Sr. Abel por João Rosa Luz

O Sr. Abel. O Sr. Abel morreu 3 vezes. A sua mulher morreu uma. No lar onde construíram a sua história, contabilizam 4 vezes mais ressurreições que a Bíblia. Jesus Cristo terá sempre uma menção honrosa, um lugar no pódium e o seu lugar insubstituível na história e nos corações dos Homens, o que só confere mais heroicidade ao feito do Sr. Abel.

Nasceu no Norte, não sei precisar se em Gondomar, se nos arredores, mas a sua história é da mais recortada filigrana. Cedo migrou com os seus pais e irmãos para terras scalabitanas, onde se fez homem e ribatejano. Dada a similitude das categorias, não posso precisar qual delas surgiu primeiro. Ainda “brincou” ao toureio com o mestre Celestino Graça, que lhe gabava a coragem e a técnica. Que esperar de um homem que desde cedo deu capotazos à morte? Tão pouco a guerra no Ultramar iria parar o jovem que disparava mais palavras do que fuzis. Talvez por isso, o tivessem colocado nas rádio-transmissões. Diria que até à data de hoje.

Cresceu nos negócios com o seu pai, e foi precocemente seu percursor, aos 26 anos, após a orfandade. Nas conversas que temos, pai e filho surgem juntos e por vezes na mesma pessoa. (Não é assim mesmo que se alcança a imortalidade?) Mercê da educação e aprendizagem exemplar, a empresa familiar prosperou e estendeu-se ao norte do país, desenhando o círculo evidente Norte-Sul – Gondomar/Almeirim, neste caso.

Construiu casa e família numa Cela onde conheceu o mundo. Desenhou, viajou e pôs a viajar. Hoje são os filhos que fazem de Sr. Abel, que entrega o legado do seu sorriso e integridade.

Incansável, conta-me que precisa de ir para casa, porque o esperam as tarefas de cuidar da sua esposa, invisual, menos refeita da tarefa de regressar à vida. Sempre cuidou da casa e cozinhou. Talvez por isso, a sua primeira cirurgia tenha sido aos 10 meses, após entornar uma panela de favas sobre si mesmo. Está escrito na pele e na folha que manuscrita à minha frente.

Um dia de histórias contadas pelo meu companheiro de quarto. Após uma aparatosa e convulsa estreia na cidade linda de Almeirim que o acolheu, este escriba encontrou o Sr. Abel na unidade de Neurocirurgia onde se viram internados.

O Sr. Abel foi embora, cuidar da casa e do seu amor. O escriba conta-vos a história.

 

João Rosa Luz – Humorista, Escritor e Ator

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