Férias, areia, mar, uma concha e, lá dentro, uma pérola!

Há missões que não têm férias e a nossa é uma delas. Por isto, cá estamos, em tempos de verão, procurando direcionar a luz e o calor do sol para a palavra ‘crianças’ e para a palavra ‘jovens’. Que esta luz nos permita ver com mais clareza os seus olhos de crianças e de jovens, e nos deixe, assim, perceber o que podemos e devemos fazer para a defesa e promoção dos seus direitos, do seu saudável desenvolvimento e da sua felicidade.

Continuando a tomar como ponto de partida a Convenção Sobre os Direitos da Criança, e a propósito da proteção da vida privada, pode ler-se no artigo 16 que “a criança tem o direito de ser protegida contra intromissões na sua vida privada, na sua família, residência e correspondência, e contra ofensas ilegais à sua honra e reputação.”

Em tempos acelerados, muito guiados pelos meios de comunicação e pelas redes sociais digitais, tempos estes, por vezes difusos, pouco nítidos e hiperestimulantes, é provável que encontremos comportamentos de pouco respeito pela privacidade, que não valorizam a esfera pessoal e o seu âmbito restrito. Estes comportamentos são, indiscutivelmente, encontrados em primeira linha nos adultos que, por ‘contágio’ social, os transmitem (consciente ou inconscientemente) aos mais novos.

Valorizar a vida privada, o seio familiar, o lar, as comunicações privadas, e respeitar igualmente a reputação e a honra de cada pessoa é uma atitude que demonstra o nosso respeito pela vida de cada um e é indicadora de reconhecimento da dignidade do outro. Por esta razão, as crianças e jovens têm este direito assegurado pela Convenção dos Direitos da Criança. Mas, para além de garantirmos que as crianças e jovens possam desfrutar deste direito e possam sentir-se protegidos a este nível, é muito importante que os adultos demonstrem este comportamento no dia a dia uns pelos outros. Só assim, se conseguirá transmitir às novas gerações que o respeito pelo outro, pela sua dignidade, privacidade e cenário sócio-cultural é algo que devemos pôr em prática desde sempre.

A invasão da privacidade e o não-respeito pelo valor do outro, pode ser ilustrado pela história daquela pessoa que, sabendo da existência de pérolas, desejava caçá-las, encontrá-las, tocar-lhes, fotografá-las, registá-las na sua história. Quando encontrava uma concha aberta – revelando a sua bela pérola, captava a sua essência de forma impulsiva, apoderando-se dela sem escrúpulos. Noutros momentos, em que encontrava uma concha fechada, mas na qual era sabido que se encontrava uma pérola, aquela pessoa forçava a concha a revelar violentamente a sua pérola. Em vez de dar tempo ao tempo e aguardar que a pérola se desse a conhecer, respeitando a sua essência e dignidade, usava instrumentos aguçados e agressivos para abrir a delicada concha, exibindo ao mundo o seu feito e sujeitando a pérola ao olhar de todos.

Em vez de caçadores e divulgadores de pérolas, procuremos compreender que há um tempo próprio para cada passo, e procuremos ser gentis observadores e fiéis confidentes. Respeitemos a privacidade, valorizemos a dimensão individual e compreendamos que a ofensa é como um prego que se espeta numa tábua de madeira. Mesmo pedindo perdão e retirando o prego, ficará sempre a marca.

Neste verão, se o vosso pé encontrar uma concha na areia, recordem que todos nós temos pérolas que queremos que continuem só nossas! Bom verão!

 

CPCJ – Comissão de Proteção de Crianças e Jovens de Almeirim

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