Profissão docente: do romantismo à realidade

“Mãe, não entendo porque é que quiseste ser professora!”

Recordo esta manifestação de incredulidade, numa altura em que alguns fóruns têm avançado que os bons alunos não querem ser professores, e numa altura em que vão surgindo cada vez mais notícias de escolas com alunos sem aulas devido à falta de professores.

Poderia ter-lhe contado do sonho de criança; que uma das brincadeiras preferidas na infância era a de fingir ser professora de alunos imaginários; que esses alunos eram muitos e todos tinham nome; que entre eles havia uns bons e outros com mais dificuldades (até fazia testes, que corrigia com “certos” e “errados” com uma caneta vermelha e aos quais atribuía avaliação, como observava aos professores a sério); que esses alunos tinham ritmos de aprendizagem diferentes sim, a imitar a realidade, mas todos sem exceção respeitavam a professora (tinha a sorte de ter alunos que pertenceriam a famílias com boas competências parentais e que certamente não necessitariam da ajuda de uma “super nanny”); que tinha sido uma excelente aluna e que, como muitos outros, poderia ter sido o que quisesse mas deixou-se guiar pelo romantismo de abraçar a tarefa tão nobre e digna de transmitir conhecimento e dar formação a todos os restantes profissionais e, assim, poder inspirar gerações e até transformar o mundo.

Mas perante a frase, em vez de desfolhar um rol de argumentos, escolhi antes perceber-lhe o alcance. De facto, não é fácil compreender porque se há de querer ser professor na sociedade em que vivemos. Só com muita vocação e amor à camisola se conserva ainda algum daquele romantismo.

Isto para dizer que é fundamental um debate urgente sobre a necessidade de conferir mais dignidade e prestígio social à profissão docente, como noutros países onde é valorizada, e onde os melhores alunos é que sonham ser professores. Não mudar o paradigma vigente é comprometer o futuro da educação no país. Será necessário chegar a esse ponto para que a sociedade perceba a missão crucial dos professores?

Conceição Pereira – Professora

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