Uns dias do nosso tempo, por Augusto Gil

O inverno chegava… as cheias eram a delícia da pequenada e dos adultos (alguns). Não havia escola por vezes e lá íamos para a pontinha ver os barcos e o nosso amigo Molha-Pão que carregava as pessoas para o barco e/ou os tirava! Almeirim parava e ali bem perto na Praça da República o povo se juntava na conversa ou mesmo aquecendo as mãos por vezes num bidom que se encontrava a arder com lenha. O Armando Peitaço, Ramiro Bixezas, Zé Júlio, Tonho Papão, o Rita, exímios engraxadores que com destreza batiam com as escovas no chão e faziam rodopiar no ar e.… zás, poliam ali os sapatos com dignidade a troco de vinte e cinco tostões… o Alfredo Rapa, Zé Clara, Alfredo do Café, Cabral da Farmácia, acredite ou não em simpatia eram o máximo, nunca os vi sorrir. E para lembrar a barbearia do Zé Carvalho, onde um dia saiu de lá um bilhete premiado da lotaria…nunca vi tanta gente nesse dia Chico Boavida das bombas da gasolina só nesse dia ia despejando os depósitos, já não falando do Mestre Jaime em que mesmo no inverno a cerveja foi toda, o Afonso do Café, que recordo a sua filha artista, Belita Azevedo que bem cantava… até a ouvíamos na Rádio Ribatejo. Ao fundo da rua na travessa da Praça, a Pensão do Pinhão, uma das mais antigas de Almeirim, junto ao Fernando dos Pneus, vindo da paragem da Ribatejana lá aperecia uma silhueta que todos gostavam de meter a unha… o Baliza com o seu carrinho lá levava as encomendas aos clientes, este sempre com uma dama inesquecivel a acompanhar, a ”Saudosa Vizinha”, a qual tinha uma paixão asselimbantada* pelo meu pai “o meu Heldro dos carres de praça”, o Jaquim Cabaço, com os chinelos a dar a dar e o boné com a pala bem esticada para o ar. E quando se metiam com ele? Bem gritante ele respondia com uma varina “E atão na tedá já uma baceira… Na te dá uma traçã das piores que sejam” … E o inconfundível som da corneta que o Badé que apitava na venda do peixe. E na recolha… Já na recolha de coisas velhas, lá aparecia o Sr. Tonho dos Trabalhinhos com a sua saca às costas lá comprava as peles de coelho e qualquer coisa velha e seguia para o seu barraco lá para a Rua das Ribeiras. O Pitrolino, sempre me admirou como uma carroça bem equipada vendia de tudo. Também era alvo de sucesso a Camila… “É branco ou tinto?” Esta história verdadeira serve para si, leitor… concluir que o pitrol* também se bebia. Os Homens dos Carros de Praça não poderão aqui ser esquecidos. Por um lado, eram eles que nas horas de aflição e não só faziam de bombeiros, de ambulância, de polícias e até de padres, muitos confiaram a eles segredos… que talvez nem a própria PIDE veio a saber. Recordo um dia o meu pai Helder ter chegado a casa todo zangado, porque tinha nascido dentro do carro uma criança. Estava tudo sujo como podem imaginar… só à sua conta, nos carros que ele possuiu, nasceram 6 bébés. O mais castiço era o Pardal Esquiado. Um dia na Nazaré com um casal de clientes, o marido perdeu-se da mulher e através dos altifalantes da sonorização da capitania, a fim de o encontrar, a mulher pediu para que este viesse para o porto de abrigo onde ela se encontrava, com o “Pardal Esquiado”. Quem não sabia da alcunha ficou com uma boa impressão da dita senhora.

.