“Pela nossa família vamos ao fim do Mundo e é essa a mensagem”

LIVRO Ana Rita Correia lançou o livro “Tudo o que Sempre Quis”no passado dia 13 de maio. Uma história de amor, de amizade, de dor, perdão e segundas oportunidades.

Primeiro que tudo, quem é a Ana Rita Correia e o que leva uma designer de interiores e exteriores a ser escritora?
A Rita é uma jovem muito determinada e exigente consigo própria, mas é sobretudo simples, sossegada, gosta muito de estar no seu mundo e tem várias paixões tais como a escrita, a leitura, a fotografia e tudo o que esteja ligado à arquitetura, ao design e à construção. É muito curiosa em perceber como é que uma determinada coisa foi construída até chegar ao resultado final.
Ainda que esteja numa terra pequenina, sou sortuda em trabalhar na área que estudei e que gosto bastante, mas tal como qualquer profissão, há muito stress, às vezes muita pressão e a escrita nessas alturas funciona como o meu escape para uma realidade alternativa. Se no futuro gostaria de fazer vida de escritora a tempo inteiro? Claro que sim, mas ainda não me é possível, pelo que vou continuar a tentar conciliar as duas coisas.

Como nasceu o gosto pela escrita?
Desde os tempos da escola primária sempre gostei muito de escrever, até mesmo nas férias quando o meu avô me “obrigava” a fazer cópias e ditados e eu não queria… eu gostava disso, mesmo que não quisesse demonstrar. Mais tarde, já no ensino básico, comecei a escrever pequenas histórias que eu imaginava, só porque sim. Para me entreter de alguma forma durante as férias em que não tinha nada para fazer. Nessa altura estava muito longe de imaginar que chegaria até aqui. Tenho um caderno, um pequeno tesourinho, com essas histórias e hoje, tantos anos depois, sei que foi naquele caderno de capa preta que, de certa forma, tudo começou. A primeira história que escrevi foi uma homenagem ao meu (falecido) avô que tanto me ensinou ao longo da vida. É irónico pensar que foi ele quem me incentivava a escrever, a fazer exercícios de matemática, a ser boa aluna e foi nesse texto que lhe escrevi que, sem sequer sonhar com isso, comecei a trilhar este caminho por onde agora ando. Foi nessa altura – em 2007 para ser mais precisa – que comecei a escrever as minhas pequenas histórias. No Secundário troquei o caderno por um blog que mantenho até hoje. Depois disso, numa fase em que procurava emprego e, mais uma vez não tinha nada para fazer, comecei a escrever “Tudo o que Sempre Quis” ainda sem ter noção do que estava à minha espera.

Este é o primeiro livro que escreve? Porquê o título “Tudo o que Sempre Quis”?
Pelo menos é o primeiro que consegui levar até ao fim. Comecei vários ao longo dos anos mas acabava por perder o entusiasmo a meio, o que quase aconteceu com “Tudo o que Sempre Quis” mas de alguma forma, depois de um bloqueio que durou vários meses, literalmente fez-se luz e percebi que tinha de o terminar. Nunca me tinha ainda passado pela cabeça escrever para publicar. Apenas escrevia para mim. Ao contrário do que se possa imaginar, “Tudo o que Sempre Quis” não é sobre mim. É uma história de ficção, mas não significa que as personagens que criei não sejam inspiradas em pessoas reais porque na verdade, são. Cada personagem acaba por ter um traço ou outro inspirado nas pessoas que passaram pela minha vida ao longo dos anos, umas ficando, outras que inevitavelmente acabaram por sair… as pessoas marcam-nos sempre. Muito ou pouco, deixam sempre a sua marca e eu acho que ao inspirar-me nelas estou a imortalizá-las de alguma forma. O título inicialmente não era este – era para ser “Deixa-me Amar-te” – mas quando escrevi a última linha achei que fazia todo o sentido e posso desvendar que está relacionado com a última fala de uma das personagens. É essa frase que encerra a história e quando terminei esta jornada, percebi então que escrever um livro era “Tudo o que Sempre Quis”.

Que história relata o livro? É fácil escrever sobre jovens?
A história gira em torno de um grupo de jovens que se perderam algures na estrada da vida. Todos eles têm assuntos pendentes, cicatrizes e fantasmas que insistem em persegui-los onde quer que vão. Até mesmo quando, um por um, por um motivo ou por outro, se refugiam numa pequena Vila à beira-mar sem saberem até que ponto os seus destinos estão traçados. É uma história de amor, de amizade, de dor, perdão e segundas oportunidades, mas acima de tudo, sobre a lealdade para com a família. Na minha opinião, pela nossa família vamos ao fim do Mundo e é essa a mensagem principal que tento passar ao escrever sobre o Salvador, a Helena, o Lucas, a Sara e o Martim. Exceto Salvador, Helena e Lucas, que são irmãos, eles não se conheciam mas o destino tratou de os juntar por alguma razão, talvez no fundo, o que eles precisassem realmente não era de paz de espírito, mas sim de se cruzarem uns com os outros. Escrever sobre jovens não acho que seja difícil, pelo contrário, mas talvez para mim tenha sido uma tarefa mais fácil sendo eu também ainda jovem. Quando escrevemos com o coração, não há histórias difíceis de se escrever. Há assuntos que sim, precisamos de informações, de estudar um pouco sobre isso… tudo é possível se acreditarmos e trabalharmos pelo que queremos, pelo que sonhamos.

Acha que o amor e a lealdade entre os jovens mudou nos últimos tempos?
Infelizmente, acho que sim. No geral, a sociedade mudou e nem sempre para melhor. Os valores e princípios mudaram e com isso, tudo acaba por mudar. Há exceções. Há ainda pessoas muito boas e leais que vale a pena termos ao nosso lado. Na amizade, como dizem, mais vale poucos e bons do que muitos e fracos. Temos que nos rodear mais pelas pessoas que nos fazem bem, que estão connosco mesmo quando queremos estar sozinhos, essas pessoas não se vão embora de forma nenhuma e são esses os verdadeiros amigos e as melhores pessoas que podemos ter na nossa vida. Para tudo.

Como está a ser a reação ao livro?
Até aqui, está a ser muito boa. Nunca pensei receber tantas mensagens de carinho e tantas pessoas a querer reservar o livro mesmo antes de ele estar disponível para o público. A curiosidade tem feito o seu papel. Poucas pessoas podiam imaginar sequer que eu tinha escrito um livro e quando souberam ficaram surpreendidas e curiosas por ler. Na altura em que terminei de escrever o livro, há cerca de 2 anos, coloquei no meu blog e recebi um bom feedback, começaram até a perguntar-me se não iria publicar “a sério” e hoje, essas mesmas pessoas com quem acabei por travar uma amizade ainda que à distância, mesmo já sabendo a história toda fizeram questão de ter o seu exemplar autografado.

Já tem algum projeto pensado para o futuro?
Tenho planos para mais 3 livros, se tudo correr bem, no próximo ano sairá o segundo. Neste momento estou na fase das apresentações de “Tudo o que Sempre Quis”. Fiz a pré-apresentação no passado dia 21 de abril no Cine-teatro e a próxima será já no dia 9 de junho, pelas 17h, na Biblioteca Municipal de Almeirim. Aproveito para convidar todas as pessoas a estarem presentes. O resto, logo veremos. Posso já ter vários planos e ideias mas vivo um dia de cada vez para saborear melhor esta fase muito boa que estou a viver, afinal, realizei um dos meus sonhos de vida: ser escritora.

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