Travessia Integral da Serra de Montemuro (110km) – às cegas com Filipe Torres

65km, 19:00, 10h30 de prova, 1150m de altitude.

A fita laranja está à minha direita, estou encostado a ela. Varro 360º à minha volta com o foco branco do meu frontal à procura da próxima, mas o nevoeiro espesso não me deixa ver mais que 5m. Aponto para o chão à procura de um caminho marcado por pegadas, parece-me ver um terreno mais escuro e sigo-o instintivamente. Avanço, às cegas, mais uns 200m até que reparo que estou num estradão. Paro. Mais 360º. Olho para baixo, mas no estradão já não se vêem pegadas. Aleatoriamente decido seguir para a direita Só consigo distinguir mais do que o branco opaco se estiver encostado à berma, por isso depois de descer 100m a olhar para a berma direita sem encontrar fitas, volto para cima, agora pelo outro lado. Nada. Parece-me estar no ponto onde entrei no estradão, decidi ir para a esquerda e repito o processo. Gritei alto, perguntei se estava ali alguém.! Desliguei a minha luz para procurar outros frontais que por ali andassem, mas… Nada! Decidi voltar ao sitio onde tinha visto a ultima fita, subi o estradão e entrei no mato. Andei 100, 200, 300 metros no meio de maciços de granito e não encontrei nenhuma fita. Voltei a varrer 360º, a respiração começou a ficar pesada, comecei a andar de um lado para o outro, impacientemente a subir e descer rochas! Nada, não se via NADA!

Até que distingo um foco branco lá ao fundo… 

EIIII!!!!!!!

0km, 7:30, 0 horas de prova.

Falta meia hora para começar a Travessia Integral da Serra de Montemuro. Somos poucos dentro do pavilhão da escola EB 2,3 de Cinfães, onde está instalado o secretariado e o pórtico da meta. Perto de 80, contando com alguns que vão fazer a prova por estafetas. A partida atrasa cerca de 10 minutos, mas tudo tranquilo. Mais 10 minutos na conversa com as muitas caras conhecidas e com o Bastos, Rodrigo e Pedro, que haveriam de ser uma espectacular equipa de apoio durante o dia. A minha mochila rebentava pelas costuras com o muito equipamento obrigatório e outro que achava que podia ser importante numa prova deste género. Foi a prova desta envergadura para onde fui mais às cegas até hoje. A informação disponibilizada tinha sido pouca, mas já em Cinfães fiquei mais confortável. As pessoas da organização com quem fui falando pareceram-me sempre disponíveis e simpáticas. Pelo sim pelo não, fiz a minha parte e preparei-me para qualquer eventualidade. Pelo menos era o que eu pensava…

28km, 12:30, 4h30 de prova.

Portas de Montemuro, ponto mais alto da Serra. A vista era quase toda composta pelo branco pastoso do nevoeiro, mas ainda dava para ver blocos de neve pontuados pelo granito ou a fazer um contraste muito forte com o solo escuro e agreste da serra. A temperatura tinha baixado imenso. A meio daquele ataque final ao cume, feito suavemente e por estradões que apanhámos após o segundo abastecimento, decidi enfiar o gorro de lã na cabeça, buff a cobrir pescoço, nariz e boca e luvas grossas nas mãos. Estava confortável.

Para trás tinham ficado 9km iniciais onde passámos por alguns trilhos à Abutres: muito parte pernas, terra escura e lamacenta, muitas árvores e um rio que corria no meio de pedras cobertas de verde do musgo.

A entrada na montanha deu-se por volta dos tais 9km, num pequeno abastecimento. Iniciou-se então a primeira grande subida e deu para começar a perceber o “conceito” da prova. Não foi uma subida difícil, nenhum foi ao longo do dia. Andámos muito em estradão, caminhos de pedra de granito arrumada, estilo calçada romana, e por dentro de inúmeras aldeias serranas. Adianto já que gostei muito do percurso! Não muito difícil, mas desafiante quanto-baste e sempre muito interessante. Claro que não faltaram também os trilhos, nos quais também notei outra tendência: muitas vezes estes não existiam ou não estavam limpos. Eram colocadas fitas distantes umas das outras e depois íamos fazendo o nosso caminho, não poucas vezes à custa de arranhões nas pernas. Este é um pormenor que vai ser importante daqui a umas horas!

Passámos em muito caminhos antigos marcados por muros de pedra que delimitavam os terrenos. Muitas vezes estes trilhos e caminhos serviam como canais de escoamento de água, o que resultou em pés molhados do inicio ao fim da corrida, mesmo nas zonas mais altas da serra! O piso foi talvez dos aspectos mais difíceis de lidar nesta prova, ora estávamos com água pelo tornozelo e no meio da lama ora estávamos a saltitar de pedra em pedra, em piso muito duro. Inevitavelmente os pés e articulações iriam ressentir-se de toda esta pancadaria.

Ainda antes das Portas de Montemuro passámos pelo primeiro abastecimento a sério, nos 22km. Esta prova teve 3 bases de vida, aos 22, 40 e 63km. Penso que ninguém deixou nada nesta primeira, mas tenho a certeza que todos os que lá passaram levaram alguma coisa. Eu, por exemplo, levei uma malga de sopa e uma bifana no bucho! Um abastecimento muito bom, completo, com muita gente a dar assistência. 

52km, 16:30, 8h20 de prova.

Quinto posto de abastecimento. Tal como no 4º, aos 40km em Tendais, estava lá o Armando Teixeira. Vou aqui dizer e fica escrito: o Armando é o gajo mais porreiro do trail! Ele fala connosco, dá ânimo, enche flasks, ouve os queixumes e ainda dá incentivo! No abastecimento anterior tinha-me dito que pela frente teria uma subida de cerca de 400+ em 4km para transpor que levar-nos-ia de volta aos 1100m e ao tempo frio, o que se confirmou. Depois a descida até Moimenta, onde me encontrava agora, foi relativamente fácil e sempre corrivel, com muita pedra e água, o que continuou a massacrar os pés.

A prova estava a correr-me na perfeição. Oito horas aos 52km, cerca de metade do caminho, foi muito melhor que a minha previsão, mas ainda melhor era não ter ainda minimamente sinal do homem da marreta! 

Ao contrário do abastecimento anterior, nos 40km, desta vez o que o Armando não fez foi dar-me uma taça de sopa, porque não havia. Este era o 5º abastecimento e o 3º onde só havia banana, marmelada e tomate. Bom, mas até agora estava a resultar bem. Comi bem aos 22 e 40km depois fui gerindo a alimentação com o que levava e as bananas com sal que encontrava nos abastecimentos. O próximo, aos 63km, era a principal base de vida, onde deixei o meu saco. Aí estava anunciada comida quente. Ainda bem, já que o abastecimento era nos 1100m, inicio de noite e umas boas horas depois do ultimo mais completo. 

Só que….

63km, 17:40, 10h de prova.

Base de Vida no abastecimento de São Pedro do Campo.

“Boa tarde. Há comida quente?”

“Não.. mas há chá!”

A subida até aqui mais uma vez tinha sido fácil. Muito suave, com alguns troços em que até dava para correr. Ainda sem sinal da marreta, ativava com cada vez mais confiança o trote em troços pouco inclinados. Passada a cota 1100 virámos a montanha e andámos 1 ou 2km num planalto lá em cima. Tinha voltado o nevoeiro e o frio, o sol estava a por-se. Planeava na Base de Vida sair de frontal, enquanto isso ia reparando nas marcações que seguia. Muito espaçadas, sem refletores, alguns pauzinhos brancos espetados onde anteriormente existiam bandeiras… Comecei a ficar um pouco preocupado…

Entrei no abastecimento e imediatamente pedi o meu saco. Indicaram-me uma sala com um banco onde podia trocar de roupa e, como faço sempre, tentei perder o menor tempo possível nos meus afazeres. Estava muito confortável com a minha combinação de térmica + tshirt técnica + manguitos + corta vento, por isso só troquei a t-shirt técnica por uma seca. De seguida meti o relógio a carregar dentro da mochila. O meu Garmin Fénix 3 já tem uns aninhos, a bateria já só dura 12 horas, e como estava a chegar ali com 10 decidi que era uma boa altura para o meter a carregar para a segunda metade da prova. 

Uma decisão que se revelou quase fatal para o desenrolar da prova.

Incrédulo, perguntei aos voluntários pela prometida comida quente. Parece que a senhora que ficou de fazer a sopa tinha o filho com febre e….bom, havia chá!

Enfim, não protestei. Há lugar para isso e de certeza que aquelas pessoas não tinham culpa. Agarrei-me ao Compal de Pêra que tinha no saco (ah pois é, não falha!) e ataquei um pão de ló que lá havia. Devo ter comido metade enquanto estava na galhofa com o Bastos, Rodrigo e Pedro que estavam lá a dar apoio. 

Despedi-me deles e saí super motivado para os 47km finais de prova. Frontal na cabeça e totalmente equipado para o frio, íamos andar uns bons km sempre em cotas altas. 

Assim que saio lá de dentro dei 5 passos e parei a hesitar. Não sabia para onde era o caminho e também não via lá ninguém para me ajudar.  Voltei a entrar na base de vida e lá me indicaram a direcção. Duzentos metros à frente, lá vi uma fita. Sem reflector.

65km, 19:00, 10h30 de prova, 1150m de altitude.

EIIIIII!!!!!

A luz vinha na direcção contrária à minha. Era o Paulo Carvalho!

Então meu, tens a certeza que estás no caminho certo?! Ando perdido. Tenho a merda do relógio a carregar dentro da mala! Tens o track??

Hesitámos ali um bocado. Eu não tinha nada ideia de estar a andar em sentido contrário, mas o Paulo tinha a certeza que estava bem. Segui-o. 

Até que..uma nova luz, outra vez em sentido contrário ao nosso!

AJUDEM-ME!! Estou em pânico, não vejo nada, não vejo fitas!!!

Era a Verónica, aflita, completamente à toa! 

Fizemos o nosso melhor para a acalmar e decidimos seguir juntos. O Paulo tinha o track no relógio, mas avançávamos completamente às cegas, porque apesar de estarmos em cima do percurso não víamos nenhuma fita e andávamos em zonas onde não havia trilho (lembram-se de ter falado disto lá atrás?). Com os três frontais no máximo vasculhávamos tudo à procura de fitas, mas estas simplesmente não haviam! Centenas de metros às cegas, com temperaturas negativas, chuva e muito, muito nevoeiro!

Com o passar dos metros, já tinha deixado de estar aflito com a situação. Estava sim cada vez mais irritado com aquilo tudo. Com a incrível falha da organização, mas também comigo próprio, por ter metido a porcaria do relógio a carregar mesmo quando ele era preciso! Decidi parar e tirar o relógio da mala, o Paulo não estava muito seguro a seguir o track e eu já estava com 50% de bateria. Liguei-o, carreguei o track e…puff, a linha verde! Nesse momento fiquei 100% seguro, na minha cabeça só tinha um pensamento: nada me ia impedir de virar a porcaria da prova, esta ia ser de raiva!

Chegámos ao abastecimento dos 73km juntos, ainda lá bem em cima, nos 1100m. Alertei os voluntários que lá estavam do perigo do que se estava a passar lá atrás, eles trataram logo de informar o resto da organização e de facto disseram-me no abastecimento seguinte que já andavam batedores a repor fitas e à procura de pessoas perdidas. Foram muito prestáveis e a banana com sal também estava muito apetitosa! …Desde os 40km sem nada além de banana, tomate e marmelada. Agora separavam-nos do próximo abastecimento nada menos que 17km….

83km, 21:30, 14 horas de prova. 

10km de descida já ficaram para trás. Mais uma vez não foi difícil. Continuava a sentir-me espectacular, apenas muito dorido dos pés e das articulações dos tornozelos, resultado da muita pancada que levámos até aqui. Os 50% de bateria que tinha lá em cima estavam já nos 20% e o relógio dava sinal de estar a morrer. Parei na primeira aldeia por onde passámos para voltar a meter a carregar, lá em baixo não havia nevoeiro e haviam fitas com fartura! 

Seguiram-se 7km de sobe e desce a cotas baixas até ao abastecimento, o penúltimo, nos 90km. Foi finalmente aqui, 50km depois, que voltei a comer um caldo de legumes! Repeti três vezes! Peço desculpa aos que vieram atrás se não chegou para todos, mas soube-me pela vida! 

Faltava agora virar apenas uma montanha antes do final. 750m verticais de subida levar-nos-iam de novo ao inferno gelado que era o topo da montanha. 


101km, 1:30, 18 horas de prova

Subimos de forma muito constante até voltarmos a mergulhar no nevoeiro denso. Já muito perto do topo vejo duas luzes na minha direcção – mais dois companheiros completamente perdidos que depois de muita volta lá em cima não se aperceberam que estavam a caminhar na direcção errada! Os dois juntaram-se ao grupo e agora éramos 5 a navegar no mar branco e pastoso de nevoeiro. Para ajudar, tinha começado a chover copiosamente, tirei pela primeira vez o impermeável da mala e vesti por cima de tudo, mantendo-me seco e quente. 

Um pouco antes tinha ficado o ultimo abastecimento, aos 97km, onde degustámos uma bela banana com um copo de isotónico, iluminados pelos faróis de um jipe!

Sobravam agora apenas 7km de descida até à meta, feitos em grupo do inicio ao fim. Mais uma vez, neste troço final haviam muitas zonas sem marcações, mesmo a chegar a Cinfães voltámos a perder-nos. Mas nada nos impediria agora de cruzar a meta. 


108km, 2:30, 19 horas de prova. Meta.

Esta foi a prova de três dígitos mais sólida que fiz até hoje. Sempre muito motivado e sem nenhuma quebra física, nunca me faltaram pernas! Sobraram apenas as naturais dores de pés e articulações. Fiquei muito contente com o resultado, que superou largamente a minha previsão! 

Quanto à organização, já perceberam que nesta primeira edição existiram falhas muito graves, nomeadamente as marcações mas também a alimentação. No entanto não notei um pingo de arrogância de nenhum membro da organização quando foram chamados à atenção, pelo contrário percebi que reconheceram os erros. Por isso tenho a certeza que vão aproveitar o maravilhoso percurso que prepararam e corrigir o que foi menos bom este ano.

Depois de cruzar a meta dei os parabéns à Verónica, que tinha sido a primeira mulher, depois cumprimentei os restantes 3 membros daquela equipa de 5 que se juntou lá em cima. Todos passámos por momentos muito stressantes. É engraçado, mas também esclarecedor, ver na classificação final que quase ninguém chegou sozinho à meta. Dos muitos quilómetros de provas que já fiz até hoje nunca tinha passado por uma situação tão aflitiva como aquela aos 63km. Eu sei, muito por culpa própria, porque escolhi a pior altura possível para carregar o relógio, Mas tenho a certeza de que se não nos tivéssemos encontrado aos 5 nas alturas em que nos encontrámos não acabaríamos a prova. Por isso, agradeço-vos: Verónica, Paulo, Pedro e Manuel. Esta é tanto minha como vossa!

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