RIBATEJO: Identidade e futuro da região

O rio TEJO e a sua PLANÍCIE é o eixo estruturante, o elemento predominante que deu o nome e moldou a identidade geográfica e histórica da região RIBATEJO.

Via fluvial de intensa azáfama, até à chegada da camionagem nos anos 40 do séc. XX, fonte de recursos alimentares, tornou-se naturalmente atrativo ao assentamento de povoações na “borda d’água”, crescendo entre os seus habitantes o sentimento de pertença, de raízes e terra natal. O norte ribatejo distinto das lezírias (Torres Novas, Tomar, Ourém, Abrantes e outros), moldou
uma sub- identidade mais voltada às atividades industriais.
Vinhas nos Campos da Lezíria, Olivais nas terras do Bairro, sobreiros e eucaliptos na Charneca transformada pela mão do homem. A maior região plana do país tem uma paisagem marcada pela sua atividade agrícola. O clima da região (protegida dos ares marítimos pelo maciço Montejunto, Aire e Candeeiros) com a proximidade do rio permite a produção de Vinhos e Azeites com caraterísticas únicas. Quem conhece o país identifica bem as características diferenciadoras dos ribatejanos pela sua forma de ser comunicativa, pela sua “genica”, espírito de iniciativa e dinamismo, alegria e coragem, simbolizadas no Fandango e Forcados. As mulheres por seu turno, trabalhando ao lado dos homens e com salário próprio, cedo ganharam autonomia relativa mas diferenciadora de qualquer outra região. Também as casas populares manifestam um colorido bem diverso das regiões vizinhas.

1-O nome Ribatejo aparece pela primeira vez num registo do século XIII que refere um Concelho do Ribatejo, no território em torno do estuário do Tejo (frente a Lisboa), correspondente aos atuais concelhos do Barreiro, Moita (do Ribatejo), Montijo (Aldeia Galega do Ribatejo) e Alcochete. Já em 1827 é designada como comarca da Estremadura e em 1836 sob a forma de comarca de Santarém, enquanto crescia progressivamente uma consciência regional. Na segunda metade do seculo XIX com as alterações políticas, obras de regularização do Tejo e drenagem nos campos da lezíria, deuse
um intenso incremento na agricultura (em particular na vinicultura) devida à iniciativa de lavradores e à grande fertilidade das terras fertilizadas pelas cheias periódicas. As terras da borda-d’água tornaram-se “terras de promissão” pela oferta de trabalho, atrativa para trabalhadores de todo o país. Tornou-se pois uma “terra de imigrantes” com toda a panóplia de culturas e costumes que aqui se entrecruzaram dando origem à rica diversidade de expressões culturais e folclóricas mais coloridas, alegres e movimentadas que as beirãs ou alentejanas. Os ranchos de trabalhadores sazonais, por ocasião das ceifas, vindimas, apanhas de azeitona e tomate, proporcionaram casamentos que fixavam migrantes ao Ribatejo: Gaibéus e Ratinhos (Beiras), Caramelos (litoral) e Barrões (Alto- Alentejo). Entre os migrantes pescadores do Rio Tejo estabeleceram-se Avieiros(Vieira de Leiria), Varinos (de Ovar) e Cagaréus (de Aveiro) tornando-se também eles ribatejanos.

2-Amorim Girão, o geógrafo, em 1930 estabeleceu a divisão administrativa do país por unidades homogéneas (províncias e distritos) consignando a região do Ribatejo e o Distrito de Santarém autónoma da Estremadura. Nessa época o Estado Novo criou um conjunto de símbolos de identificação regional marcantes entre os quais a figura do campino como símbolo do “homem do Ribatejo”, estereotipado e redutor. Apesar da uniformização abusiva de estereótipos, a constituição de numerosos grupos folclóricos diferenciados por concelho, tiveram um papel marcaram a preservação de
costumes populares (trajes, danças e cantares rurais), sem os quais, tal património imaterial hoje provavelmente estaria perdido. As vinhas e vinho dos campos ribatejanos, tal como a criação de toiros e cavalos estão historicamente ligados à lezíria do Tejo. Ainda hoje se mantêm com pujança as festas populares de gosto ribatejano (Moita, Montijo, Azambuja-Feira de Maio, Colete Encarnado- Vila Franca ou a Feira da Golegã/ capital do cavalo), o gosto pela tauromaquia, picarias e largadas de toiros tão arreigadas à identidade ribatejana. O Ribatejo tem um património arquitetónico riquíssimo ligado à história da região – Santarém, Salvaterra, Alpiarça, Golegã, Torres Novas, Tomar – e Qtas históricas mantidas ao longo de séculos (Cardiga, Lagoalva, Alorna,
Casal Branco, Santa Marta, Casa Cadaval,…).

3-Santarém/capital de distrito, centro da unidade regional perdeu a sua influência e centralidade a partir de 1974 em favor das vilas/cidades em seu redor que desenvolveram significativa autonomia com equipamentos públicos escolares, de saúde, culturais e desportivos. Com acessibilidades privilegiadas com todo o país (rede de autoestradas) e grande proximidade de Lisboa perdeu sucessivas oportunidades de afirmação. A saída de importantes equipamentos como a presença militar da EPC, a extinção do governo civil e a incapacidade de se renovar e afirmar, foram significativos retrocessos na sua importância regional. O fecho e transferência da Feira do Ribatejo, até então no centro da cidade e com cariz claramente regional, deu origem à Feira Nacional de Agricultura (CNEMA) com uma maior visibilidade nacional é certo (modelo europeu de maior escala com predominante feição tecnológica), mas teve um forte impacto de esvaziamento no sentimento local e regional, sem a presença assertiva dos municípios ribatejanos e o cariz humanizado do evento.

4-Decisões politico-administrativas em torno da divisão do território trataram a região Ribatejo sem reconhecimento mínimo da sua identidade territorial e cultural. Imperou o acesso aos euros da CEE que inviabelizam as obras nos municipios. A integração na Comunidade europeia suscitou a regionalização do território nacional, e com ela a proposta de 5 regiões transversais do litoral ao interior (recusada por referendo nacional), base da divisão territorial técnico-administrativa das Comissões Coordenadoras de Desenvolvimento Regional (CCDR’s)e subdivisões em unidades territoriais (NUT’s). Em 2003 a CCDR -LVT /Lisboa e Vale do Tejo, para vantajoso acesso aos fundos comunitários autonomizou a AM.Lisboa do Vale do Tejo/ Ribatejo dividindo o Vale do Tejo/ Ribatejo em dois: os municípios da Lezíria (CIMLT) anexados à CCDR Alentejo e os municípios do norte ribatejo/ Médio Tejo (CIMT) anexados à CCDR do Centro.

5-Alterações das últimas décadas Abordar a IDENTIDADE REGIONAL ribatejana, para além dos fatores físicos e homogeneidade geográfica é matéria da Sociologia e Antropologia. Tem a ver com os seus habitantes, com os afetos e vivências, memórias e referências que os ligam à terra natal. E é forçoso ter em conta as profundas alterações das condições socioeconómicas, a mudança acelerada de mentalidades, a melhoria do nível de vida e escolaridade das novas gerações, o aumento da mobilidade e outros fatores. O Ribatejo já não é a mesma região agrícola e industrial. Atentemos nas alterações dos setores de atividade económica entre 1960 e 1991: Primário/agricultura 50% reduz para 10%, o Secundário/Indústrias 22% aumenta para 32%, o Terciário/comércio e serviços 30% aumenta para 60%**. Consequentemente tornou-se maioritariamente uma região de serviços na proximidade da Área Metropolitana de Lisboa. Os símbolos icónicos do Ribatejo são questionados: Já não há campinos (mas apenas filhos de campinos que vestem o traje e cavalgam nas festas) e até a tauromaquia é questionada, não só em Portugal; o machismo marialva tão associado ao ribatejano tem a ver-se com a emancipação feminina e pretensa igualdade de géneros. Nas últimas décadas, o afluxo e fixação crescente de populações na Área Metropolitana de Lisboa transforma concelhos rurais ribatejanos em urbanos, o que corresponde a reconhecer que as novas gerações se tornam urbanas com frágeis ligações afetivas com a terra natal de seus pais. Somos pois forçados a reconhecer que da progressiva urbanidade e passagem de gerações, mais formadas e cosmopolitas, decorre a diluição dos sentimentos coletivos de pertença regional. A Europa sem fronteiras e os “Erasmus”, a emigração de jovens qualificados com novas visões do mundo, a escala global e as novas tecnologias de comunicação reforçam esse facto. Anuncia-se a diluição gradual do sentimento regional, das raízes e apego ao território/ terra natal, as ligações afetivas (familiares e sociais) e as tradições, as memórias e testemunhos. Mas mantém-se o património e as expressões culturais de identidade(s).

O Turismo Cultural torna-se o meio por excelência para adaptar aos novos tempos a divulgação do património regional: a Unesco acabou de reconhecer a Falcoaria de Salvaterra como Património Imaterial da Humanidade e projeta-se uma candidatura do Fandango, tal como aconteceu com o Fado e o Cante Alentejano. 6- O QUE FAZER para preservar valores culturais e identidade regional? – Defender a unidade territorial e intercultural do Ribatejo no atual contexto administrativo e da regionalização que um dia virá a ser de novo questionada. Reconhecer como passo positivo a criação de uma nova unidade territorial – NUT II – que restabelece a aproximação histórica do Ribatejo-Oeste (antiga Estremadura) preservando a unidade das comunidades Lezíria do Tejo e Médio Tejo. – Defender a genuinidade e diferenciação de cada CONCELHO (património material e imaterial, festas populares e manifestações culturais, divulgação de história Local, apelando à participação da comunidade civil e apostando no Turismo Cultural programado a nível Regional. – Implementar um evento com projeção nacional sobre “Identidade(s)do RibaTejo”, estimulando afinidades culturais entre municípios ribatejanos e criando condições para a publicação/divulgação das Histórias locais e da “História e Cultura do Ribatejo” sob coordenação de personalidade intelectual de reconhecido mérito. Elias Rodrigues, Fev. 2017 (Membro do “fórum RibaTejo”, plataforma de reflexão)