Beatriz Fernandes: A história de quem patina mas não joga

Depois da equipa comandada por Paulo Almeida ter vencido a AD Sanjoanense, por 8-2, na final da Taça de Portugal realizada em Almeirim, Beatriz Fernandes foi uma das figuras centrais da festa. A almeirinense foi mesmo chamada pela capitã de equipa para receber a Taça das mãos do representante da Federação e da Câmara.

Beatriz, o que a levou a seguir Fisioterapia?
O desporto fascinou-me desde muito jovem, era muito irrequieta e queria sempre procurar atividades diferentes. A partir dos sete anos dediquei-me quase exclusivamente ao ténis. Aos 16, contraí uma lesão no ombro que me levou a procurar a ajuda de médicos e fisioterapeutas especializados e a curiosidade pela Fisioterapia aguçou-se.

Foi uma área que sempre gostou?
Sempre fui muito preocupada e dedicada ao próximo, gosto de cuidar dos outros e sabia que o meu futuro passaria por uma profissão na área da saúde e, nesse momento, tive a confirmação.

Porquê? Quando decidiu que era essa via?
Adoro desafios e ser fisioterapeuta é muito desafiante, particularmente no desporto. É necessário estabelecer uma relação empática com o atleta para que se compreenda as respostas do seu organismo em toda a sua complexidade e todo o seu dinamismo. Para que se realize um bom trabalho é necessário criar uma linha de confiança mútua e quando se fala em lidar com seres humanos isso nem sempre é fácil.

Depois de terminado o curso, como surgiu a possibilidade do SL Benfica?
No último ano da licenciatura na Universidade de Aveiro fiz um estágio curricular no SLB com o Fisioterapeuta Carlos Banza, ao qual devo uma parte especial do meu crescimento profissional, pois era responsável pelo acompanhamento da equipa sénior masculina de Rugby. O convite para ingressar na equipa de profissionais surge direcionado para o acompanhamento dos escalões de formação do hóquei em patins.

Quais os problemas mais frequentes nos hoquistas?
Na formação do hóquei, as lesões são essencialmente traumáticas, como contusões, fraturas, luxações e feridas. Verificam-se também algumas alterações da coluna lombar e articulação sacro-ilíaca, devido à postura que o Hoquista adota na sua prática, e as lesões musculares por sobrecarga do treino.

Qual a situação mais grave?
A situação mais grave no hóquei aconteceu em Espanha, na disputa das Competições Europeias, com a equipa sénior feminina: uma atleta caiu, tendo resultado uma luxação anterior do ombro (o braço “saiu do sítio”). É uma situação de maior adrenalina e stress porque temos de agir no momento, acalmar o atleta e toda a estrutura técnica e tomar decisões, e intervir com o objetivo de minimizar as consequências daquele episódio lesional. Felizmente, tudo correu pelo melhor.

E alguma mais curiosa (engraçada)?
Apesar do trabalho, temos sempre momentos mais descontraídos após o treino, ou em deslocações para jogos. Recordo-me de, neste ano, em Gijón, num lanche, colei o papel de um iogurte na testa de uma atleta e, um pouco mais tarde, ela conseguiu retribuir a partida. Claro que até os empregados que nos serviam se riram da coragem dela e da minha figura com aquilo. Tenho outros episódios curiosos: pessoas conhecidas e desconhecidas já me confundiram várias vezes com a Marlene Sousa e até nos chegaram a perguntar se éramos gémeas.

Sempre foi benfiquista ou aprendeu a ser?
Nasci numa família de benfiquistas onde senti a paixão pelo clube e a mística, desde cedo. Apenas a minha avó e a minha tia nutrem um sentimento especial pelo FC “Os Belenenses”.

Sabe patinar?
Achei importante aprender a patinar para compreender melhor os meus atletas. Sempre que tenho disponibilidade pratico nos treinos da iniciação (idades compreendidas entre os 3-7 anos) onde os atletas têm uma capacidade técnica semelhante à minha (risos)

Nunca jogou hóquei?
Com os meus primos, quando éramos pequenos, inventámos a modalidade “hóquei-vassoura”: calçávamos uns patins e disputávamos os grandes jogos na garagem.

Gostava de ter jogado?
Nunca pus por hipótese praticar ténis, e o hóquei feminino, infelizmente, não era muito divulgado, mas é, sem dúvida, uma modalidade fascinante.

Perdeu-se uma grande atleta ou ganhou-se uma grande fisioterapeuta?
Costumo repetir aos meus atletas que sou melhor fisioterapeuta do que patinadora.

Por onde passam os seus objetivos profissionais?
Terminei o meu vínculo laboral com o Sport Lisboa e Benfica no final desta época desportiva, e no próximo ano letivo vou fazer um Mestrado em Fisioterapia no Desporto, na Universidade Autónoma de Barcelona. Tenho alguns projetos nesta área mas ainda estou a construir o futuro.

O futebol não a fascina?
Para dizer a verdade, desde que comecei no hóquei em patins desliguei-me um pouco do futebol.

Ter ganho a Taça de Portugal, em Almeirim, teve um sentimento especial?
Como é óbvio, Almeirim é a cidade onde nasci e cresci, e não esqueço as minhas origens. Ainda mais especial por ser a equipa com a qual trabalhei, diariamente, ao longo destes dois anos e à qual tenho uma ligação especial. Como diz o Paulo Almeida, foi a cereja no topo do bolo, terminar o meu trabalho com esta equipa em casa (literalmente), vencendo a Taça de Portugal.