O Fantasma do Nosso Avô (parte I)

Por vezes dá-me para cozinhar para alguns amigos, mais do que amigos, os meus convidados de hoje, se assim lhes posso chamar, são meus primos, e irmãos entre si.

Ele, Luís, um rapaz alto, amorenado, com os cabelos caindo-lhe em cachos bastos e enrolando-se em espirais, como as gavinhas de uma videira. Com a mesma idade que eu, uns meses mais velho.

Ela, Lidinha, espigada, com a cor moreninha da família, uma cara bem-disposta e uns cabelos bastos, castanhos acobreados caindo em volutas dispostas naturalmente mas que produziam um lindo efeito.

Ao fim e ao cabo todos eramos convidados uns dos outros, a casa era a da família que resolvêramos manter em comum e onde por vezes nos encontrávamos. Faltavam ali os outros dois, ou melhor, duas, a Irene e a Gracinha.

O jantar que preparara para os restantes não tinha sido nada de especial, uma sopa de feijão com carne, a sustância era dada por uns ossos de porco e alguns enchidos e a consistência pelo feijão manteiga. A receita nunca falhava, primeiro coziam-se os ossos com os enchidos, com o cuidado devido para a farinheira não rebentar, ia-se picando os restantes para soltar a gordura que havia de melhor temperar o feijão, as batatas e a couve-repolho.

Depois era deixar ferver, ir apaladando com um pouco de sal, se necessário, e servir quentinho que o inverno ia no pino e, na planície alentejana, as noites de janeiro não são pêra doce.

Claro que eu não ia comentar a excelência do repasto, não me ficava bem, mas os meus primos sempre me iam tecendo encómios à refeição embora, e com razão, diga-se em abono da verdade, um pouco pesada para a noite. Mas jovens como somos a digestão não nos devia pôr dificuldades, ademais depois de um “café das velhas” preparado pela Lidinha e uns sorvos de um bagaço não sei com quantos anos, apresentado pelo Luís.

Embora com um frio de rachar, resolvemos ir tomar a pinga para o alpendre da casa, aproveitámos as cadeiras de verga, e embuçados até ao cocuruto da cabeça encaramos a friagem para nos deleitarmos com o espetáculo da noite.

– Não está calor nenhum. – Remoí eu para ouvir o Luís.

– Não estás à espera de uma fogueira, não? – Atirou sarcástico o meu primo.

– E tu que não me quisesses desfazer a palavra. – Resmoneei.

– Vocês já estão a jogar às palavras cruzadas? – Lidinha que ficara a arrumar a cozinha chegava agora ao alpendre e toca de nos censurar aos dois. Calámo-nos porque a razão tinha-a ela, por muita amizade que tivéssemos um ao outro a vida para nós era um despique direto. – Está aqui muito frio. – Queixou-se a prima.

– Vai para dentro. – Propôs-lhe logo o irmão, o que ela ignorou.

– Mas o espetáculo é um… nem sei o que diga. – Lídia calou-se embevecida pela natureza que nos esmagava.

As luzes amarelentas da povoação que se alongava no vale não retiravam brilho ao firmamento. A casa da família que resolvêramos manter em comum, situava-se no alto de um cabeço e fazia parte do antigo monte em que as gerações dos nossos avoengos tinham sido criadas e de onde tinham partido para fazer fortuna no mundo. Mas tinha sido ali o início da família e da fortuna, que tinha sido começada e ampliada com casamentos com outros senhores da terra. Com maior ou menor vicissitudes o núcleo mantinha-se e os primos não estavam mal na vida, verdade seja dita que se um estivesse menos bem, logo os outros acorriam com os teres e haveres que fossem necessários.

– Ouve lá Luís, que vinho era aquele que bebemos ao jantar? – O meu primo tinha um dedo especial para achar néctares que agradavam, e de que maneira, aos palatos mais exigentes.

– Isso querias tu saber. Dou-te duas garrafitas e vais com sorte. – Senti-lhe o sorriso mesmo às escuras e com o cachecol a tapar-lhe a face.

– Não estarás a abusar de um vinho que é meu? – Não se podia falar de bom-tom com este maroto.

– Aí estão outra vez vocês. – A voz da Lidinha lá nos veio chamar à pedra.

– Pronto. Vamos lá a conversar como deve ser. – Estas palavras vindas do meu primo deixaram-me com uma pulga atrás da orelha. – O vinho que bebemos fui eu que o fiz. Começa logo por aí. E não te enganas, era teu, agora é nosso.

– Ah! Muito bem. E porque razão era meu e agora é nosso? É aquele velho fado, o que é meu é meu, o que é teu é nosso… Lidinha toma cuidado com o teu irmão… – E resmoneei fazendo gestos largos de quem se abotoa com o que tiver à mão.

– Ele? – Perguntou a minha prima. – Isso dá tudo, se não sou eu a tomar conta das finanças da nossa casa, já tinha dado tudo a amigos que só o são de ocasião. – Contrapôs Lídia.

– É um coração largo, pelos vistos ficou-me com uma colheita e agora devolve-me… duas garrafas. – E suspirei em alto e bom som.

– Tá bem, mas chega para lá com tanta azia. Fiz a colheita na vinha do Valadão…

– Essa é minha? – Questionei admirado, não sabia muito bem na divisão das herdades o que é que me calhara nas sortes, a terra não era o meu ramo, sou mais pelas finanças, não fazem tanto pó e os proveitos são, no geral, maiores.

– Mas para que é que eu estou preocupado? Tás a ver Lídia? Ele não quer saber disto para nada. – E o meu primo pontuava a conversa com gestos largos arriscando-se a entornar o líquido.

– Mantem-te mais quedo, ainda estragas o bagacinho, que naturalmente também é meu. – Aí é que o Luís foi aos arames, pelo menos levantou-se do cadeirão.

– É! É tudo teu! Não fazes nenhum, não sabes de onde vem o que bebes, mas é tudo teu. – Abespinhara-se o meu primo, isto é, eu ganhava por 1 a 0. Boa!

– Vá lá mano, explica lá isso e senta-te. – Mais uma pinga de água na fervura.

– Mas não me charinguem o juízo. – Lá se sentou o meu primo, e continuou. – Aquela vinha tem uma exposição ao sol que a torna única, resolvi fazer umas talhas só com aquelas uvas. Deu-me trabalho, mas saiu um vinhão, bem apaladado, não demasiado encorpado, com um grau que tive que desdobrar, tinha dezassete, guardei uma dúzia de garrafas para ver como reage, ainda engarrafei umas quinhentas com catorze. É para o nosso gasto…

– É pá! Obrigado! O mestre és tu. E dou de boa vontade a mão à palmatória, se não fosses tu… não bebíamos nada! – E ri-me – Mas agora conta lá a história deste bagaço.

– É outra história, é! Encontrei três barris na cave da adega. Não sei se não estarão lá há dezenas, ou centenas de anos. Quando os abri a madeira tinha bebido um terço do líquido, e o que lá estava era uma aguardente para ai com setenta ou oitenta graus. Imbebível pela graduação e pelos taninos. – Um compasso de espera para criar suspense. – Andei a experimentar as águas das nossas fontes, nunca me tinha dado a esse trabalho, senti-me como o Tomé da Póvoa[1]. Encontrei uma água num poço abandonado, de uma finura… não sei se me entendem? – Tanto eu como a Lídia acenamos fortemente com as cabeças. – Desdobrei com ela o xarope daqueles barris, depois misturei tudo num pipo novo de carvalho francês, deixei a repousar, já lá vão uns meses. O que bebemos é de uma garrafa de prova. O que é que acham?

– Eu não acho nada, – apressou-se a Lídinha a esclarecer – se me deres a beber dessa tal água ainda posso dar a minha opinião…

– Olha lá Luís, qual terá sido o avô que nos deixou este néctar? – Questionei.

– Não sei. Mas julgo que terá sido o barqueiro. – Respondeu-me a meia voz.

– Ah! Esse! – Disse a Lídia.

– Eh lá. Isso é sempre uma história que me espanta. Vocês é que foram criados mais aqui a estes lados. É verdade que o fantasma do avô aparece aqui por casa? – Estas coisas de fantasmas nunca me haviam deixado muito à vontade.

– Eu já dormi no quarto dele e nunca vi nada, nem senti nada. – Esclareceu a Lídia.

– Eu não sei. Só de olhar para a cara do homem ficasse com respeito. – Ajuntou Luís.

– Mas essa história do nosso trisavô ser barqueiro aí no rio e depois ter tido dinheiro para comprar bastos teres e haveres, da fama que afogava os mais abastados, não se livrou. – Contara-me a história a minha mãe que descendia em linha direta deste meu avoengo.

– Pois, parece que sim, mas nada se sabe, a justiça ainda andou por ai a rondar, mas nessa altura já o trisavô era casado com uma das meninas do lugar e naquela altura, metade do século XIX, lutas civis e revoluções… não apuraram nada. – O Luís era quem mais ligava à história da família.

– Dizia-se que era no momento de pagar que o barqueiro se decidia, se iam sozinhos e o saco do ouro era de bom volume, ia o corpo parar ao rio com os bolsos cheios de pedras, mas isso… saber-se! – Pronunciou-se a Lídia.

– Há aí em casa uma fotografia do homem? – Perguntei eu.

– Haver há. Lá no quarto do fundo, não vai lá ninguém há muito tempo. Mas a noite vai bonita, olha a lua está a nascer e não há luar como o de janeiro e hoje está lua cheia. – Parecia que a intensão do meu primo era mudar o fio à conversa.

 

Continua

 

[1] Personagem do romance “Os Fidalgos da Casa Mourisca” de Júlio Dinis.

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