Gonçalo Andrade: “Almeirim tem uma localização privilegiada a nível nacional”

O almeirinense Gonçalo Andrade é uma das figuras de maior revelo no setor agrícola. Nesta edição damos a conhecer o homem forte da Portugal Fresh, Lusomorango e da Casa Prudêncio.

Como surgiu e quais são os objetivos da Portugal Fresh?
A Portugal Fresh nasceu no final de 2010 devido a uma crise de mercado no sector da maçã. Vários empresários portugueses, principalmente da região de Mangualde e de Alcobaça, iniciaram um conjunto de reuniões a fim de minimizar os enormes prejuízos que estavam a ter, pelo preço muito baixo da maçã que não cobria os custos de produção. Decidiram que a melhor forma de melhorar e maximizar a remuneração dos seus produtos seria promovê-los conjuntamente e era urgente definir uma estratégia para aumentar as exportações. Foi assim que surgiu a Portugal Fresh, associação empresarial para a promoção das frutas, legumes e flores de Portugal. O principal objetivo da associação é a promoção da qualidade e diferenciação das frutas, legumes e flores de Portugal.

Está à frente da Portugal Fresh desde junho do ano passado. Quais são as principais metas que traçou para o seu mandato?
Neste triénio, 2017 a 2019, pretendemos contribuir para o crescimento das exportações, em valor, a uma média anual acima dos 10%. Temos o objetivo de ter uma execução do projeto conjunto de internacionalização, Portugal 2020, acima dos 80%. Pretendemos contribuir para a abertura de novos mercados para as frutas, legumes e flores, maximizar a remuneração à produção e promover iniciativas conjuntas de exportação. A consolidação da parceria com a LIDL Internacional, principalmente para o mercado alemão, a fim de atingirmos 10% da exportação total de Pera Rocha e introduzir outros produtos também é uma das metas.

Desde a fundação da Portugal Fresh, há oito anos atrás, até aos dias de hoje, como classifica a grande evolução do setor hortofrutícola nacional?
O setor tem registado uma enorme evolução principalmente a nível das exportações. Em 2010, o setor exportava 780 milhões de euros e no final de 2017 atingimos 1.472 milhões de euros. A média anual de crescimento em valor ronda os 10%. De 2016 para 2017 houve um crescimento de 12,4% em valor. Precisamos de ganhar mais escala para conseguirmos aumentar o nosso poder negocial e ser viável satisfazer os grandes grupos de retalho internacional. Já temos 25% do volume de negócios, do setor hortofrutícola, a passar por organizações de produtores mas ainda estamos distantes dos 46%, que é a média europeia.

No que diz respeito à nossa região, qual é a implantação da Portugal Fresh na região e no concelho?
Há várias organizações de produtores, sócias da Portugal Fresh, com sede e/ou atividade na região do Ribatejo: a Hortomelão, a Agromais, a Torriba com sede no concelho de Almeirim, a Lusomorango e a Hortapronta, são alguns bons exemplos. Muitos dos associados têm parcerias com produtores da região. Estamos muito bem representados na região.

Qual é a margem de crescimento do setor a nível nacional? E regional?
Se conseguirmos ultrapassar alguns desafios cruciais para o setor, como a escassez de mão-de-obra, a disponibilidade de água e o acesso ao investimento, a margem é enorme. Há que aumentar a área de regadio na região e no país, porque o mercado é grande, e cada vez mais global, e Portugal é uma geografia de produção competitiva a nível mundial.

Considera que Almeirim devia dar mais atenção política ao setor da agricultura? Como?
O setor agrícola deve ser uma prioridade a nível nacional. Havendo excelentes condições na região e no concelho para a produção agrícola é fundamental que também seja uma prioridade para os políticos locais. A Portugal Fresh tem desafiado o Sr. Presidente da CMA para participar em alguns eventos promovidos pela associação e temos sentido uma enorme recetividade e adesão da sua parte. É importante demonstrar o trabalho que estamos a efetuar, a importância que temos para a economia, o elevado número de postos de trabalho que criamos, para que se seja possível estabelecer pontes de entendimento que permitam o crescimento do setor e da região. Almeirim tem uma localização privilegiada a nível nacional, com ótimas ligações para conseguirmos colocar os nossos produtos no mercado. Um dos maiores desafios para a região, caso se aumente as áreas de produção de culturas com elevada necessidade de mão-de-obra, será o alojamento e integração social de trabalhadores estrangeiros.

 

Vida preenchida

Dias ocupados

Gonçalo Andrade tem uma vida preenchida: Portugal Fresh, Lusomorango e na Casa Prudêncio. Mas a quantidade não é por si só um problema. “Quando há boas equipas é sempre possível realizarmos muitas atividades. O segredo é ter excelentes recursos humanos nas várias entidades. A Casa Agrícola está muito bem entregue ao meu Pai, ao meu Tio e à minha Irmã. Eu apenas represento a Casa Prudêncio na nossa Organização de Produtores, a Lusomorango. Na Lusomorango tenho um cargo de administrador executivo com principal enfoque na área do Programa Operacional e das relações institucionais. Na Portugal Fresh, onde sou o representante da Lusomorango, tenho a Presidência executiva”. E Gonçalo explica como gere tudo. “Apenas separo em número de dias que afeto a cada uma delas, mas na maioria das vezes estou a realizar atividades que contribuem para ambas”.

No campo desde criança

“Sempre gostei mais do processo de normalização, seleção, embalamento e expedição do produto porque me sentia mais perto da negociação e venda. Na infância, o meu Pai sempre me levou muito para o campo, onde eu sempre gostei de ir, mas era no armazém que mais tentava ajudar. Ajudava no acondicionamento dos morangos nas cestas de 250 e 500g e assistia com enorme atenção e curiosidade ao carregamento dos camiões completos, com 26 paletes de morango, a sair para Inglaterra. É algo inesquecível e marcante”.

 

Formado em Londres e um apaixonado pelo ténis

Gonçalo Andrade teve oportunidade de em Londres, na London Business School, e em Sevilha, no Instituto de San Telmo, de fazer os seus estudos superiores e “têm sido de extrema importância para a minha atividade profissional porque contribuíram para melhorar a minha formação, e a rede de contactos criada abre muitas portas em diferentes países. São relações para a vida”.

Mas se o gosto pelo campo vem de criança, o do ténis também e o pai foi, uma vez mais, determinante. “O ténis surgiu por volta dos meus 10 ou 11 anos pela mão do meu Pai. O meu Pai sempre gostou muito da modalidade e foi fundador e Presidente do Clube de Ténis de Santarém. Foi com ele que aprendi a dar as primeiras bolas. É uma modalidade muito exigente a nível mental porque somos convidados a tomar decisões em cada pancada e cada ponto, e dependemos exclusivamente, exceção aos pares, do nosso desempenho. Eu gosto muito de competir e é algo, caso a saúde permita, que pretendo manter”.

O último ano foi extraordinário com a conquista do vice-campeonato nacional por equipas e subida à 1ª divisão, bem como com o vice-campeonato nacional de pares. Quais são, nesta matéria, os seus objetivos. “A nível de equipas pretendemos ter uma experiência diferente, é a primeira vez que vamos disputar o campeonato da 1.ª divisão, e o objetivo é a permanência. Estamos cientes que será uma tarefa muito complicada mas vamos trabalhar e lutar por esse objetivo. O título de Vice-campeão nacional de pares é para manter ou melhorar. A nível individual, o objetivo é melhorar o 6.º lugar nacional que obtive em 2017”.

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