Pampilho ao Alto LVIII

Não sou saudosista, mas faz-me falta o cheiro a mosto em fermentação que nos invadia as narinas em cada rua das Fazendas e algumas de Almeirim.
O bulir das pessoas saindo de manhã cedo para a vindima e a apanha do tomate pertencem a um passado recente vencido pela tecnologia das máquinas que num só dia fazem a colheita correspondente a muitas jornadas de trabalho laboral. É o progresso que inevitavelmente vai ditando as suas leis, proporcionando menor esforço, melhor economia, e porque não dizê-lo, qualidade.
Temos hoje melhores vinhos porque a tecnologia, o conhecimento e sensibilidade dos enólogos assim o permite. Fica mais rica a nossa região, e mais rica ficaria se os camponeses não se vissem na necessidade de abandonar as vinhas.
Faz pena ver as encostas da Goucha, que foi uma das mais prestigiadas zonas vinícolas do Ribatejo, com vinhas ao abandono. Este abandono das vinhas, teve como origem a falta de mão de obra das gentes mais novas que muito justamente se recusaram a trabalhar sem perspectivas de recebimento das suas colheitas pelo justo valor do seu labor. Por fatores de vária ordem a que não foi alheio o chico-espertismo de alguns, e a impreparação empresarial de algumas direções, o projeto cooperativo não resultou, deixando os viticultores à mercê da oferta e da procura no momento das suas colheitas.
Importa dizer aqui que as sucessivas Juntas de Freguesia deveriam ter tido um papel mais ativo no esclarecimento isento de partidarite, do que era essencial para evitar o colapso da Adega Cooperativa da Goucha. Os mercadores de uvas, alegando os baixos preços do vinho provindo do mercado externo, mormente do Norte de África via Espanha, ou por oportunidade, agindo em oligopólio, esmagam os preços na compra das uvas, de tal modo que os agricultores concluem que têm de pagar para trabalhar. Estes e outros acontecimentos levaram a que os agricultores tradicionais paulatinamente abandonassem as vinhas, e os mais novos nem sequer se propusessem a cultivá-las, ou regenerá-las. Assim sendo, perde a região e perdemos todos nós. Se nada for feito para inverter este ciclo de decadência e abandono das vinhas, os famosos vinhos brancos das encostas da Goucha serão a curto prazo uma saudade.

Fiquem bem, de Pampilho ao Alto.

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Ernestino Tomé Alves – Advogado

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