“História Secreta da Aviação”, por João Manso

O filme do almeirinense João Manso, “História Secreta da Aviação”, estreou no Festival doclisboa 2018. O documentário tem 15 minutos e partiu do texto homónimo de Manuel Zimbro. História Secreta da Aviação é uma reflexão seminal sobre o que sobe e o que se abate.

Como surgiu a ideia de realizar este documentário?

Há muito tempo que tinha vontade de abordar cinematograficamente a questão dos incêndios que todos os anos assolam o nosso país. Talvez esse interesse tenha surgido por ter família na zona da Sertã – a minha avó já teve que sair várias vezes de casa por ter o fogo à porta – e por essa zona ser constantemente afetada. Mas não sabia qual a melhor maneira de tratar este tema, não queria fazer um documentário convencional, com entrevistas e testemunhos das vítimas dos incêndios e dos seus familiares. Paralelamente a isto, mas mais tarde no tempo, há coisa de 3 anos atrás, li um livro lindíssimo de um autor português, Manuel Zimbro, que adorei e pelo qual tive uma enorme empatia. Também tive vontade de trabalhar esse texto em cinema. Foi por volta de dezembro do ano passado que tive a ideia de juntar estes dois temas e de constatar que faziam sentido juntos. Foi assim que surgiu a ideia de fazer este filme.

De que fala?

Fala da condição humana, da relação do homem com a (sua) natureza e com tudo o que o rodeia. O filme é uma metáfora acerca da incapacidade que o homem tem de voar. Parte dessa premissa. O texto é bastante filosófico nesse sentido. E casa perfeitamente com as imagens de grandes áreas florestais ardidas. Ao vermos estas imagens também poderíamos, sem a ajuda do texto, discorrer intelectualmente sobre elas. Porque nelas estão contidas o melhor e o pior da nossa relação com a natureza. Estão lado a lado várias forças distintas, a força que a natureza tem em criar, em renascer, a vida imensa que existe no nosso planeta, mas também a capacidade que o homem tem de destruir essa natureza. O que nos pode antecipar sobre estes 15 minutos? Não quero revelar muito, mas serão 15 minutos de muita intensidade. O filme toca numa ferida que ainda está aberta, não nos podemos esquecer que o ano passado foi o ano com maior área florestal ardida em Portugal. Morreram muitas pessoas vítimas dos incêndios. É uma memória coletiva que vai perdurar e é natural que se aborde estas questões artisticamente. Vivemos numa era em que tudo é fugaz e efémero, somo bombardeados por excesso de informação. Torna-se cada vez mais difícil destrinçar o que é verdadeiro e falso, o que é genuíno e o que é dissimulado. É também da responsabilidade do artista contribuir para o debate de ideias e abordar temas incómodos. É esse também o meu objetivo enquanto pessoa que faz filmes, colocar dedos em feridas. Mostrar às pessoas o que aconteceu, partilhar a minha visão, pô-las a pensar comigo. Ou a discordar.

O porquê deste título?

O filme foi buscar o título ao texto de Manuel Zimbro, História Secreta da Aviação. Achei que fazia todo o sentido usar o mesmo título. Voar, no texto e no filme, tem um sentido metafórico e metafísico. Existe de facto uma história secreta quando olhamos com outra atenção para as coisas e, neste caso, para o ato de voar. Porque, como escreveu Manuel Zimbro, a capacidade de voar não pertence só aos pássaros, as pedras também voam, o nosso planeta também voa, gravita no espaço sem apoio material.

O que representa para si a estreia mundial no Doclisboa?

É uma grande oportunidade, o Doclisboa é um festival de cinema internacional, cada vez com mais reconhecimento lá fora. E é também, talvez a par com o festival Indielisboa, o festival de cinema mais importante que acontece no nosso país. É por isso uma grande honra ter sido selecionado para a competição nacional deste certame. E dada a pertinência do tema que abordei, mais sentido ainda faz a estreia mundial ser em Portugal.

É um momento importante?

Acaba por ser. É o culminar de um longo caminho. Às vezes as pessoas não têm noção, mas, fazer um filme, mesmo que seja uma curta-metragem, é um processo muito demorado, que implica um grande investimento pessoal. Abdica-se também de muita coisa e tudo na nossa vida passa a estar em segundo plano. Neste caso, foram vários meses de trabalho intenso, desde a fase de rodagem, que foram cerca de 15 dias a filmar de manhã à noite, até à montagem e pós-produção. Conseguir sobreviver com alguma sanidade mental a todo este processo é, por si só, motivo de grande satisfação. Depois disto tudo, ver o filme feito é um grande orgulho e uma enorme alegria.

A quem já mostrou o documentário? Quais as reações?

Ainda só mostrei aos técnicos que me ajudaram a fazer o filme e a alguns, poucos, amigos e familiares. A reação até agora tem sido muito boa, todos estão muito entusiasmados com o filme e com a esperança que ele possa vir a ter muito sucesso. Espero que depois do Doclisboa o filme possa voar por outros festivais internacionais. E em breve também o irei mostrar em Almeirim, numa parceria que a minha produtora está a encetar com a Câmara Municipal.

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