Três terroirs e três opiniões sobre a vindima na região Tejo, por RCP

As vindimas parecem estar concluídas na nossa região e talvez até a nível nacional. Não se tratou de um ano excecional, mas de certeza que vai ser recordado pelas particularidades climáticas sentidas. Fiz uma breve entrevista a três pessoas que estiveram envolvidas na vindima de 2018 na região Tejo para saber a sua opinião, que agora aqui partilho com os senhores leitores. Temos testemunhos dos 3 tipos de terroir que existem na região. Para relembrar, embora já tenha escrito sobre o tema, entende-se por terroir, a soma dos efeitos das condições ambientais sobre um determinado produto (solo e climáticas), no Tejo existem três: o Bairro, o Campo ou Lezíria e a Charneca. O Bairro situa-se entre o Vale do Tejo e os contrafortes dos maciços de Porto de Mós, Candeeiros e Montejunto, com solos argilo-calcários, é um terroir ideal para as castas tintas. O Campo situa-se nas extensas planícies adjacentes ao rio Tejo sujeitas a inundações periódicas. Estas são responsáveis pelo elevado índice de fertilidade dos solos e torna esta uma zona de excelência para a produção de vinhos brancos. A fertilidade natural da região obriga a uma viticultura de precisão. A Charneca localiza-se a sul do campo, na margem esquerda do Rio Tejo, com solos arenosos e medianamente férteis, tem potencialidades tanto para a produção de vinhos tintos como vinhos brancos. Os três entrevistados foram: a Rita Vidal, produtora da Quinta Casal das Freiras, de Tomar – do Bairro, com solos argilo-calcários; o enólogo Carlos do Céu Pereira, da Agroalpiarça – do Campo, com aluviossolos modernos, e a enóloga Joana Silva Lopes, da Quinta do Casal Branco, de Almeirim – da Charneca, com solos maioritariamente arenosos, aos quais agradeço a sua participação e disponibilidade para participar nesta crónica. Por ordem da referência anterior, que se prende somente com a orientação norte-sul do País, os intervenientes serão identificados como: Rita – R; Carlos – C e Joana – J.

Qual foi o início e fim da vindima de 2018? Comparação com 2017?

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R – A vindima 2018 começou na época em que era hábito antigamente nesta região, 7 de setembro, colhendo-se conforme as maturações, prolongou-se até à 1ª semana de outubro. Ao contrário da vindima de 2017, que foi muito precoce, este ano a vindima foi outonal, com excelentes condições climatéricas.

C – O início e o fim da campanha de 2018 tiveram uma diferença para 2017, entre 3-4 semanas.

J – Em 2018, iniciámos a vindima dia 20 de agosto. Em 2017, tínhamos iniciado a 27 de julho. Não me lembro de uma ano tão precoce como 2017. Em 2018, a vindima começou ligeiramente mais tarde, mas dentro da normalidade.

Quais os principais desafios desta campanha? Sentiram quebras associadas ao escaldão sentido em agosto? Se sim, que percentagem?

R – Caracterizada por algumas contrariedades de chuva na altura da floração da vinha, decorridas duas semanas após o habitual, prolongou-se esse atraso até à fase pintor. Também por isso, os efeitos do escaldão ocorrido na 1ª semana de agosto foram maiores. Nas parcelas mais expostas aos raios solares de fim de tarde, notou-se escaldão maior, variando conforme as castas e exposição, afetou cerca de 40% da produção prevista.

C – Esta vindima teria sido uma grande colheita em quantidade, não fosse, de facto, o escaldão de agosto. Castas como a Alicante Bouschet foram muito atingidas. Em termos médios, as casas a que dou assistência tiveram quebras de produção na ordem dos 30-40%.

J – Tivémos quebras associadas ao escaldão, felizmente inferiores ao que tínhamos previsto inicialmente . Podemos dizer que foi um ano na média dos últimos seis anos. Perante as dificuldades de um ano difícil na gestão da vinha e das doenças fitossanitárias, e após o “susto” do escaldão , o balanço que fazemos é muito positivo.

Balanço final da campanha, quantidade vs qualidade.

R – No nosso caso, a campanha caracterizou- se por boas maturações e vinificações e já nesta data podemos elevar as expectativas qualitativas que o processo fermentativo indiciava. Assim, temos um ano com menos mas muito bons vinhos.

C – Valeu, contudo, a qualidade final dos produtos. Para já, o que tenho terminado está muito bom. Mas, devido ao atraso da vindima, ainda é muito cedo para a caracterização global. Ainda tenho algumas fermentações malolácticas (conversão do ácido málico, em ácido láctico – menos agressivo) por fazer, e ainda um depósito em fermentação, alcoólica (conversão dos açúcares em álcool), proveniente de uvas colhidas no dia 26 de outubro!!! Numa primeira avaliação, penso que em termos qualitativos não houve oscilações.

J – No que respeita à qualidade, é um ano em que tiveram condições excecionais para a maturação da uva, quer isto dizer, que quem pode esperar pelas uvas, teve a sua recompensa: vinhos muito equilibrados, taninos maduros, boa concentração nos vinhos tintos. Os brancos mantêm o nível bastante elevado de qualidade, já normal nesta região. Parece-me um ano com uma enorme potencialidade, talvez a par de 2015.

Evidentemente que cada envolvido na vindima de 2018, em Portugal, terá a sua opinião, mas das prestações declaradas e do que tenho constatado, a quantidade este ano foi comprometida, afetada prejudicialmente, sobretudo devido ao escaldão sentido. Se não tivesse assim sido, teríamos talvez um ano de excelentes e elevadas produções. Quanto à qualidade, parece estar garantida e num nível que continuará de certeza a impressionar consumidores nacionais e internacionais. Para o ano cá estaremos à espera de mais e melhor!!

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