As Crónicas de Augusto Gil

Julgo que hoje os nossos filhos embora sabendo o que é o avental, não sabem por certo a grande utilidade que teve essa peça simples quando usado pelas nossas avós.


O uso principal do avental era para a avó proteger o seu vestido, pois ela não possuía muitos, e o avental era mais fácil de lavar e feito de fazenda mais barata. Muitas vezes quando estava um pouco sujo era voltado do avesso e assim contribuía para se poupar, pois nesse tempo o poupar era apanágio de toda a gente.


Quando o luto obrigava havia um cuidado extremo, todo o avental e algibeiras eram ornamentados com o preto, sím­bolo de dor, da tristeza e da saudade.


Além disso, o avental servia de pegas para retirar as pane­las do forno, era ideal para enxugar as lágrimas dos netos, e em algumas ocasiões, usado para limpar orelhas e nari­zes sujos, e até mesmo para limpar as sobras do rapé do nariz da própria avó.


O avental servia para levar o milho ao galinheiro e no regresso para trazer os ovos, os pintainhos pequenos e às vezes ovos já meios chocos para acabarem a sua incubação no cesto no canto da cozinha debaixo da galinha choca.


Quando recebiam visitas, era o lugar ideal para por trás deste as crianças se esconderem envergonhadas, algumas vezes vigiando apenas por algum pequeno buraco já nele existente.


Quando fazia frio a avó envolvia o avental à volta dos bra­ços para se aquecer, era usado dobrando-o para se sentar na pedra húmida do quintal, outras vezes enrolava-o para fazer de rodilha para trazer o pote da água ou o cesto do milho para secar.


Aqueles aventais grandes serviam para a avó limpar o suor da face enquanto cozinhava debruçada sobre o fogão de lenha ou das grelhas.
Era também usado para recolher as cascas das ervilhas, do feijão, das favas para atirá-las para o galinheiro, onde as galinhas se regalavam a depenicar.
O avental servia para transportar gravetos e lenha para a cozinha e ainda para trazer os vegetais do quintal.


Durante o ano e conforme a época servia para trazer as laranjas, as maçãs, os pêssegos e outros frutos do pomar.


Quando alguma visita inesperada aparecia a subir a rua, era surpreendente ver como a avó usava essa peça, para limpar o pó da mobília nos sitos mais visíveis, em poucos segundos.


Quando o jantar estava pronto, a avó chegava ao balcão e abanava o avental para avisar os homens que estavam a trabalhar no campo que era hora da refeição.


A avó usava-o para colocar as refeições quentes a arrefe­cer no parapeito da janela.


Nos dias de orvalho ou quando estava quente do forno ser­via ainda de lenço, colocado à volta da cabeça e do pescoço.


As netas agora usam todas as peças modernas para fazer os serviços que o avental da avó desempenhava sozinho. Por certo ficarão perturbadas só de imaginar os germens que deveriam existir nessa peça tão característica e com tantas utilidades. No entanto não me lembro de alguma vez, alguém, ter apanhado uma doença proveniente do dito “ Avental da Avó” de que tanto gostava.


Levará muito tempo, mesmo com a nova tecnologia, para que seja inventado algo, tão útil e que uma só peça possa substituir o velho avental que tanta utilidade tinha.

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