Jovem residente em Almeirim cria onda de solidariedade

Lia Rodrigues, uma jovem residente em Almeirim mas natural de Oliveira do Hospital, promoveu uma recolha de bens para doar às vítimas dos incêndios da sua terra.

Esta iniciativa surgiu quando Lia se apercebeu da dimensão a que chegavam os incêndios e assim criou um movimento solidário para ajudar as populações mais afetadas, com a colaboração de dois colegas, João e Susana, para ajudar na distribuição.

Foi através da rede social Facebook que Lia Rodrigues partilhou esta onda de solidariedade e cada vez mais pessoas aderiram.

Os Bombeiros Voluntários de Almeirim e Municipais de Santarém foram os pontos de recolha de bens como águas, pacotes de bolachas, leite, fruta, entre outros. Ambas as populações de Santarém e Almeirim contribuíram, embora nos Bombeiros Voluntários de Almeirim se tenha verificado maior número de bens.

No dia 17 de outubro, o grupo partiu “logo às seis da manhã, tínhamos bens suficientes, tínhamos 500 litros de água, 200 pacotes de bolachas, 300 litros de leite, não sei dizer ao certo a parte dos Biafines e das compressas (da parte da saúde), nem dos pensos, não tenho mesmo a noção e tivemos cinco caixas de fruta: maçãs, peras, laranjas, melões e diospiros.”.

Lia relatou momentos de “desgraça, miséria, tudo queimado, desespero, dor, choro… Muito mau.”

Esta é a segunda situação mais grave de incêndios com mortos em Portugal, depois de Pedrógão Grande, em junho deste ano, em que um fogo alastrou a outros municípios e provocou, segundo a contabilização oficial, 64 vítimas mortais e mais de 250 feridos. Registou-se ainda a morte de uma mulher que foi atropelada quando fugia deste fogo.

Quando chegou a Oliveira do Hospital, Lia deparou-se com o presidente da Junta de Freguesia, um responsável da Proteção Civil e o segundo comandante e explicou qual era o objetivo de lá estar com os seus dois colegas. Após a explicação, disseram-lhes que foram o primeiro grupo de voluntários a chegar e que teriam de deixar todos os bens no pavilhão para serem triados.  Recusaram, pois os bens não iram ser entregues no próprio dia e a situação era urgente.

Lia, João e Susana entretanto tiveram mais duas ajudas, a irmã de Lia e um amigo da sua irmã. Antes de fazerem a distribuição “veio um bombeiro que é amigo dos meus pais e disse “toma uma lista das aldeias mais necessitadas, porque foram aquelas que foram completamente varridas pelo fogo”, e foi o que aconteceu, o bombeiro deu-lhes a lista de duas aldeias, pegaram na lista e foram.

Percorreram oito aldeias, não conseguiram ir às doze, estava a escurecer e não conheciam nada nem ninguém.

Entregavam os bens em mão às vítimas e viram o desespero. Lia relatou que “não havia luz, não havia medicações, não havia água, não havia gás, não havia nada, estradas com muito mau aspeto, sujas não só das cinzas, porque com a água dos bombeiros tornavam-se escorregadias, desde troncos que os próprios populares cortaram com motosserras, desde cinzas, troncos, cabos de eletricidade no chão, animais mortos”.

Autoridades por lá não se vêem.  Viram apenas um carro de bombeiros com três bombeiros que olhavam para uma árvore enorme que “tinha um depósito de gás em baixo e estava a sair fumo de dentro da própria árvore”, estavam também populares com cerca de cinco crianças e o grupo perguntou se precisavam de ajuda, mas estava tudo bem.

Após ajudarem em Lourosa, Pombal e Digueifel, foram para Avelar, “uma aldeiazinha mais isolada que tinha cerca de seis, sete casas”. Três delas estavam completamente ardidas; nessa aldeia havia uma família com duas crianças, bebés, onde deixaram também comida e bebida, a maior parte das pessoas que lá estavam eram idosos, chegaram a ver pessoas colocarem tábuas nas casas, pois estavam com medo que parte das casas que foram ardidas fossem assaltadas.

Foi Avelar que mais os marcou devido às crianças e aos animais mortos, as casas, e era só população idosa isolada, eles disseram mesmo “nunca ninguém passou aqui, nem um bombeiro, nem proteção civil, vocês são os primeiros”. Em todas as aldeias por onde passaram todos diziam que nunca passou um bombeiro, nem a proteção civil ou alguém por lá. O grupo foi o primeiro de fora a chegar lá e a perguntar se precisavam de alguma coisa.

Além de Avelar, também marcou Anceriz. “Anceriz foi aquela que me marcou muito, porque para além de a maior parte das casas terem ardido, total ou parcialmente, havia muita gente e não eram cinco nem dez idosos” havia bastantes pessoas a pedirem desesperadamente ajuda “agarraram-se a nós, pediram-nos por favor para as ajudarmos, inclusive havia idosos que não bebiam água há dois dias”.

Ainda na terça-feira foram a Avô, onde viram carros à borda da estrada completamente queimados, animais mortos… Depois, a notícia de que estavam a ajudar espalhou-se e em milésimos de segundo apareceram mais pessoas desesperadas: “havia uma senhora que se virou para o João e disse “eu estou cheia de sede, por favor dá-me água, eu não bebo água há dois dias”; vimos outra senhora que estava completamente queimada nos braços e nas pernas e nós ajudámos a fazer pensos, porque simplesmente não tinha recebido tratamento, inclusive estava lá uma criança com oito anos que perdeu os pais no incêndio e estava com uma vizinha”.

Seguiram sempre a listagem que o bombeiro lhes facultou, ajudando com gestos e palavras “demos muitos abraços, muitos beijos, muitas palavras de conforto e saímos de lá muito cansados, porque as pessoas estavam completamente desesperadas, choravam baba e ranho porque não tinham nada.”

A ajuda às vítimas dos incêndios irá decorrer. Entrou em vigor no dia 18 de outubro mais uma recolha de bens e no dia 29 de outubro, domingo, vão ser distribuídos.

Disponibilizaram-lhes um camião e receberam muitas mensagens e telefonemas a expressar a sua solidariedade, muitas pessoas querendo voluntariar-se para a entrega de bens.