Saber esperar, esperar para saber

Vivemos num mundo onde o sentimento de culpa, pelo pouco tempo que se dedica aos filhos, invade os nossos corações.

A relação não se mede pelo tempo dispensado, mas sim pela qualidade que se impõe na mesma. Este sentimento de culpa leva muitos pais a condescender e a permitir comportamentos e atitudes impensáveis noutros tempos. Leva à entrega, sem qualquer reflexão, das novas tecnologias, de tempos infindáveis de silêncio porque a criança está entretida.

Segundo vários autores, não são estas tecnologias o principal problema, mas sim a falta de controlo sobre as mesmas e o excesso de tempo com que são utilizadas.
As crianças de hoje, sem critério de idade, deslizam continuamente o indicador num ecrã para mudar de imagem, de estímulo, de desejos que aparentemente se realizam todos no imediato. Torna-se cada vez mais incompreensível para a criança aceitar que o que eu quero agora se realiza depois. Deixa-as irritadas, revoltadas e muitas vezes agressivas. Quando por algum motivo o adulto as priva de manusear um dos aparelhos de eleição, as reações são muitas vezes de revolta e negação absoluta perante aquela regra. O imediato, o agora, sem obrigar a tempos de espera, a investimento para descoberta, em dispensar tempo para se preocuparem com determinado assunto, torna-se uma realidade cada vez mais constante.

Segundo Gama, M. (2015), Médico Pediatra e de Adolescência, “(…)o uso precoce e frequente das tecnologias digitais pode, na visão do adulto, ser um objeto de distração, mas para a criança (0 a 2 anos) pode influenciar seu desenvolvimento e condicionar seu comportamento (…)”.

Relembrando Piaget, a criança até aos 2 anos de idade aprende através dos sentidos utilizando a função motora, explora o mesmo objeto de várias formas, experimenta ações e resolve problemas por meios de tentativa e erro.

“A estimulação para o desenvolvimento cerebral causada por exposição excessiva das tecnologias (telemóveis, internet, ipad) pode estar associada ao deficit de funcionamento executivo e atenção, atrasos cognitivos, prejuízo da aprendizagem, aumento da impulsividade e diminuição da capacidade de se autorregular (…)” (Gama, M, 2015)

Esta nova geração, geração digital, está a crescer dentro de um ambiente em que a vida virtual passa a ser parte integrante do quotidiano.

As tecnologias produziram muitos progressos e conforto para a humanidade mas trouxeram também relações superficiais, afastou o contacto visual, os convívios prolongados de diálogo, deixam de existir tempos de espera, automaticamente o impulso gera ação, as crianças perdem ferramentas para lidar com a frustração numa fase de adolescência.
Cabe-nos a nós, adultos preocupados em proporcionar um desenvolvimento harmonioso e integral aos nossos filhos, preocupados em proporcionar valores, afetos e criá-los num seio familiar estruturante, repleto de estímulos e relação, refletirmos sobre o que de vantajoso e perigoso poderão ser as novas tecnologias, quando se tornam em excesso e sem qualquer tipo de acompanhamento ou supervisão.

Os primeiros 5 anos de vida são fundamentais para a formação do afeto e dos limites. A maior proteção que se pode dar está na qualidade da sua relação com a família.

 

Joana de Mello – Dir. Colégio Conde de Sobral

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