Recorde o “Rei das Pistas” do Ciclismo

José Manuel Marques foi o embaixador de Almeirim e Alpiarça na Volta a Portugal em bicicleta. O atleta dos Águias de Alpiarça participou na 22ª, 24ª e 25ª Volta a Portugal onde nunca venceu uma etapa mas conquistou vários segundos e terceiros lugares. O filho de José Manuel Marques conta-nos a história da vida desportiva do pai.

João, que memórias tem do seu pai enquanto ciclista?
O meu pai, quando abandonou a sua carreira de ciclista em 1964 (ano de nascimento da minha irmã), eu ainda não era nascido, (nasci em 1966), as memórias que eu tenho do meu Pai enquanto Ciclista é tudo o que ele, os familiares e amigos do tempo dele me contavam sobre esta sua atividade desportiva e também um álbum de recortes jornalísticos da altura, feito pelo meu Avô Paterno, álbum esse que guardo com muito orgulho e carinho na minha casa.

E que lhe contam ou contaram as pessoas próximas, incluindo o seu pai?
As pessoas, familiares e amigos, que na altura seguiram a vida de ciclista do meu Pai só me contavam histórias que me enchiam de orgulho: como ele era o “Rei das Pistas” de ciclismo, como ele não havia igual a Sprintar, como ele era, como colega desportivo e como profissional, e os sacrifícios que tinha que fazer para se dedicar 100 % à sua atividade desportiva. Muitas vezes me dizia que o desporto velocipédico evoluiu de tal forma em termos técnicos que se eles, naquela altura, faziam grandes brilharetes, atualmente com estas novas tecnologias eram capazes de, mundialmente, se baterem com qualquer adversário.

Tem alguma história peculiar que gostaria de partilhar com os nossos leitores?
Quando a equipa dos Águias de Alpiarça fazia treinos em conjunto, muitas das vezes eles faziam apostas entre eles, castigando sempre o que chegava em último. Uma vez, apostaram que o corredor que chegasse em último lugar no treino teria que pintar a cara toda de preto. E assim foi, eles acabaram o treino e viram que o último colega nunca mais chegava. Já fartos de esperar, e com alguma preocupação de ele ter ficado para trás e caído, quando se preparavam para ir ao seu encontro, eis que ele chega com a cara toda preta de jorra da corrente da bicicleta. Numa etapa da Volta a Portugal, o meu Pai ia fugido com outros corredores e, em plena Serra do Caldeirão, o selim da bicicleta soltou-se e caiu. Ele, para não perder o contacto com os fugitivos, resolveu não parar para ir buscar o selim. Como os meios de apoio aos ciclistas eram muito escassos, ele fez a Serra toda sem selim, pois o carro de apoio nunca mais chegava.

Aos filhos passou o bichinho da bicicleta?
Ele, como quando eu nasci já tinha abandonado o ciclismo, nunca me encorajou a seguir as suas passadas. A minha irmã, infelizmente naquele tempo não havia ciclismo feminino, e o meu irmão como era 9 anos mais novo também nunca foi muito de desporto federado. Agora, um em quem ele tinha muito orgulho porque chegou a andar de bicicleta e até era bom naquilo que fazia, era o seu neto (meu filho) João Miguel Marques, que foi Triatleta da Escola de Triatlo dos “Águias de Alpiarça”, clube do seu coração.

Foi ele que lhe ensinou a si e aos seus irmãos a andar de bicicleta?
A primeira bicicleta cá de casa para os filhos foi quando o meu Pai, já depois de ter abandonado o ciclismo, foi treinador da equipa do Sangalhos e eles ofereceram uma bicicleta de menina (marca “Órbita” que patrocinava as bicicletas da equipa ) à minha irmã e a mim ofereceram um par de patins. Mas foi ele que nos ensinou a andar de bicicleta. O nosso irmão mais novo aprendeu a andar sozinho.

O que achou da iniciativa de homenagem ao seu pai, no dia 5, com a passagem da volta em Benfica?
Como já tive oportunidade de me manifestar nas redes sociais, não poderia haver melhor maneira de homenagear o meu Pai pela sua carreira desportiva e pelo que ele, como atleta do concelho de Almeirim e Freguesia de Benfica do Ribatejo, fez em prol do ciclismo Nacional, que fazê-lo no dia em que a Volta a Portugal passou na sua terra. Mais uma vez, em nome da minha Família, a nossa eterna gratidão ao executivo da Câmara Municipal de Almeirim, na figura do seu Presidente, Pedro Ribeiro, e Vereador do desporto, Paulo Caetano, e também ao executivo da Junta de Freguesia de Benfica do Ribatejo, na figura da Presidente, Cândida Lopes. Foi uma homenagem muito sentida por todos nós.

A ligação do seu pai a Alpiarça e aos Águias era também muito forte?
A ligação do meu Pai a Alpiarça e aos Águias era muito forte. Ele, tudo o que foi a nível desportivo ficou a dever aos Águias, que lhe deram sempre todo o apoio necessário. Chegou a recusar um convite do Sporting Clube de Portugal para continuar em Alpiarça. A Vila de Alpiarça e a sua população também tinha um lugar especial no seu coração. Um dos primeiros empregos do meu Pai foi na Câmara Municipal de Alpiarça.

Na maior prova de ciclismo nacional conseguiu concluir duas?
O meu Pai, de 1959 a 1962, participou em três Voltas a Portugal mas foi sempre perseguido pelo azar (quedas e avarias). Nunca conseguiu ganhar uma etapa, mas conquistou muito segundos e terceiros lugares.
Na 22ª Volta a Portugal, em 1959, sofreu muitas avarias mas trabalhou sempre bem para a Equipa no sentido de conquistarem um brilhante 3º lugar por equipas.
Na 23ª volta a Portugal, em 1960, ele não participou por motivo do Serviço Militar Obrigatório. Foi colocado no quartel em Caldas da Rainha. Todos os dias, com a devida autorização superior, ia e vinha para Almeirim de bicicleta, de maneira a não perder a forma física.
Na 24ª Volta a Portugal, em 1961, foi o melhor ano para ele. Conseguiu terminar a volta em 23º lugar. Nessa Volta, também foi cronologista para o Jornal “O Record”, escrevendo o “Diário da Volta”.
Na 25ª Volta a Portugal, em 1952, foi mais um ano de azar. Numa etapa partiu a bicicleta, esteve parado mais de 20 minutos à espera de carro de apoio e depois foi eliminado pela organização por chegar fora do controlo.

Chegou a participar em mais alguma?
Nas “Voltas a Portugal” eles (equipa dos Águias), tinham uma união tão grande que se ajudavam uns aos outros. Não havia favoritos entre eles. Não foi por causa de ter que trabalhar para os outros que ele não conseguiu melhores resultados. Foi mesmo o azar que o perseguiu sempre.

 

 

Os melhores resultados foram nos nacionais de estrada e pista?
Os melhores resultados do meu Pai foram, sem dúvida, as provas curtas de estrada. Ele foi Campeão Nacional nos diversos escalões e nas várias categorias do ciclismo e na Pista ninguém, a nível nacional, lhe conseguia fazer frente. Ele era o “Rei das Pistas”.

Acha que nos dias de hoje teria feito grandes resultados?
Hoje, atualmente, com as condições que são dadas aos ciclistas em termos de equipamentos, materiais, logística, assistência médica, ordenados e condições de trabalho, eu não tenho dúvidas nenhumas que o meu Pai seria um dos grandes nomes do ciclismo mundial.

Quanto chegou a ganhar o seu pai com o ciclismo, já que foi até profissional?
O meu pai chegou a ganhar 600 Escudos. Muito desse dinheiro ele juntou para comprar uma carrinha ao meu Avô (o primeiro treinador dele e o principal culpado de o meu Pai ter sido ciclista) para ele, como “Latoeiro” que era de profissão, poder fazer as feiras.

Mas ele em 1963 teve que deixar de ser profissional. Porquê?
O meu Pai muito cedo abandonou o ciclismo (1964). Tinha 25 anos de idade. Se com aquela idade já tinha conseguido atingir grandes patamares do Ciclismo Nacional, nem consigo imaginar até onde ele conseguiria ir. Mas o ordenado de ciclista era pouco, a vida familiar começou a ter mais importância na carreira dele. Foi trabalhar para a Robbialac, casou , e nesse mesmo ano nasceu a minha Irmã. A Família conquistou outro lugar no coração dele.

Acha que ele teve sempre a mágoa de ter sido forçado a abandonar cedo?!
O meu Pai vivia e respirava o Ciclismo. Sempre o fez até ao fim dos dias da vida dele. De certeza que ficou muita mágoa de ter deixado o ciclismo muito cedo. Mas também teve sempre muito orgulho der ter, em tão pouco tempo, deixado a sua marca no Ciclismo Nacional. Mensagem essa que passou para os seus filhos.

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