Opinião de Armindo Castelo Bento

Nós não escolhemos as pessoas, apenas vivemos os nossos destinos. Escolhemos, sim, as nossas atitudes e o nosso destino é traçado em virtude delas. Por isso é que desde sempre tentei seguir aquele conselho, “rodeia-te de pessoas em quem confias e das que amas”, pois a confiança é conquistada durante várias e várias conversas, mas pode ser perdida por uma única palavra – a ilusão constrói-se com o tempo, a desilusão surge num instante, e será como a “visita da verdade”. Muito simplisticamente, a desilusão é simplesmente parar de confiar e a creditar no que se pensou sobre o “ser” de outras pessoas. Pois como é uso dizer-se, “ninguém se ilude com aqueles que conhece, mas sim com os que pensa conhecer!”A desilusão nada mais é que a constatação do óbvio, e que, aos nossos olhos, a cortina da ilusão, em certos momentos, não nos permitiu ver. Como disse Dostoievski, “um ato de confiança dá paz e serenidade.” Na verdade, tenho que admitir que, com o tempo, tento aprender novamente a voltar a viver um dia de cada vez, a não criar expectativas em cima de coisas ou pessoas, adquiri mais paciência e também menos pressa de viver, tendo sempre, pelo menos tento isso, presente que “ é possível aprender boas maneiras para lidar com as pessoas, mas não é possível aprender a confiar nas pessoas. E é preciso confiar para nos sentirmos confortáveis com elas”. (Peter Drucker). Nem sempre damos o peso certo e a importância para o que é, de facto, importante para nós. Todos os dias das nossas vidas são repletos de acontecimentos e durante todo o tempo acontecem coisas de que gostamos ou não, às quais damos importância ou não. Na realidade, o tempo passa e a gente acaba por perceber que não gosta da pessoa e sim da imagem que fizemos dela sem disso nos apercebermos. Quando mudamos de atitude a partir da mudança consciente dos nossos sentimentos e pensamentos, começamos a criar uma nova realidade na nossa vida. Algumas emoções não são fáceis de lidar e compreender, existem algumas que são mesmo muito difíceis de mudar e “parece que gritam constantemente a sua presença dentro de nós.” Eu sei, tenho a noção plena disso, que essas coisas são difíceis de falar (eu também sinto que estou a apreender), na verdade, acho que muitos de nós, por uma mera questão cultural, fomos ensinados a ignorar todas estas situações. Muitos de nós esquecemos que nem todos têm as mesmas experiências, acesso ou apoio para o que fazemos, o que faz sentido; pois é difícil perceber a realidade em que muitas pessoas estão a viver. Mas nós “temos que” olhar para isso, se queremos que as coisas mudem. Nós temos que fazer isso, se quisermos realmente mostrar-nos plenamente para aqueles com quem conversamos e com quem convivemos. E temos que fazer, se quisermos ser pessoas competentes, informadas sobre os traumas e dar o apoio tão necessário às pessoas. Como disse Florbela Espanca, “A vida é sempre a mesma para todos: rede de ilusões e desenganos. O quadro é único, a moldura é que é diferente”. Quando evitamos querer “conhecer ou conviver” com as realidades do meio onde vivemos, dos nossos amigos, dos nossos vizinhos, na nossa comunidade social e humana, perdemos a oportunidade de realmente ver as pessoas e distanciamo-nos da vida local em sociedade. Alguém recentemente me interpelou que talvez eu não devesse estar a escrever sobre questões sociopsicológicas, dado que “hoje as pessoas lêem muito pouco e conversam ainda menos”, ao que eu respondi que para mim se torna mais claro a cada dia que passa que escolher ficar em silêncio ou renunciar a abordar estas questões (seja nas redes sociais ou na vida real) significa escolher ignorar as próprias realidades com as quais os nossos amigos e conhecidos vivem ou convivem todos os dias.

“Há pessoas que desejam saber só por saber, e isso é curiosidade; outras para alcançarem fama, e isso é vaidade; outras, para enriquecerem com a sua ciência, e isso é um negócio torpe; outras, para serem edificadas, e isso é prudência; outras, para edificarem os outros, e isso é caridade.” (S. Tomás de Aquino)

Armindo Castelo Bento
Economista

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