O Pároco face à chegada dos franceses

Pela curiosa e honrosa classificação que o pároco Barretto faz aos invasores, no supracitado baptismo de 18 de Outubro de 1810, surgirá decerto e inevitavelmente a questão: seria ele adepto dos franceses e dos seus ideais? Um sacerdote português adepto de francesia? Porém, tomando o esclarecimento de Joaquim Veríssimo Serrão acerca da posição que a Igreja tomou perante o exército de Junot, em 1807, talvez se compreenda melhor a razão desta fórmula de tratamento do reverendo Barretto. “Diga-se, para já, que o alto clero assumiu a posição de cautela que as circunstâncias impunham, alertando os fiéis para quaisquer actos de desobediência à ocupação francesa e que dessem origem a efusões de sangue. (…) E quando alguns, por força da grave conjuntura, invocaram a obediência devida a Napoleão como protector do Reino, não o fizeram por sentimento aberto de francesia, mas apenas para fomentar sentimentos de esperança no ânimo da população. Assim sucedeu com o cardeal D. José Francisco de Mendonça que, em 8 de Dezembro de 1807, dirigiu uma pastoral aos fiéis de Lisboa, para assinalar a festa do Natal. Nela dava por conselho unirem-se todos no amor de Cristo «para se conservar o socego e a paz de que todos necessitamos nas prezentes circunstancias» (…). Por fim, o cardeal Mendonça pedia ao clero do Patriarcado para esclarecer os fiéis sobre a situação”. (45) Como tal, e a juntar a esta postura institucional o facto dos franceses já estarem em Santarém em Outubro, sendo também o padre Barretto clérigo do Patriarcado, não será de estranhar portanto esta profissão de prudência e de adaptação à perigosa conjuntura, mesmo apesar de já se terem passado cerca de três anos e de se terem expulsado os invasores por duas vezes. Apesar da postura neutral do sacerdote em todos os registos seguintes, a melhor prova poderá constituir um único, no qual ele se despoja de qualquer fingimento e apelida então o exército francês, pela primeira vez, como “o Inimigo”: “Aos onze dias do mês de Fevereiro do anno de mil e oito centos e onze, por comissão do Reverendo, digo do Excelentissimo Senhor Patriarcha Eleito, se receberaõ nesta freguezia (…) por marido e mulher, Antonio Lucas e Jozefa Joaquina, ambos viúvos que erao e parochiannos da freguezia de S. Martinho da Golegam, refugiados nesta freguezia, pela invazaõ do inimigo (…). as) O Reitor Joze Antonio Oliveira Barretto” (46) (45) SERRÃO, op. cit., p. 27. (46) ANTT, op. cit., Registos de Casamento 1811, fl. 6.

Gustavo Pimentel Investigador