“Aumento do IVA foi o primeiro tiro no pé”, afirma Paulo Niza

Paulo Niza festejou 50 anos recentemente e isso não o inibiu de estar de regresso à sala de aula, agora para tirar um mestrado no Porto. Numa grande entrevista a O Almeirinense, Paulo Niza lança um olhar sobre o estado da economia local e fala da importância de valorizar os recursos humanos e ter estratégia.

A região e o país já ultrapassaram a crise?

Eu nunca fui um grande adepto da palavra crise.

Eu acho que a crise é um bocadinho induzida por um conjunto de necessidades sociais e políticas,  que no fundo são  fruto  das políticas que são seguidas a nível nacional, a nível europeu e inevitavelmente a nível mundial. Agora que se vivem, talvez de há dez, doze anos para cá grandes dificuldades económicas e sociais no nosso país e inevitavelmente na nossa região é um facto , sendo para mim,  que se há crise de alguma coisa,  é  de valores, de atitude, de postura e isso não se ultrapassa nem com dinheiro, nem com medidas económicas ou medidas políticas, mas sim com medidas educacionais.

E ultrapassa-se a nível educacional nas escolas, sendo uma cultura que paulatinamente tem que se introduzir logo a partir do berço.

E porquê?

Porque há uma mão cheia de paradoxos da sociedade globalizada  e inerentes a esta mesma sociedade , que hoje são uma realidade.

As sociedades em que o estado tomava conta da vida das pessoas de uma forma mais ou menos marcada, de uma forma mais um menos presente, tem vindo a diminuir  e com  tendência a acabar,  porque os estados não têm capacidade para isso.

A questão é que a mentalidade do antigamente ainda está muito presente, considerando que o estado “ tem que ser pau para toda a obra”. Só que depois,  as pessoas não têm capacidade de pagar impostos para que o estado o faça e continue eternamente a fazer,  e este é mais um  paradoxo: “exige-se aquilo que não se está disposto a dar, nem que a população e sociedades  têm possibilidades de pagar em termos de impostos. “

Logo a mentalidade tem que evoluir,  e essa é a verdadeira crise, sendo  o primeiro  grande fator a ser ultrapassado.

 

Disse em 2014 que era preciso acreditar, mas a recuperação está mais que na crença?

No acreditar. No acreditar em quê?

No acreditar na pessoas, no acreditar em cada um de nós, no acreditar nas nossas capacidades, na nossa vontade de fazer, na nossa vontade de ir mais além. Eu disse-o em 2014, e agora  quando Portugal foi campeão da Europa, alguém disse que o segredo da vitória foi essencialmente “acreditar”.

Portanto, muito mais que o “fazer”,  era acreditar que se era possível  “fazer” e voltamos exatamente à primeira questão: “acreditar nas capacidades humanas”; mas para acreditar nas capacidades humanas é preciso haver a tal mudança de mentalidades e acho que às vezes as pessoas que deixaram de acreditar, não foram ensinadas nem educadas para acreditar e para ter essa força interior.

Há uma frase de Einstein que diz exatamente isto. Eu tenho andado a acompanhar num dos canais da Tv Cabo, a vida de Einstein; o homem sempre foi um irreverente, sempre foi um homem que a determinada altura só ele acreditava nele próprio. Ele acreditava que era capaz de ir mais além no conhecimento e 100 anos depois, ou quase 100 anos depois, percebeu-se que realmente, a força do “acreditar”,  mesmo quando toda a gente não acreditava,  deu frutos,  e ele tem uma frase e uma postura, que ditam a sua vida e que hoje importava ser aplicada à generalidade da vida das pessoas: “…Nunca contes as vezes que cais, conta sempre as vezes que te levantas…”.

As pessoas hoje caiem, ficam a chorar, perdem muito tempo a lamber as feridas, nem que as feridas sejam nas mãos. Contudo,  para andarem precisam é dos pés.

Então eu pergunto:  Porque é que  enquanto  lambem as feridas na mão, não continuam a andar?

Podemos lamber as feridas e continuar a andar; mas não, as pessoas preferem ficar sentadas a lamentar-se eternamente, sem fazer nada pela recuperação das suas vidas, e muitas delas ainda encostadas ao Estado.

Aqui também vemos uma novo grupo de “lamentadores”: Por regra os que mais exigem , são aqueles  que ao longo duma vida menos contribuíram e que menos fizeram pela sociedade onde vivem. Este é mais um novo Paradoxo.

Acha que hoje em dia os empresários já têm o modelo de gestão assente no planeamento estratégico?

Não mesmo de todo, sendo este  talvez o principal grande fator de insucesso do micro e pequeno empreendedorismo nacional.

Eu neste momento estou a terminar o Mestrado em  Gestão e Negócios, em que todo o meu trabalho foi desenvolvido em torno da sustentabilidade do  Micro e Pequeno Empreendedorismo Nacional.  Um dos seis ou sete fatores que eu apresento para a  sua falta de durabilidade  e sustentabilidade, é exatamente essa: Falta de Planeamento Estratégico.

O empresário português não planeia porque nunca foi ensinado a planear, nem tem conhecimentos para tal. Muitos deles começaram a ser empresários numa altura em que não era necessário planear nada. Foi numa altura de crescimento e  expansão. Nessa altura de expansão pela  perspetiva do empresário, não fazia muito sentido ter preocupações com a gestão,  porque  os bens  não eram economicamente  escassos (só faz sentido gerir aquilo que é escasso).

A questão é que esses tempos mudaram , hoje é necessário gerir tudo, até o nosso tempo, a nossa postura, a nossa atitude. Atualmente o empresário português não está preparado nem dimensionado para tal.

Tenho algumas experiências pessoais que dizem exatamente isso, por exemplo, lembro-me de um empresário da construção civil, que uma vez chegou ao pé de mim e disse “… Estou a passar um período muito mau da minha vida, tenho uma empresa de construção civil há 15 ou há 16 anos, dei um curso a cada filho, uma casa na praia e agora num ou dois anos perdi tudo, sempre fiz a mesma coisa…” e esta foi a palavra-chave “…sempre fiz a mesma coisa…”. Se a sociedade evoluiu, mudou e se as condições económicas e sociais alteraram,  ele manteve a mesma forma e estrutura?

O que é que aconteceu?

Não planeou, não se preparou para a nova realidade advinda da globalização. Houve um dia em que este empresário acordou, olhou à sua volta e tudo já tinha mudado, expecto ele e a sua visão. O  desabafo deste empresário eventualmente traduz a realidade do grosso do empreendedorismo nacional,  visto hoje o tecido empresarial português ser  constituído por 99,9% de micro e pequenas empresas, muitas delas  de origem familiar.  Esta  é   outra realidade  para a qual a sociedade  não está atenta, nem o mundo académico. Este continua a desenvolver e a apostar em teorias de gestão altamente complexas, para  0,1 % do tecido  empresarial  nacional que são as grandes empresas, numa altura em que a  realidade empresarial  são as micro e pequenas.

Estas pequenas iniciativas empresariais, continuam a  funcionar (muitas delas) sem qualquer tipo de gestão, sem qualquer tipo de meio ou métodos académicos cientificamente provados, mas no fundo, continuam a assegurar o grosso da receita fiscal portuguesa e a garantir  a maioria dos empregos no setor privado.

Tristemente constato que,  o micro e pequeno empresário, continua hoje  a funcionar sem planeamento estratégico nem modelos de gestão, não só por sua culpa , mas também um pouco por culpa daquilo que é atualmente  o mundo académico, os programas de gestão a nível de licenciaturas e pós graduações,  que simplesmente desprezam e  não reconhecem  devidamente esta  especialidade na sua verdadeira plenitude e importância económica e social.

 

Qual é a importância dos recursos humanos no sucesso dos empresários e das empresas?

Se pensar que a média  de trabalhadores destas 99.9% de empresas, são cerca de  4.7 , destaca-se a grande importância e peso individual de cada  elemento. Uma pessoa que produza muito ou não produza, representa 20% da força de trabalho, portanto é um peso brutal para a produtividade ou para a não produtividade neste empreendedorismo, nomeadamente em organizações que não têm meios, não são abastadas em recursos e  onde as boas e as más decisões funcionam sobre efeito de chicotada.

Assim sendo, uma boa decisão tem efeitos imediatos, na mesma medida, que uma má decisão tem efeitos devastadores, onde os recursos  perdidos ou mal investidos  não voltam a existir mais. Estas micro e pequenas empresas continuam-se a debater eternamente com um outro problema, que é o acesso ao crédito bancário.

Depois ainda está presente nestas iniciativas o fator social e a vidas das pessoas e seus familiares, porque o grosso destas empresas são de estrutura familiar e  quando a “coisa corre mal”,  não corre mal só a nível dos negócios, corre também a nível pessoal.

Respondendo diretamente à sua questão, qual o peso e importância dos recursos humanos,  está claro que quanto menor é a estrutura mais é o peso e mais importância tem o fator humano, não só nos negócios como no efeito direto na vida dos empresários.  E depois ainda,  porque são a base de sustento em zonas periféricas e de interior; por exemplo em Almeirim e outras  zonas do interior, excluindo as autarquias e as restantes  organizações do terceiro setor ( e ainda Compal),   o grosso  do emprego é assegurado por estas micro e pequenas iniciativas,  logo a  importância da manutenção e desenvolvimento destes   modelos de negócio, sendo  o fator humano determinante.

 

Tem havido uma tentativa de promover muita gastronomia, o vinho, a agricultura… É esse o caminho que deve ser seguido no nosso concelho?

Tardiamente chegou-se a essa conclusão, mas sim, finalmente chegou-se. Andava eu no segundo ou terceiro ano de Gestão de Empresas, por volta de 1988, 1989 e era salvo erro  Primeiro Ministro ou  Ministro da Economia ou Finanças, um senhor que depois foi             Presidente da República, o senhor professor Aníbal Cavaco Silva. Eu  já não precisar qual era a sua função governativa, mas o que é certo, é que o ministério  ao qual ele pertencia ,  encomendou um estudo a um grande economista de renome  mundial, Michael Porter.

O  Sr.  Porter foi um homem que chegou a Portugal nos finais dos anos 80 (séc passado), e por volta de  1988 ou 1989  tornou público o resultado dum estudo acerca da viabilidade de países periféricos com destaque para  Portugal.

O Sr. Porter fez um trabalho que denominou de “Os Cluster´s de Portugal” que também  ficou conhecido pelos “Cluster´s de Porter”. No fundo  era um estudo,  que pretendia evidenciar pontos fortes e fracos da nossa economia, bem como potencialidades e oportunidades.

Sr. Porter em três ou quatro palavras disse que Portugal tinha meia dúzia das garrafas de vinho das zonas demarcadas  do Douro e  da Bairrada para vender, uns lindos  quilómetros de praia e de sol com bom tempo e algumas lindas paisagens de interior para promover.

Segundo ele , quase tudo o resto era “nada”.

No fundo , tentou dizer que a verdadeira potencialidade económica  do nosso pais, situava-se em atividades diretamente relacionadas ao Turismo,  Gastronomia e Atividades Afins, tal como atualmente as conhecemos.

Tanto quanto sei, na altura não foi levado muito a sério, chegando mesmo a ser Ridicularizado por alguns setores da sociedade.

Os governantes da altura  decidiram então,  reformular a  frota  pesqueira (foram pagos subsídios para afundar os barcos),   trazer grandes indústrias para Portugal,  fazer autoestradas por tudo o que foi sítio, incrementar atividades subsidiadas que nunca foram viáveis, etc, etc, etc..O resultado foi conhecido e vinte e tal anos depois, vem-se chegar à conclusão que aquilo que o Sr.  Porter  dizia e considerava oportuno  para o desenvolvimento e sustentabilidade da sociedade e economia nacional , era mais que certo.

Aquilo que o senhor me está a perguntar  é exatamente isto:  promover o Turismo  em redor dos valores  Regionais e Tradicionais  enraizados na cultura portuguesa.

Portugal sempre foi um país pequeno e de mentalidades pequenas , havendo  um velho ditado que diz que “…cada um é para o que nasce…”.

Nós nascemos para isto; é aqui que somos fortes; é aqui que temos que dar força e andar para a frente.  Porter veio de fora e também o viu , mas em Portugal ninguém o tinha visto. E ninguém com responsabilidades governativas o quis ver por mais de 2 décadas.

Talvez tenhamos perdido vinte e tal  anos ao investirmos  naquilo que nunca deu nada, ao ponto de hoje passar-mos por zonas industriais que estão totalmente ao abandono e zonas de interior quase desertificadas.

E isso foi fruto de quê?

Duma política errada de investimento e de crescimento não sustentado,  e que na sua maioria nada tinha a ver com Portugal, com os portugueses ou a nossa cultura, e que no final,  não nos levou a parte nenhuma.

Portanto,  quando pergunta se o caminho é esse, é esse sem dúvida e todo aquele que destaque os valores culturais e tradicionais portugueses em redor de atividades relacionadas ao turismo;  Porter já o havia dito há muito tempo.

Repare,  ontem ou anteontem ouvi uns resultados não sei se foi do INE, se do Governo ou Banco de Portugal,  que afirmam  que Portugal neste primeiro trimestre tinha crescido 2.8% na economia. Quais foram os  setores apontados? Turismo e basicamente exportações em torno daquilo que é tradicional português.

Portanto quer queiramos quer não,  é aí que temos que investir, é aí que temos de ser bons, porque nunca temos capacidades  de a nível da indústria pesada competirmos com os grandes países da Europa, porque além de  não temos recursos naturais,  somos um país periférico. Só pela via da importação da matéria-prima e depois pelo escoamento do produto acabado,  deixamos automaticamente de ser competitivos (na maioria da produção).

Eu fico um bocadinho triste quando  politicamente se demora tanto tempo a perceber isto e pessoa comuns como nós,  temos a capacidade do o perceber quase no imediato. Entretanto, nestes últimos 20 e poucos anos já tivemos a visita  do FMI duas vezes.

 

Isto que acha aqui na questão do iva da restauração. Foi uma boa medida a redução, que opinião é que tem em relação a essa matéria?

É óbvio que a redução do iva na restauração é muito importante. Mas   vamos dar amplitude à questão,  vendo a restauração como uma das peças basilares dum setor  que em Portugal tem crescido   e continua a ser  a base do crescimento e sustentabilidade do nosso país: O Turismo.

Portanto, o Iva numa atividade que é tida hoje como essencial  para o crescimento económico  é sempre uma questão muito sensível. A sua redução apenas pecou por tardia, tendo sido altamente penalizante para todo um setor nestes últimos anos.

Eu em 2013, salvo erro numa conferência em  Almeirim, disse que o aumento do Iva na restauração era   “um grande tiro no pé” pelo executivo de então ,  e que ia ser altamente penalizante para o setor e economia nacional. Agravar  o imposto no setor que é a base do crescimento nacional, é sempre uma má política.

Respondendo à sua questão, para mim nem sequer é tardio, foi simplesmente um má medida que  nunca devia de ter acontecido e um grande exemplo disso é que tal aconteceu numa altura em que Portugal   estava  com mais um  resgate económico. Estas são as medidas que a  nível da UE fazem com que eternamente continuemos a ser  pequenos, pois são claramente vistas como “medidas de terra queimada” que penalizam o setor basilar no crescimento.

Por muita necessidade que o estado português tivesse  de receita fiscal  para cobrir a despesa, era  impensável “comer a semente”. Quando se tributa o setor responsável pelo crescimento, simplesmente está-se a comer a semente.

Numa terra de agricultores, vou dar aqui um exemplo: um agricultor precisa  todos os anos de semear vinte hectares de milho para gerar receita para viver. Se ele num época má,  começar a comer semente e em cada ano futuro  ficar com  cada vez menos semente para cultivar ,  começa a fazer cada vez menos área, há um ano em que nem colheita nem semente.

Aqui voltamos à questão inicial:  “o que é que é necessário mudar?”

É  necessário mudar as mentalidades, até a nível governamental e político,  porque há duas formas de equilibrar as contas públicas, ou pelo aumento da receita quando é possível, ou pelo corte na despesa.

Agora,   aumentar a receita  a qualquer  custo,  estrangulando setores de atividade,  que no fundo são o motor do progresso, crescimento e sustentabilidade, em termos práticos e estado não está a resolver nada.

O que é que se está a fazer?

Está momentaneamente a aliviar a desgraça, mas está  a criar um problema mais à frente e em anos futuros.

 

Ainda a falarmos um bocadinho do nosso concelho, da nossa região… Acha que na nossa região há capacidade para mais hotéis? Por exemplo, uma questão que se fala, que faltam camas. Acha que esse é um problema nosso ou do concelho?

Não, não faltam camas, porque ninguém quer  vir para aqui  dormir se não houver nada para atrair e  que retenha  as pessoas. Antes de se fazerem camas, é preciso criarem-se focos  e centros de interesse para atrair as pessoas.

Eu não sei que atividades além da gastronomia e esta com  grande projeção nacional, façam com que alguém aqui tenha que pernoitar.  Contudo, acredito que o espírito empreendedor das pessoas de Almeirim e a própria autarquia,  estão atentas a esta realidade e que muito em breve, irão surgir novos focos de interesse na terra.

Agora considero,  que não faz qualquer tipo de sentido investir em alojamentos e em superfícies de retalho ,  se não existe população e publico  para tal. Investimentos em Hotelaria , são sempre grandes investimentos, que se não tiverem resultados quase no imediato tornam-se rapidamente em situações complicadas para os promotores.

Almeirim nos últimos 10, 15 anos saiu praticamente do anonimato para uma referência em em determinados setores, no entanto é preciso continuar a fazer mais e melhor.

Também já o disse no passado, que Almeirim  tem excelentes condições para poder ser vista como um apetecível centro de negócios e um pequeno centro industrial  e porquê?

Porque geograficamente está no centro do país, com uma excelente rede viária e isto são os tais pontos fortes do concelho, que até ao momento só  a restauração aproveitou. Tristemente vejo uma  zona industrial sub aproveitada, quase ao abandono e continuo a não ver ninguém de fora a olhar para Almeirim e para as suas vantagens geográficas e outras.

Por outro lado, também não vejo a autarquia a  imprimir dinâmicas no sentido de “vender” os EXCELENTES PONTOS FORTES DO CONCELHO.

Relativamente aos concelhos vizinhos , também pouco ou nada vejo, sendo mais este um pontos forte a poder ser aproveitado pela nossa autarquia. Afinal “num país de cegos, quem tem um olho é rei”.