Pampilho ao Alto XXXV

Deu-me agora para andar a ouvir coisas. Coisas que não deveria ouvir, mas no silêncio do meu quarto, fecho os olhos e oiço-as num tumulto que me incomoda. E não se pense que é apenas de política que oiço coisas. O alarido social é o mais intenso. As vozes são difusas mas entendíveis ao ponto de chegar a identificar alguns dos que falam. O turbilhão de vozes é o semelhante ao do mercado de Almeirim de antigamente, mas sem pregões.

As vozes mais clamorosas pertencem aos que se sentem defraudados por um destino que lhes negou a possibilidade de acabar os seus dias com dignidade. Revoltam-se contra um sistema que se permite a ofensa de lhes dar uma reforma de miséria e, em contrapartida, entrega a outros uma subvenção vitalícia de milhares de euros só pelo facto de terem estado na política por algum tempo. Dizem-se cidadãos de terceira e consideram-se enjeitados pela sociedade à qual deram o seu melhor. Dizem uns, que se não descontaram mais, foi porque o seu salário sempre foi de miséria, mas isso não impediu que dessem o seu melhor a um País que agora os discrimina negativamente, condenando-os a uma vida de subsistência no limiar da indigência.

Outras vozes clamam por Salazar: dizem que naquele tempo podia não haver muita coisa mas havia segurança e ordem, e estas coisas dos incêndios não aconteciam, ou se aconteciam era numa escala bem insignificante. Que naquele tempo as matas eram limpas e havia os guardas florestais, logo, as possibilidades de incêndio eram diminutas. Clamam ainda contra a sensação de impunidade que leva os criminosos a cometer crimes como se comessem tremoços, com a certeza de que quando são condenados apenas cumprem metade da pena e depois voltam para cometer mais crimes.

Tenho dificuldade em adormecer, pelo receio de que o pesadelo supere a realidade, mas friamente concluo que, quando forem corrigidas estas e outras assimetrias sociais, viveremos muito melhor, no melhor País do mundo , na melhor região. O nosso Concelho é um Jardim, assim o saibamos cuidar.

Fiquem bem, de Pampilho ao Alto.

 

Ernestino Alves – Advogado