A luva e a janela

O Adamastor tem uma especial preferência por uma determinada rua, poderia até arriscar a dizer que é quase como um ritual seu. Aparte de todos os postes e caixotes de lixo que encontra pelo caminho, que tende a reclamar como seus à sua maneira, naquela determinada rua, mais metro menos metro, encontra o local ideal para se entregar a um determinado ato natural.

Ora, como todos os companheiros de cães bem sabem, esse é o momento de retirar do bolso, e envolver uma das mãos, um saco de plástico, no meu caso uma luva, e proceder à remoção do que de novo se encontra no passeio e depositar no lixo. Processo simples, cívico e educado.

É no momento logo após deixar o quente embrulho num contentor, que ouço -“que muito bem feito. Nunca vi ninguém a fazer o que acabou de fazer!”- espanto o meu, porque de nenhum lado da rua conseguia ver alguém, até entender que seria uma velha senhora, a uma janela, que acabara de proferir tais palavras. A minha resposta foi simples, que era um dever, nunca uma obrigação, e agradeci. A senhora, visivelmente encantada com o que acabara de ver, falou-me de outros casos, de donos de cães que ignoravam e lá deixavam ficar, que reclamavam o seu direito a isso já que, e passo a citar “os outros também o fazem”! Mesmo antes de desaparecer atrás dos estores que se fecharam, elogiou-me mais uma vez e deixou um “todos deviam ser como o menino.” para terminar a conversa.

O Adamastor e eu voltamos ao nosso passeio. Neste momento fala-se muito de cães, dos seus direitos e leis. Os elogios que ouvi daquela senhora não foram motivo de encher o ego, pelo contrário, apenas foram mais uma prova de que tais medidas e debates acontecem por existirem os companheiros e os donos, tipos bastante diferentes e com comportamentos distintos que, no caso dos segundos, ignoram completamente os seus deveres e arruínam a imagem dos primeiros, esquecem o civismo e iludem-se com a sua liberdade e acabam por esquecer o animal, quando simples atos fazem uma enorme diferença.

 

Bruno Aniceto – Escritor