogo, bolas paradas, a parte física, técnico-tática, psicológica, fatores externos etc., etc.). Cada pessoa tem um treinador dentro de si, tem uma ideia diferente do jogo, do seu jogar, além disso, os jogadores de cada equipa, de cada posição, são diferentes, com características diferentes, tudo isto torna o jogo diferente, complexo mas de uma riqueza extraordinária e de uma imprevisibilidade incrível, mas o importante é prevalecer a nossa ideia de jogo, e os jogadores saberem o que têm de fazer num dado momento e não fazer cópias de ninguém. No fundo, como se costuma dizer, somos todos iguais mas todos diferentes, todos podemos conhecer o futebol ou o jogo mas todos o vemos de maneira diferente, porque basta um pormenor para que as coisas sejam todas diferentes. Só para dar um exemplo do que digo, uma vez assisti a um colóquio/formação com o treinador José Mourinho e a dada altura ele apresentou alguns exercícios seus de treino e alguém (um treinador) da plateia lhe fez uma pergunta. “Mister não teme que ao passar os seus exercícios, as pessoas os utilizem para ter sucesso?”. A resposta foi mais ou menos esta: caro amigo e colega, em primeiro lugar, quero o sucesso de todos nós e não sou ciumento em relação a isso, depois estes exercícios são meus, escolhidos, pensados e inventados por mim, de acordo com o que penso para o meu jogo, a minha equipa e jogadores, com as características únicas que eles têm. Eu dou-lhe os meus exercícios mas nem você, nem nenhum dos que aqui estão pensa como eu, tem os jogadores que eu tenho, nem dão os feedbacks que eu dou; portanto, você pode utilizá-los, que o objetivo atingido é seguramente diferente. Isto tudo para dizer que pôr todos os envolvidos a pensar de acordo com a nossa ideia de jogo, é extremamente difícil, mas quanto mais perto conseguirmos, mais perto estamos do sucesso e foi isso que aconteceu: os jogadores foram inteligentes, tinham qualidade e entenderam a minha ideia de jogo, sabiam o que tinham de fazer em todos os momentos de jogo, trabalharam muito de acordo com essa ideia, com grande união, e formamos uma excelente equipa, as coisas resultaram e conseguimos ser campeões.


Estes jogadores não são desse tempo e não se lembrarão disso. Vai dizer-lhes?

Não propriamente. Claro que pretendo transmitir a importância de ganharem títulos, taças, campeonatos, e a importância de o ganharem neste clube, como disse, ficamos na história dos clubes pelo que ganhamos e se não ganharmos podemos ser lembrados, mas apenas como um jogador ou treinador que passou pelo clube como tantos outros. O mais importante a passar não é o que se fez, mas sim o que se pode fazer, e que nunca conseguirão ir a lado algum se não trabalharem muito, se não procurarem ser melhores a cada dia, superando-se em todos os treinos, em todos os jogos, entenderem que o individual é importante se for posto ao serviço do coletivo, porque a equipa é o mais importante de tudo e está acima de qualquer pessoa, e é através do trabalho em equipa e dos resultados desta que nos podemos valorizar todos. O passado já passou, o que foi ganho, ganho foi e por isso é lembrado, mas não é importante para o presente e para o futuro. O nosso foco é ganhar no futuro para escrevermos a nossa história também no clube e só vejo um caminho para isso: trabalhar, trabalhar, trabalhar e todos juntos vencer.


É importante conhecer a mística?

É difícil explicar o que é a mística, ela sente-se, vê-se através dos atos e comportamentos dos jogadores e das equipas, a forma como atuam, e está relacionada sempre ou quase sempre com o ter garra, raça, esforço, espírito de sacrifício, união, jogadores que deixam tudo no campo. Esta também se reflete nos adeptos que sentem o esforço dos jogadores e os apoiam, empurrar a equipa para as vitórias, sendo o 12º jogador. No entanto, isto só acontece quando se ganha, em clubes vencedores. No clube perdeu-se um pouco ou muito dessa mística, com os anos difíceis que este passou, com poucos jogadores e equipas na formação e, por isso, com resultados fracos e falta de títulos, porque com vitórias as pessoas apoiam, quando não se ganha, afastam-se.

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