“O grupo porta-se como se fosse uma família”

HISTÓRIA O Rancho Folclórico “Os Camponeses da Raposa” conseguiram festejar, recentemente, as bodas de prata no grupo infantil e os 27 dos mais velho. O grupo está vivo, com vitalidade e recomenda-se…

António Estêvão, consegue recuar 27 e 25 anos para nos explicar como nasceu o Rancho Adulto e Infantil?
O Rancho nasceu inicialmente de uma brincadeira, na qual eu, António Gomes Estêvão, que trabalhava com Manuel Coelho Alves, já falecido, e tal como eu sonhava formar um rancho folclórico. Assim, o senhor Manuel Coelho Alves prontamente se disponibilizou para ensinar e ser o futuro ensaiador do Rancho Folclórico Os Camponeses da Raposa. O passo seguinte foi formar uma direção para o rancho folclórico, sendo a primeira direção formada por António Gomes Estêvão, Serafim Lopes Simões, Filipe Carvalho Avó e Manuel Coelho Alves, e foram estes quatro elementos que iniciaram todo o trabalho de fundação deste grupo de folclore.

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Sendo um dos fundadores, pode fazer balanço. Que balanço faz?
Como fundador do grupo, faço um balanço muito positivo, e embora ao longo dos 25 anos de existência tenha tido os seus altos e baixos, sempre conseguimos dar a volta e continuar com o nosso sonho. A aldeia é pequena mas quando precisamos de colaboração para organizar os festivais e outros eventos, as pessoas aderem e participam.

Admite que na freguesia mais pequena ter dois ranchos que têm mais de 25 anos é uma vitória?
Ter dois ranchos ativos numa freguesia tão pequena é para mim uma vitória, até porque a nossa aldeia, para além de ter poucos habitantes, é basicamente uma freguesia rural, na qual muitas pessoas tiveram a necessidade de ir morar para outras terras devido ao seu emprego, logo, temos que recorrer a freguesias vizinhas para angariar dançarinos.
Por tudo isto, considero ser de louvar o facto de conseguirmos aguentar dois grupos por tantos anos e sem que tenha havido qualquer interrupção.

O nome fica a dever-se ao facto de estar relacionado com um povo que outrora, era o trabalho no campo, nomeadamente o trabalho na cortiça, no trigo, no milho e principalmente nos campos de arroz por isso alguns dançarinos dançam descalços?
O nome escolhido para o grupo deve-se ao facto de a nossa aldeia ser rural. Os seus habitantes viviam na sua maioria da agricultura, principalmente do arroz, do trigo, corte do mato, apanha da azeitona entre outras, estando bem vincados nos trajos as tradições, sendo que alguns dançarinos dançam descalços, logo o nome de Camponeses da Raposa, tem tudo a ver com a terra.

Qual ou quais os momentos mais felizes que viveram nestes mais de 20 anos?
Os momentos mais felizes que passámos, foram muitos e é difícil numerar todos, mas lembro os convívios nos ensaios, nas atuações e festivais na nossa freguesia, e principalmente nas saídas para vários pontos do país e também para o estrangeiro, as quais decorreram sempre num clima de respeito, amizade e muito divertimento. O grupo porta-se como se fosse uma família, todos unidos, de forma a elevar o bom nome da Freguesia.
O facto de nos respeitarmos e de sentirmos o espírito de união, dá-nos força para continuar.

E há algum mais triste?
É lógico que ao longo dos vinte cinco anos de existência já tenhamos passado por momentos mais tristes, os quais nos marcaram, mas com a força de vontade para continuar e a ajuda que temos tido da população, conseguiu-se superar e olhar em frente.
Alguns desses momentos devem-se à saída de elementos que nos deixaram saudade, alguns que iniciaram connosco e que ao longo do tempo e devido à sua vida particular não puderam continuar.

Como é feita a recolha de danças e músicas?
A recolha das danças e músicas teve por base o contacto com as pessoas mais antigas da Freguesia que nos ajudaram com os seus conhecimentos.
Para isso contactámos todas as pessoas que sabíamos que tinham histórias para contar e que pudessem ser úteis nesta recolha.

Este processo de recolha é algo que nunca está terminado?
O processo de recolha nunca está terminado, uma vez que existem sempre elementos que, devido à sua vida particular e profissional, têm necessidade de se ausentar, logo é necessário manter as recolhas de forma a não se perder os usos e costumes da freguesia.

Como projeta os próximos 25 anos?
Para os próximos 25 anos esperamos poder manter os dois grupos ativos, transmitindo incentivos e trabalhar em prol do que já foi construído.

Hoje em dia dizemos que os jovens já não se interessam pelas tradições. Concorda ou não?
Não concordo com a ideia que os jovens atualmente não se interessem pelas tradições, pelo contrário, no nosso caso existe uma grande maioria de jovens que se interessam pela continuação do folclore onde está inserida a cultura da nossa região, os usos e costumes.

Estar num meio pequeno beneficia ou prejudica?
Estar num meio pequeno por um lado é bom porque todos se conhecem e prestam o seu apoio.

Ensaiadora – Clara Augusto

Como foi fazer parte do rancho durante 22 anos? É uma vida?
Comecei a dançar no grupo quando tinha 16 anos. Viver numa aldeia pequena com poucas atividades para os jovens, a entrada para o rancho foi um bom entretenimento para os tempos livres. Além de dançar, depois fui desempenhando outras funções e lá me mantive ao longo de 22 anos. É uma vida, sim, são muitas horas de entrega, muito trabalho dedicado a algo que faz parte de mim e de todos os que já passaram por um grupo de folclore. Nos últimos anos em que estive no grupo tive uma excelente equipa de trabalho, deixo aqui o meu agradecimento à Bruna Simões, José Vítor, António Estêvão e Manuel Caldinhas.

Que valores recebeu e transmitiu?
Quando falamos em folclore, falamos da cultura popular, usos, costumes, tradições. Aprendi muito sobre o que foi, o que continua a ser, as gentes de cá, o seu modo de vida, o trabalho, os utensílios, as músicas, as danças, como coisas tão simples podiam ser uma festa. Na minha opinião, tanto no folclore como na nossa vida, tudo deve ser feito com sinceridade e diversão, mas o que mais me marcou durante esta fase foi a amizade e foi isso que tentei transmitir, porque um grupo de folclore não é apenas aquele dançarino que se destaca, não é a vocalista, o acordeonista ou o ensaiador, um grupo de folclore é o grupo e sem amizade dificilmente conseguimos uni-lo.

A Clara também chegou a ser ensaiadora?
Ensaiadora não é bem o termo, como não havia ninguém para ensaiar e eu era uma das dançarinas do início do grupo, fiquei responsável pelos ensaios dos grupos.

 

Ranchos

Adulto

O Rancho Folclórico “Os Camponeses da Raposa” foi fundado em 2 de agosto de 1991. O Rancho tem a sua localidade em Raposa, uma aldeia pequena, situada junto à Ribeira de Muge, servida pela Estrada Nacional 114, a 12 km de Almeirim, sede do Concelho, Distrito de Santarém – Ribatejo. A sobrevivência do seu povo de outrora era o trabalho no campo, nomeadamente o trabalho na cortiça, no trigo, no milho e principalmente nos campos de arroz, por isso alguns dançarinos dançam descalços. Muito do povo migrava no Inverno, à procura de trabalho para a sua sobrevivência, mais propriamente na apanha da azeitona. Às vezes, quando caía a noite, enquanto se cozia a ceia, apesar da pobreza e do cansaço, ainda sobrava tempo e alegria para um bailarico ao toque de um harmónio bocal, ao que o povo apelida de realejo. Os trajos dos dançarinos remontam ao século passado e são a cópia fiel dos trajos de antigamente. Podemos ver trajos de camponeses (trabalho), trajos domingueiros, trajo de Campino de gala, trajo de Moiral do gado bravo, entre outros. O Rancho tem no seu reportório verde-gaios, viras, modas a dois passos, fadinhos, valsas e o fandango. Todas as danças, usos e costumes foram recolhidos na freguesia. A tocata é composta por cantadores, concertinas, cana, ferrinhos e cântaro. Já estiveram presentes em vários Festivais Nacionais e Internacionais, desde Norte a Sul do Pais e estrangeiro, onde têm representado com dignidade a zona em que estão inseridos, que é a zona da charneca.

 

Infantil

O Rancho foi fundado em 5 fevereiro de 1993 e nos trajos procurou–se dar continuidade aos trajos do grupo adulto.

 

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