“O meu sonho era trabalhar numa sala de mercados” – André Paz

André Paz, de 27 anos, é o mais novo trader da GoBulling. Há dois anos era apenas um dos entusiastas participantes do Jogo da Bolsa. É almeirinense e filho de Manfredo e Anabela Paz. Em entrevista o jovem fala dos números, da bolsa, do país e da sua terra natal.

De onde é que vem este gosto pelos números e pela bolsa?
O gosto pela bolsa iniciou-se na altura em que eu ainda estava na licenciatura, foi com um dos meus colegas de turma, falávamos… e ele era já um entusiasta pela bolsa e era uma pessoa mais velha, já devia ter os seus trinta e muitos anos, próximo dos quarenta, enquanto eu estava nos meus vinte e poucos. Essa pessoa já fazia algumas negociações em bolsa, eu achei curioso a negociação no mercado de capitais e foi aí que se deu o início, a primeira abordagem ao mercado de capitais. Isto foi ao longo da licenciatura, quando comecei, fui acompanhando os mercados, na altura já estava vocacionado para a área de gestão e ao longo desses três anos vou acompanhando os mercados, fazendo umas contas de simulação … e foram esses três anos associados a dois anos de mestrado na área de gestão que foram complementando. No fundo, foram cinco anos de uma proximidade nunca muito séria porque eram sempre coisas que nunca negociei com dinheiro real, era sempre numa ótica de experimentação e perceber realmente o que se passava e depois surgiu o gosto interno pelos números e também, obviamente, associado à negociação no mercado de capitais, acabando por ser um complemento depois da área onde já vinha estudando.

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Qual é a formação?
Eu venho de Licenciatura em Gestão, três anos de licenciatura normal e que acaba depois por ser complementado com um Mestrado em Gestão, também no ISCTE … a formação vem toda de Gestão.

Já na escola em Almeirim tinha esse gosto? Os professores já diziam que tinha algum jeito?
Pelos números eu vou-lhe ser o mais sincero possível: eu em Almeirim chumbei no décimo segundo ano, por causa de português. É um bocadinho contraditório, mas foi o facto de eu ter ficado retido essencialmente por causa do português que me deu uma força adicional à área da matemática, porque eu nunca gostei muito de português, sou muito sincero e acontecem situações em que as pessoas são muito boas em tudo e eu fico muito admirado … mas tenho a ideia que normalmente as pessoas são vocacionadas para uma determinada área. Eu, naquela altura, digamos que não era vocacionado ainda para nada, as coisas iam surgindo e deparo-me com uma situação em que não fui beneficiado, digamos assim, por causa do português. Eu pensei que fiquei retido por causa dessa disciplina e fiquei basicamente um ano em Almeirim, onde na altura já ajudava os meus pais e tinha apenas uma cadeira, que era aquela que eu tinha de fazer: português. O que é que eu pensei? Eu tenho de fazer a cadeira de português novamente, eu tenho de complementar isto porque a português não vou ser bom, eu tenho só de fazer esta disciplina mas nunca vou ser bom, então tenho de me destacar de outra forma. Decidi fazer uma recandidatura para matemática e tentar fazer melhoria novamente a esta disciplina e foi aí que, digamos, veio o gosto pelos números, quando eu tento substituir o português, que era uma coisa obrigatória e ao tentar complementar isto com qualquer coisa e vêm depois os números e eu pensei que sou muito melhor com os números do que com o português e vem daí o gosto e a vocação para a área dos números, essencialmente.

Os seus pais tiveram alguma influência?
Na área onde eu exerço atividade profissional hoje em dia, não. Não houve de todo, numa ótica inicial não vou dizer que criticaram o facto porque sempre me deram liberdade de escolha e sempre me disseram: escolhe aquilo que achares que se adequa mais para ti e aquilo que tens gosto, porque fazer uma coisa que nós gostamos nem sequer se pode chamar um trabalho. Essencialmente deram-me muita força na área que eu pretendia, eles já sabiam que o meu sonho era trabalhar numa sala de mercados não tendo ainda bem noção do que era, porque nós estamos fora, não temos bem noção do que é; quando somos jovens queremos ter uma determinada profissão, mas é só porque nós ouvimos falar, não temos noção de qual é que é o tipo de atividade que se desempenha, mas eles nunca me puxaram nem para subir diretamente a empresa nem nenhuma área específica, sempre disseram: se gostares mesmo da área dos mercados, segue o que tu achares e obviamente que sempre me apoiaram na decisão, isso não vem de uma grande influência por parte dos pais, nem a favor nem contra, foi completamente uma posição neutra nesse aspeto.

Na sua perspetiva, o que falta a Almeirim para ter mais dinamismo?
Na dinâmica da economia isso é uma questão muito abrangente. Eu, consigo o que posso falar mais especificamente é nos mercados em si, numa posição económica é uma questão distinta. Nós, antes de mais, estamos numa posição geográfica excelente. Como disse há pouco, nós estamos muito próximos de Lisboa, nem temos bem essa noção, falamos em 60 quilómetros ou 80 quilómetros de distância. Se estivéssemos noutro país para irmos a uma capital estamos a falar de 600 quilómetros ou 700, nem temos bem essa noção. Esta proximidade de Lisboa dá-nos uma grande relevância económica. Obviamente que a agricultura na nossa região é o ponto forte da economia e é isso que nos dá uma força para sermos visuais no restante país e isso é que nós temos de facto, a região do Ribatejo é muito conhecida pela gastronomia, essencialmente pela agricultura. Aquilo que eu posso criticar, fazendo apenas o reparo, nós não temos nesta zona, na região, vamos falar aqui numa região mais próxima de Santarém, nós não temos muita oferta de trabalho na nossa área e é isso que podemos reforçar. É normal, é perfeitamente normal que este tipo de instituições se centralize mais próximo de Lisboa, Lisboa e Porto são os grandes focos. Eu acho que o que faz falta na nossa região acaba por ser numa ótica um pouco mais abrangente na área da consultoria, auditoria e mesmo em instituições financeiras. Nós, em Almeirim temos vários bancos, mas nenhum deles muito vocacionados para a área dos mercados em si. Nós temos as nossas instituições todas aqui da zona, que conseguem permitir as negociação, mas não de uma forma tão direta, nem existe um grande apoio nessa área, enquanto na zona de Lisboa já temos grandes instituições que fazem esse tipo de suporte que é considerada a banca privada, no sentido a que dá esse tipo de apoio mais vocacionado para a negociação, onde se distingue da banca comercial que é a conceção de crédito que suporta. É essencialmente isso que vemos na nossa zona, mas talvez o ponto que eu posso de certo modo criticar é de facto não existir um esforço na nossa região que se vocacione mais para a área da negociação em si.

Estamos muito presos ao que está relacionado com a sopa da pedra e a agricultura?
É verdade. Apesar de tudo, não deixa de ser um bom ponto e um ponto muito interessante. Somos reconhecidos pelo menos por alguma coisa e isso já é bom. O vinho também é uma temática que também é muito conhecida na nossa região, mas sem dúvida nenhuma que a nossa região está muito ligada a esse tipo de coisas.

Em Lisboa, quando diz que é de Almeirim, as pessoas reconhecem?
As pessoas reconhecem essencialmente pelo que disse, a sopa da pedra, o bom melão e vinhos, é isto que as pessoas reconhecem de Almeirim.

Estar próximo de Lisboa é uma vantagem ou desvantagem, na perspetiva económica?
Na minha opinião, será sempre uma vantagem com a proximidade aos centros urbanos, uma vantagem económica, cada vez mais o centro de Lisboa em si, não tem grandes condições de habitabilidade, as condições são muito caras, ou seja, para viver em Lisboa cada vez se torna mais caro e não temos bem esta perspetiva, mas cada vez mais vamos entrando mais para os subúrbios de Lisboa. Nós não estamos tão próximos de Lisboa assim, mas acabamos por não estar tão longe. Existem pessoas que a maioria conhece de certeza, que se deslocam de Lisboa para Almeirim todos os dias e vão para lá trabalhar. Esta proximidade acaba por facilitar de certo modo essa perspetiva futura, em que qualquer pessoa na nossa região consegue também, digamos, arranjar alguma atividade profissional, mesmo que não seja no interior, ou mesmo na nossa região, consegue sempre deslocar-se para Lisboa e isso é sempre um fator positivo. Eu conheço pessoas que o fazem, vão para Lisboa trabalhar e vêm para Almeirim, eu acredito que seja muito cansativo, mas isto numa outra localização seria completamente impossível. Ou se deslocava permanentemente e ficava a residir em Lisboa ou então teria de ficar em Trás-os-Montes, eu utilizo esta brincadeira, porque a proximidade não é a mesma coisa.

Continua a vir regularmente a Almeirim?
Continuo, sim. Claro que sim, vir sempre à terrinha, pelo menos para conseguir repor algumas energias, e o ambiente que nós vivemos cá em Almeirim, obviamente, com os amigos cá é completamente diferente em Lisboa. Noto que em Lisboa, eu falo por mim, a minha vida é basicamente casa, trabalho, trabalho, casa, por isso vir a Almeirim acaba por ser uma golfada de ar fresco. Venho ter com os amigos, venho ter com a família apesar de os meus pais irem com bastante regularidade a Lisboa, pela questão da proximidade também. Muitas vezes, se eu estiver um mês sem voltar a Almeirim, vão lá jantar ou qualquer coisa, obviamente que levam sempre qualquer coisinha para ajudar o André, uma comidinha feita e a roupa lavada, mas sim, é sempre bom regressar a casa.

Pensa algum dia voltar e ficar cá?
Isto remete um pouco à primeira questão. Eu não tenho problemas nenhuns em voltar, eu gosto imenso da dinâmica que se vive em Lisboa, aquele stress que é vivido diariamente, sentimo-nos embebidos por aquela dinâmica, pelo stress que se vive em Lisboa e é uma coisa que faz falta, principalmente nos mercados financeiros é uma coisa que é regular, nós estamos permanentemente com situações críticas no sentido crítico de urgência, em que se tem de tratar de alguma forma, de uma determinada perspetiva uma situação qualquer e isto, estamos a falar numa questão que envolve muito dinheiro, muitas vezes estamos a falar de negociações que podem envolver muito dinheiro, e isto parecendo que não, comporta algum stress, porque é inerente à negociação. O que é que dificulta a minha vida? Eu teria todo o gosto em vir para Almeirim, sem dúvida nenhuma, apesar de gostar muito de viver em Lisboa e por ter lá obviamente maior oferta de trabalho, seria sempre um caso a ponderar sem qualquer problema, digo que seria uma possibilidade voltar para Almeirim e desempenhar a minha função em Almeirim, a questão é que não existem instituições que me possam trazer este tipo de oportunidades como nós temos em Lisboa. Esse é o grave problema, mas sim, sem dúvida nenhuma seria uma ideia voltar para Almeirim, nunca excluí isso como hipótese. Na minha ótica, hoje em dia há muitas pessoas que não digo que não tenham o gosto mas acho que não se passa muito o conhecimento, porque é evidente. É como lhe digo, eu trabalho muito na área da negociação, por isso quando eu tenho de falar de alguma coisa suporta sempre a base da negociação. Acho que existe uma falta de, digamos, eu posso dizer que não conheço ninguém em Almeirim com quem eu consiga ter uma conversa relacionada com a minha atividade profissional, faço-o com bastante frequência com os meus amigos e eles não gostam mas têm que ouvir porque eu tenho de falar com alguém, mas vejo que não existe um grande interesse na nossa região e não existem grandes, pelo menos que eu conheça, assim um número muito grande de pessoas que esteja relacionado com a área da negociação e que tenha algum gosto neste tipo de marcado. É perfeitamente normal pela questão em nos enquadramos e pela nossa localização geográfica, mas sinto que podia ser um ponto mais forte a focar, obviamente que, apesar de sermos tão pequeninos, é perfeitamente normal que isso não ocorra, mas seria engraçado existir internamente, se me permite a expressão, haver aqui alguma dinâmica e haver de facto algum apoio, eu digo-lhe que conheço pessoas mais velhas e sim, pessoas com mais idade que quando eu digo o que faço, as pessoas relembram-se de algumas negociações que fizeram anteriormente ou onde compraram ações. Só que essas pessoas hoje estão no inativo, já não negoceiam mais. É este tipo de pessoa que eu sinto falta na nossa cidade.

E com os pais consegue ter uma conversa?
Eles às vezes sentem-se curiosos para tentar perceber algumas coisas, mas acabam por achar que é demasiado complexo e pode haver algumas coisas que não são bem assim, mas sim, tento transmitir algumas situações que se passam. E não nos podemos esquecer que nós, no mercado nacional, essencialmente na bolsa nacional, temos o valor das nossas empresas muito reduzido, não é um valor que seja comparável com os restantes mercados principais das praças europeias. Nós temos vinte empresas cotadas no mercado, neste momento são dezoito ou dezanove por causa da saída de algumas delas e foram entradas como é o caso da nova base. Isto para dizer que o nosso enquadramento em termos de dimensão é uma coisa muito reduzida e não tem grande expressão e poderá ser um dos fatores que acaba por não ter um grande foco de investimento, e as pessoas acabam por não acreditar muito no nosso potencial, mas eu, sinceramente, acredito que nós cada vez mais devemos demonstrar e sustentar o nosso valor para os restantes mercados europeus e de facto temos vindo a ter desde o início do ano uns desempenhos bastante positivos, no caso da nossa bolsa nacional, e acaba se calhar por chamar mais alguns investidores e chamar a atenção das possibilidades que poderão existir neste tipo de investimento que acaba por ser uma forma de investimento que é a lotação do capital disponível de ações ou no mercado aberto e permite negociação com bastantes retornos e obviamente algumas menos valias que estão associadas mesmo à negociação em si.

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