“Ao sabor da boca é a mesma coisa que dizer o que me vai na alma”

O maior festival de Guitarra Portuguesa do País começou com a apresentação do livro “ao sabor da boca” de Custódio Castelo, o mentor do certame. Em entrevista a O Almeirinense o artista explica como nasceu a ideia de publicar o livro e o presente e o futuro do Festival. O músico fala ainda de como a música portuguesa foi evoluindo lá fora.

Qual é a expectativa para esta edição do Festival Guitarra D’alma?
É uma edição um bocadinho diferente das outras e eles têm sempre como fundamento o ser diferente e ganham por isso. Foi um marco e será um marco o facto de termos um livro na abertura do festival e pela causa que é. Portanto a obra é minha, o investimento é da Câmara Municipal e reverte integralmente para a CRIAL. Esta obra, acho que a estamos a começar e dará os seus frutos pois a obra estará ao longo dos três fins de semana do festival, depois isto é uma forma de agradecer também à minha cidade tudo o que tem feito por mim, depois passa pelo agradecimento dos violas que tocaram comigo a vida toda, desde o primeiro até ao último. Eu só tenho pena que um esteja fora do país e por isso não pode estar, mas de qualquer forma eu mandei fazer o emblema na mesma para lhe oferecer. Por isso eu sou um homem feliz, sou afortunado e a minha perspetiva é alargar este festival muito, mas muito mais. Se Deus quiser e se tudo permitir, este festival tem dez edições, portanto haverá muitas surpresas, haverá muito para crescer, haverá muito para fazer acerca deste festival. Quanto a esta edição, quarta edição, acho que os almeirinenses e todas as pessoas deste planeta estão de parabéns, porque isto está a ser feito em nome da guitarra portuguesa, que é um instrumento que eu sempre digo que tem o sentir de um povo e de um nome de um país.

Este ano o Festival tem um novo formato, passando agora a ter lugar em três fins de semana. Qual foi a razão que o levou a alterar o formato?
Exatamente pelo respeito para com as pessoas que trabalham e que chegam ao final da tarde e uns estão fora, outros chegam tarde, a questão dos filhos, e depois as pessoas chegam a casa, estão cansadas e ir para casa depois das onze da noite, onze e meia e no outro dia terem de se levantar às seis ou às cinco, não era um formato confortável. E isto deve-se à informação dada pelas pessoas: eu perguntei-lhes o que achavam e elas disseram “pois, se fosse ao fim de semana, nós íamos” e isto bastou para que eu e o meu presidente, Pedro Ribeiro, tomássemos a decisão de fazer em três fins de semana para que toda a gente esteja liberta para vir a estes espetáculos que o Guitarra D’Alma oferece.

Este que é um evento único no país, falou que querem crescer, exportá-lo, talvez?
Vamos alargá-lo e esta questão do alargamento passa principalmente pelo país e depois, quem sabe, fora do país.

Como é que surgiu a ideia de fazer um livro?
O livro são poemas que eu tenho e entre os muitos foram escolhidos alguns. A edição deste livro foi um impulso da minha filha, principalmente, e do Miguel Carvalhinho, o meu companheiro de estrada e meu colega na Escola Superior de Artes Aplicadas. Eu disse-lhe que jamais iria publicar o livro, mas quando o Pedro Ribeiro disse “olha, vou apoiar o teu livro”, então vamos fazer o livro mas com uma condição: os lucros revertem a favor de uma instituição e o ano que vem para outra, este ano é o CRIAL e o ano que vem será outra.

Porquê “Ao sabor da boca”?
Porque eu sou uma pessoa muito tranquila e o facto de dizer “ao sabor da boca” é a mesma coisa que dizer o que me vai na alma, portanto são as coisas simples que nós sentimos que são saboreadas, são soltas, palavras que se soltam da boca e que têm a carga emocional do sentir do momento.
Vimos que a inspiração vem do dia a dia, dos momentos mais a sós, dos momentos com mais convívio também, da música…

É essa a inspiração?
Exatamente, porque nós ao longo do dia, e todos somos assim, sofremos vários estados de alma: de manhã estamos com mau feitio, à tarde estamos muito bem-dispostos, à noite melhor ainda; portanto, todos estes estados de espírito que nós experimentamos, se, eventualmente, alguém os está a descrever nesses momentos então esses momentos ficam registados segundo esse estado de espírito. Eu sou uma pessoa que escreve muito sobre a saudade, acho que um bocadinho de mim é a saudade. A saudade de tudo e esta palavra saudade engloba tudo: a minha família, os meus amigos, os meus animais, tudo. A palavra saudade engloba tudo e quando eu escrevo à saudade é talvez a mais sincera.

Quando o leitor acabar de ler o livro é essa a palavra que vai reter?
É, exatamente. Eu acho que o fim de um livro é o princípio de outro.

Como vê a música portuguesa na atualidade?
Eu acho que a música portuguesa evoluiu um bocadinho, ou seja, há um filtro, não gosto de ser crítico, mas gosto de ser construtivo neste sentido, que é: nós atravessámos uma fase de dúvidas daquilo que é o prazer da nossa cultura. Nós somos um país riquíssimo em cultura e tendemos a desprezá-la um bocadinho, às vezes. Então, por vezes deixamo-nos influenciar por coisas menos boas, mas eu acho que as coisas menos boas são necessárias para podermos valorizar as melhores, portanto acho que o que estamos a passar é exatamente uma filtragem, um ciclo, a música e os artistas também têm ciclos. Há o ciclo da música rock, há um ciclo da música que comove, uma onda de rock português e há uma coisa que não passa e se mantém através dos tempos, que é o fado, ou seja, o fado, a guitarra portuguesa, o folclore. Há neste momento algum cuidado para que estes valores não se vão embora, isto porquê? Porque há um reconhecimento exterior, isto não é de hoje. Então os portugueses gostam de sentir um bocadinho de saudade das coisas, ou seja, quando nós vemos que algumas coisas tendem a desaparecer, então nós acolhemo-nos todos e vamos todos tipo bombeiros, “não vamos deixar morrer o fado, não vamos deixar morrer a sopa da pedra”, a nossa cultura, pedacinhos da nossa cultura. Passa por aí.

Para quando um próximo disco?
Se Deus quiser, para o ano que vem. Será uma aposta, também não podemos ter tudo de uma vez e para o ano que vem temos outra surpresa que eu não vou relevar ainda mas que será adicionada ao livro; portanto, cada vez temos um prazer maior em oferecer à Guitarra D’Alma novas ideias, novos projetos e novos músicos.

Como é que vê a guitarra portuguesa?
É um sentir de um povo e um nome de um país, é uma das representações maiores da alma do povo português, do povo que sente a saudade, e nós somos privilegiados ao ter um instrumento que nos representa sentimentalmente.

Em que é que se inspira para criar as suas músicas?
Em tudo. Em histórias verídicas, em tudo, como te posso dizer, em tudo está englobado os amores, os desamores, os filhos, o quotidiano, os amigos, a natureza, eu inspiro-me muito na natureza, tenho um tema que se chama “Fins do Sol”, que está no segundo disco, salvo erro, em que eu me inspirei no mar; por exemplo, “o encantador de tristezas” eu inspirei-me em mim próprio, fiz uma autobiografia e eu sou uma pessoa muito divertida e embora às vezes não pareça, eu tento encantar a tristeza para viver feliz, viver em alegria.

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