“Os toureiros são como poetas.”

No próximo dia 1 de Maio será inaugurada a Arena d’Almeirim, com uma corrida de toiros à portuguesa, promovida pela Santa Casa da Misericórdia de Almeirim, trata-se da renomeação da modernizada Praça de Toiros de Almeirim que foi inaugurada a 16 de Maio de 1954, embora no mesmo local, fazendo jus às antigas tradições tauromáquicas de Almeirim, tenha sido construída uma Praça de Toiros, em madeira , que foi inaugurada a 22 de Outubro de 1938 e demolida mais tarde para dar lugar à atual Praça de Toiros, que faz parte integrante do património cultural da nossa terra.

Como já alguém disse “as touradas são uma arte muito original, porque reúne muitas outras. O toureio, a criação artística durante a lide de um toiro, vai beber à música (harmonia dos acontecimentos que se sucedem, como os sons), vai beber às artes plásticas (equilíbrio das linhas e dos volumes), vai beber as artes dramáticas (aliança do azar e da necessidade)”. Como cantou Amália Rodrigues no seu “Fado Sangue Toureiro”: “Toiros e Sol/Não há nada/ Como uma toirada com mais emoção!/ Não há festa com mais cor/Que mais fale ao coração!”.

Por isso se pode dizer que as touradas são como uma arte total, onde estão reunidas e sintetizadas a maior parte de todas as artes humanas, em especial na tradição ancestral dos portugueses. Somos de opinião que, e sem qualquer duvida, que as touradas são uma verdadeira tradição portuguesa, quer a nível cultural quer social, e no actual contexto uma questão de liberdade, e também uma questão do direito das pessoas gostarem ou não gostarem e porque, quer se queira quer não, há qualquer coisa que “não tem explicação” numa corrida de toiros, direi mesmo há qualquer coisa de sagrado muito antigo, e quem não percebe isso também não percebe a poesia, não percebe a literatura, e não entende as nossas raízes sociais. Como escreveu Luís de Camões nos “Lusíadas”, poema épico como um dos símbolos mais fortes da identidade portuguesa. “Qual corro sanguíneo e ledo amante/Vendo a formosa dama desejada,/o toiro busca e pondo-se deante,/Salta corre, sibila, acena e brada: Mas o animal atroce n’esse instante,/Com a fronte cornigera inclinada,/Bramando duro, corre, e os olhos cerra,/Derriba, fere, mata e põe por terra.” O quadro legislativo português actual, não deixa qualquer margem para dúvidas de que as touradas, de facto e juridicamente, são parte integrante do património cultural português.

Por isso, defender a tauromaquia é hoje defender a democracia e a liberdade contra uma “espécie de fanatismo” eu diria mesmo de oportunismo político de alguns poucos que põe em causa os direitos de muitos portugueses. Note-se que não se trata apenas de confrontar opiniões e preferências, mas o de querer impor uma proibição de uma cultura ancestral e viva no nosso país, com algum desprezo pelo pensamento crítico e a fruição estética. Como disse o historiador José Mattoso “Os espectadores das touradas, dos dias de hoje, apreciam a habilidade do toureiro, a sua coragem… a capacidade para transformar a violência do touro em arte.” A este propósito uma expressão popular bem portuguesa “ pegar o touro pelos cornos” tem raiz tauromáquica e é sinónimo de bravura, e utilizamo-la diariamente para distinguir pessoas capazes de actos corajosos e também como forma de motivação para decisões difíceis. As touradas encaixam na perfeição na definição de cultura da UNESCO , na sua declaração de 1982, na cidade do México .

As Touradas são uma marca distintiva da cultura portuguesa, como as mais diversas marcas intelectuais e afectivas na sociedade portuguesa, especialmente fortes em diversas regiões e grupos sociais, sendo uma arte performativa, que encerra em si um sistema de valores, tradições e crenças que promovem a excelência humana e o humanismo. A chamada corrida de touros à portuguesa, para além da traje e coreografia própria distingue-se pelo toureio a cavalo e a pega do touro por forcados que são fórmulas exclusivamente portuguesas, a que nos habituámos e que, ao contrário do que se pensa, têm conquistado mais adeptos e novos públicos.

Um dos aspectos curiosos é que os touros sejam conhecidos em Portugal apenas pela ganadaria donde provêm, enquanto em Espanha cada touro tem um nome que todos fixam e referem. Isso faz com que a dupla cavaleiro e cavalo se sobreponha à dupla toureiro e touro, o que pode justificar até certo ponto o enraizamento cultural e social. E, já agora de certo que os maravilhosos quadros do pintor Júlio Pomar que compõem a “série de tourada” nunca poderão ser considerados atentados à moral e aos direitos dos animais, e como disse Ernest Hemingway “A tourada é a única arte em que o artista está em perigo constante, e na qual a beleza do espectáculo depende da honra do toureiro”.

Para finalizar uma simples sugestão que talvez seja o momento para a nossa autarquia declarar a tauromaquia como Património Cultural Imaterial, de acordo com os critérios da Convenção da UNESCO para a Salvaguarda do Património Cultural Imaterial do concelho de Almeirim

Por: Armindo Castelo Bento Economista

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