Fernão Pires

Inicio as minhas crónicas de 2019, com a descrição daquela que é considerada a casta mais expressiva da Região Vitivinícola do Tejo, falo naturalmente do Fernão Pires. Ao longo de próximos textos irei descrever aquelas que são consideradas as principais castas da região, brancas e tintas. Trata-se da casta branca mais plantada em Portugal e ocupa uma mancha regular ao longo do país, embora seja nas regiões do Ribatejo e da Bairrada que assume maior protagonismo e maioridade. A casta Fernão Pires tem essa característica, tão peculiar como caricata, de, ao passar a fronteira da Bairrada, “mudar de sexo”, já que nesta última região adopta o nome de Maria Gomes. Então o famoso Fernão Pires, casta altamente adaptada à região destaca-se por diversas razões, uma delas a sua amplitude de grau alcoólico, isto é, é usada em vinhos que podem ter desde 12,0 até possivelmente 14,5 ou 15% volume. Esta é uma decisão que compete ao viticultor e produtor de vinho, conforme o tipo de vinho que deseja criar. A sua extrema versatilidade permite que seja utilizada a solo, em lote, espumantizada e mesmo trabalhada como colheita tardia, na obtenção de vinhos doces. Facilmente descobrimos que os vinhos procedentes da casta Fernão Pires se apresentam extremamente perfumados, exuberantes nos aromas, eloquentes na sedução e no encanto. Em termos de descritores, aromas varietais, assume-se com aromas de lima, limão, tília, manjerico, rosa, tangerina e laranjeira, isto diz a bibliografia, a mim pessoalmente a forma como identifico é pela intensidade floral e conforme a uva originária esteja mais madura, mais presente está. O reverso da medalha reside na baixa acidez, na elevada suscetibilidade para a oxidação – vinho fica amarelo (mas espante-se, há uma romaria que procura este tipo de vinho). Podem originar vinhos planos, um pouco enjoativos que, por regra, têm tendência para apresentar uma vida curta, onde os aromas primários depressa se desvanecem. São pois vinhos que, devem ser bebidos jovens. Há uma nota que não posso deixar de apontar aqui, que tem a ver com a forma como a casta é identificada pelas pessoas com mais experiência de vida e a viver em locais mais rurais, “Ai, o meu Ferrão Pile este ano está uma maravilha!”. Por isso se o desafiarem para beber uma pinga deste vinho, já sabe o que é.

Rita Conim Pinto
Enóloga

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