Há males que vêm por bem…

Um tema antigo, bem gravado na memória, é o das enfermidades e dos meios com que se procurava dar-lhes combate. Nos curtos anos da minha infância e adolescência pude assistir à substituição das mezinhas e dos remédios manipulados na farmácia.

É claro que não conheço o suficiente de história da medicina e farmacêutica que me permitam abordar este tema em moldes minimamente fundamentados. Mas o que eu posso e sei fazer é relatar o que neste domínio se passava nesse tempo, no seio das nossas famílias. Constipação, anginas, otites, gripes, sarampo, varicela, papeira e disenterias, embora com nomes diferentes, tudo isso andou lá por casa, tocando a todos. Falava-se de anginas, de dores de ouvidos, de bexigas doidas, de dores de barriga, de pontadas nas costas, tudo situações que a mãe ultrapassou por si só, ou com a ajuda do médico, mas sempre com muita fé, velas e promessas de cera ao Senhor Jesus dos Passos e muitas rezas a Nossa Senhora. Uma purga com óleo de rícino ou um clister (de açorda) eram coisa certa sempre que aparecíamos com febre. Diziam que servia, antes do mais, para limpar as” Tripas”. Vinham depois, consoante os casos, os papelinhos que colocavam no peito (?), para baixar a temperatura, as fricções com vinagre aromático ou com álcool canforado, o algodão iodado ou os emplastros de papas de linhaça e mostarda, a escaldar, colocados sobre o peito, as sanguessugas para sugarem o “sangue ruim”…

Se doíam as costas, davam-se umas pinceladas com tintura de iodo ou aplicava-se meia dúzia de ventosas. Nas dores de ouvidos, e quão fortes eram, a minha mãe procurava dar-nos alívio vertendo, lá para dentro, leite levemente aquecido e azeite morno, o que, segundo me lembra, pouco ou nada resultava. As dores só passavam quando a infeção era debelada pelas defesas próprias do organismo. Com as amigdalites era a mesma coisa. As correspondentes dores de garganta, a febre e a dificuldade de engolir passavam ao fim do tempo que durava, para nós, uma eternidade. Mas era crença generalizada que as anginas se curavam com as mezinhas caseiras e, assim, besuntava-nos a parte anterior do pescoço, onde se localizavam as ínguas, com pomada de beladona, sobre a qual se passava um lenço de algodão.

Em complemento, gargarejávamos com água e sal, chupávamos sumo de limão, engolíamos colherzinhas de mel e fazíamos zaragatoas com azul de Mitilene. Este último tratamento, feito ao deitar, era aceite como uma brincadeira porque tingia de verde o xixi da manhã seguinte. Ir para a escola com um lenço atado ao pescoço, a cheirar a beladona, não era agradável. Mas, muito pior era quando o tratamento tinha sido feito com gordura de galinha que, com o mesmo propósito, era preferida pela minha mãe. Esta gordura amarela da ave era guardada numa velha s´ladeira, onde se oxidava, tornando-se rançosa e mudando a cor para castanho. Era nesta fase de apodrecimento, exalando um cheiro a cão mal lavado, que esta besuntação estava, dizia ela, em condições de produzir o efeito desejado.

 

Augusto Gil