Os meus Natais, de antes

Sou do tempo em que se acreditava que o Menino Jesus descia pela chaminé e deixava no sapatinho as prendas aos meninos. Tanto assim era que todas as vésperas de Natal eu e a minha companheira inseparável de brincadeiras (a minha prima Maria Fidalgo) púnhamos na chaminé o sapatinho – qual sapatinho, era antes um sapatão de biqueira já rebentada – para ver se o Menino Jesus nos deixava alguma prenda. A Noite da véspera de Natal era mal dormida na ânsia de chegar a manhã para ir ver o sapatinho e a prenda que teria dentro; ou quem sabe, ao lado por não caber dentro. Mas, ano após ano, o Menino Jesus esquecia sempre a minha chaminé, e a da Maria, e o malvado do sapato lá estava sem brinquedo ou guloseima. Uma manhã de mais um Natal, frustrado por mais uma vez não ter prenda no sapatinho, chorei e reclamei, porque talvez a chaminé fosse pequena e o Menino Jesus não conseguisse entrar. A minha mãe chorou comigo, e nessa manhã de dia de Natal, explicou-me toda a história das prendas do Menino Jesus. Explicou-me como era difícil ser menino sem pai, e como era difícil para uma mãe viúva que tinha três filhos órfãos para criar, poder dar prenda no sapatinho ao mais novo, razão porque, o sapato nada tinha ano após ano. Desde esse Natal, fiquei menino homem e, jamais voltei a por o sapato na Chaminé. Nem a Maria Fidalgo, porque era igualmente filha de viúva, portanto com as mesma carências. Foram tempos difíceis aqueles, mas felizes pelo muito amor com que fomos criados. Recordo esses tempos por comparação com o Natal consumista de agora, em que os meninos já sabem que não há Menino Jesus, nem Pai Natal, nem amor, tantas vezes por falta de tempo dos pais! Agora há as prateleiras do super- mercado a abarrotar com os brinquedos que essa formidável máquina de vendas que é a televisão, meses antes, massacra as crianças para exigirem aos pais que os comprem. Sinceramente, acho que o Natal perdeu a magia do nascimento do Menino Jesus, e hoje não passa de uma manifestação de consumismo desenfreado. O Menino Jesus da Palestina deitado nas palhinhas, aquecido pelo bafo do burro e da vaquinha e a estrela que guiou os reis Magos, perderam claramente a batalha para o Pai Natal “Coca Cola”. Por tanto egoísmo, desamor e descrença nos valores sociais que nos rodeia, por vezes, apetece pôr na chaminé o velho sapatão de biqueira já rebentada. Fiquem bem! De Pampilho ao Alto. Tenham um Santo Natal, e que o Menino Jesus Vos traga muita paz e amor.

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