Quem é Sandra Matos?

A História do Andebol escreve-se com o nome de Sandra Matos, aqui com o Leonor Félix. Sandra foi das melhores atletas portuguesas.

Onde e como começou o gosto pelo andebol?
Na altura, decorria o ano de 1984, estudava então no ciclo preparatório, em Almeirim- (Febo Moniz) e soube por um colega de turma e amigo, Ricardo Santos,que andavam a convidar jovens para fazerem um treino de captação de andebol,e em conjunto decidimos ir experimentar, pois sempre gostei muito de desporto, mais propriamente tudo o que envolvesse bola, e acabámos por ficar os dois rendidos à modalidade durante muitos anos.

Antes desta modalidade chegou a jogar alguma outra?
Como federada, não. Nas aulas de educação física, no basket , volley e futebol destacava-me de todas as raparigas da turma e se, na altura, em Almeirim, existisse a possibilidade de praticar basket, penso que teria tentado, pois gostava muito e grande parte das férias desportivas eram mesmo passadas no pavilhão a jogar com amigos, tanto andebol como basket.

E a posição de guarda-redes, como surgiu?
Eu nunca gostei muito de correr sem ser “atrás” de uma bola ou com ela, e no primeiro dia de treino, com Ângelo Almeida, no ringue do complexo desportivo, recordo-me que ele nos colocou a correr,o tão famoso aquecimento da altura, e a certa altura parei e não dava para continuar, e o treinador, em jeito de castigo, disse para ir então para a baliza, mal ele sonhava que me estava a proporcionar o caminho mais certo na modalidade,pois nunca mais saí daquele posto específico até ao dia em que abandonei.

O crescimento como atleta foi natural e progressivo, ou viram logo que estava ali alguém de topo?
Lembro-me bem que, naquela altura, o pavilhao ABC era recente e existiam dois grupos de atletas que treinavam, divididos entre o ringue e o abc e as jogadoras que, de alguma forma, se destacavam nos treinos no ringue, eram selecionadas para passar a treinar no pavilhão, com o treinador Lourenço Reis, para mim o melhor que passou na modalidade em Almeirim, até aos dias de hoje. Sei que após três treinos no exterior fui escolhida para treinar no pavilhão, e aí sei que em pouco tempo percebi, e também me seria dito mais tarde por quem entendia do assunto, que muitas das minhas capacidades para aquela posição seriam inatas e por isso mesmo considero que, apesar do crescimento ter sido de algum modo progressivo, acabou por ser mais célere devido a esse factor intrínseco.

Qual foi o melhor momento que viveu na vida desportiva?
Podia nomear vários, desde conquistas pessoais,coletivas, pelos clubes onde joguei, mas a primeira convocatória oficial para a seleção nacional de sub-16 foi, sem dúvida, a maior alegria, ou o melhor momento, pois lutava e treinava há muito para o alcançar contra outras atletas do mesmo posto específico que possuiam factores físicos considerados fundamentais, naquela altura, para poder fazer parte duma seleção: as medidas antropométricas, de onde se destacava a altura – o meu calcanhar de Aquiles – e onde estava nitidamente em desvantagem com outras colegas. e saber que deixei para trás guarda-redes mais altas nessa convocatória oficial,teve assim um sabor especial; a par deste momento também o facto de ter ido a Itália à taça latina, com apenas 16 anos, representar a seleção nacional de sub-20 foi muito bom e, claro,como jogadora do União de Almeirm, o grande momento foi a subida à 1a divisão nacional quando ainda era atleta juvenil, a jogar já pelas seniores.

E o pior?
Ainda dói quando me lembro…sem qualquer sombra de dúvida, a lesão gravíssima que contraí na coluna lombar aos 18 anos, ironicamente num treino de seleção nacional sub-18.

Tem saudades dos tempos em que o andebol , e em particular o feminino, vivia tempos áureos?
Claro que sim, tenho eu saudades e certamente todas as atletas que fizeram parte do grupo extraordinário liderado por Lourenço Reis, apoiado pelos saudosos dirigentes, Manuel Beirão e Domitilia Fernandes, que espalharam magia e alegria por esses pavilhões fora, pois chegámos ao topo de forma brilhante e rápida para um grupo tão jovem, que chegou a ter oito atletas em simultâneo em trabalhos de seleção nacional.

Depois de tanta expressão, como se deixou quase acabar com a modalidade?
Não posso alongar-me muito nessa análise, pois quando se dá o desaparecimento triste do andebol feminino em Almeirim eu já jogava numa das outras 8 equipas por onde passei como guarda- -redes. Estava afastada de certa forma da terra e da modalidade e nunca me aprofundei nas causas desse acontecimento,mas penso que pode ter passado por uma escassez de orçamento para fazer face aos compromissos que uma presença nas competicões europeias acarretou, na altura o União de Almeirim tinha na equipa duas internacionais búlgaras e algumas jogadoras que vinham de longe para treinar e jogar em Almeirim, e por vezes, passos maiores que a passada não auguram bom resultado.

As pessoas ainda a reconhecem como guarda-redes do União e da Seleção?
Felizmente sim,apesar de já terem passado muitos anos desde essa parte da minha vida, ainda me reconhecem, sim, e as redes sociais, como o facebook em muito ajudam a contribuir para que essa continuidade de reconhecimento exista, pois a partilha de vídeos e fotos proporciona isso mesmo e acaba por ter um retorno positivo.

Desligou-se da modalidade?
Desligar nunca vai acontecer a nível sentimental, pois o andebol “corre-me nas veias” e foi uma paixão que veio para ficar. No ativo como jogadora, e após o meu regresso vindo de um interregno de cinco anos, após ter representado as equipas seniores de Alcanena, Juve-Lis (Leiria), Passos Manuel (Lisboa), Porto Salvo (Lisboa), Gil Eanes (Algarve) e terminei a carreira na época de 2005/06 num grupo fantástico no Cister de Alcobaça (Leiria).
Como treinadora depois do União de Almeirim, CADCA, CCTL Santarém, 3A Almeirim, ainda iniciei esta época no JAC de Alcanena, com as equipas de iniciadas e juvenis femininas. Por motivos de força maior, em dezembro, vi-me obrigada a abandonar as equipas, que continuam em todas a frentes pela luta de títulos nacionais e continuo a participar sempre que me é possível em ações de formação, quer na componente especifica ou na geral, também para tornar possível a renovação da cédula de treinador, imposto pelo IPDJ para todos os treinadores a nível nacional. Vivo de perto a modalidade nacional e internacional, ao vivo quando posso ou através da tv e internet.
Fora dos pavilhões sou vigilante na direção de finanças em Santarém. Disfruto sempre que posso da minha família, cuido do meu gato que retirei da rua por ser vítima de maus tratos e continuo o mais perto que posso do andebol.
Descrevo-me como alguém demasiado altruísta e que já perdeu algumas oportunidades de progressão a nível profissional e desportivo por isso mesmo. Valorizo muito a amizade e mesmo por isso tenho poucos amigos, sou defensora dos animais e contra qualquer tipo de maus tratos a esse nível e considero que alguns seres humanos têm muito a aprender com eles.

.