Entrevista: Rotary de Almeirim homenageia Natércia Teles

Natércia Teles foi ontem, 23 de Março, homenageada pelo Rotary de Almeirim no Salão Nobre da Câmara Municipal de Almeirim.

A homenageada concedeu uma entrevista a O Almeirinense. Parte dessa conversa está publicada na edição de 1 abril. Aqui pode ler na integra.

O que significa este prémio?
Este prémio é o reconhecimento do que eu tenho feito mas, sinceramente, quando faço alguma coisa não é para receber prémios. No entanto, eu não escondo que é muito agradável recebermos assim um prémio por ser boa pessoa, é melhor do que ganhar uma corrida.

Ficou surpreendida?
Fiquei, fiquei muito surpreendida. Não estava nada à espera de receber este prémio. Quando o Rotary foi ter comigo eu pensei que era para nos envolvermos noutro trabalho solidário, nunca me passou pela cabeça e fiquei sem palavras. Primeiro recusei, disse que não merecia, mas depois acabei por aceitar e fiquei feliz.

A quem dedica este prémio?
Eu dedico este prémio aos meus alunos pois são eles o mais importante da minha vida profissional. A minha família é muito importante, mas eles sabem e sempre souberam dividir-me com outras coisas.

Consegue fazer uma avaliação da sua carreira?
É uma avaliação (pausa e suspiro) positiva. Nós nunca conseguimos fazer tudo aquilo que queremos, mas olhando para estes 37 anos de serviço, eu diria que de 0 a 10 faço uma avaliação de oito. Os outros dois são para aquilo que perdi e não consegui alcançar.
Eu perdi alguns e eles perderam-se na vida, e isso foi um desgosto muito grande para mim , tentando por vezes resgatá-los das drogas, da infelicidade …
Acho que todos os alunos (crianças e jovens) são capazes de fazer, aliás o meu lema é: “Crer é poder”.
Quando algum não chega lá, eu sinto-me um pouco responsável por isso.

Do que tem mais saudades na escola?
Tenho saudades do tempo em que não existiam tantos papeis. (sorrisos). Agora há muitos papeis que temos que preencher. Por muito que digam que os alunos estão piores, eu não acho. Os alunos estão os mesmos, nós é que podemos ter menos paciência por estarmos mais velhos. Acho que os pais são menos exigentes na educação dos filhos em casa, mas a culpa nunca é dos alunos.

E o tempo?
O tempo também, porque exige-se tanto às crianças que eles não têm tempo para ser crianças.

Consegue destacar algum episódio que seja mais marcante na sua carreira?
Eu dei aulas durante seis anos numa escola, que era a Luís António Verney, no bairro da Madre Deus, mas os meninos da zona não iam para aquela escola, eram meninos dos bairros problemáticos e bairros de barracas, etc.
Eu tinha uns meninos da casa dos Rapazes, da Sidónio Pais, da Casa Pia e de outras instituições … e uma vez, perguntei a um menino: como te chamas?
Ele disse: Cláudio.
Eu respondi: Não pode ser só Cláudio, tens de ter mais algum nome.
Ele respondeu-me: A minha mãe deixou-me dentro de um saco de plástico à porta de uma Instituição.
O Cláudio foi meu aluno durante três anos e quando acabava o ano ele vinha dar-me os trabalhos de EVT, e ainda hoje os guardo.

O que mudou na Escola nestes anos?
(pausa) Mudou muita coisa e muita vez. Mudaram os programas, mudaram as exigências que se fazem aos alunos.

Para melhor ou para pior?
Umas para melhor, mas outras para pior, como tudo.  Nós também temos que nos adaptar aos novos tempos. Eu quando andava na escola também não gostava.

E os alunos vão sempre recordá-la?
Eu tenho um tio internado no Hospital e num encontro com as assistentes sociais, uma delas diz-me: Não se lembra de mim?!
-Eu não.
– Não se lembra que eu sou a Catarina?
– Olhe, nunca mais me esqueci de si e sabe porquê?! Porque a Professora disse-me: “Nós temos é mamas, não são seios, nós somos mamíferos, não somos semíferos”.
Ela nunca mais se esqueceu daquilo. (sorrisos)