Saber porque se faz, o que se pretende alcançar

“Aprender significa dominar níveis crescentes de complexidade. O que determina a qualidade é a capacidade que a criança tem de resposta. Não há limite para o que se possa apreender na educação pré-escolar.” – Maria do Céu Roldão

As Orientações Curriculares para a Educação Pré-Escolar, à frente designadas por OCEPE, documento por excelência de orientação e apoio para todos os educadores que verdadeiramente se preocupam com uma educação de qualidade, foram alvo de remodelações, reestruturações, transformando-se num documento claro, objetivo com grande potencialidade e de fácil consulta, devendo ser um instrumento fundamental de uso diário.
A sua primeira criação surge em setembro de 1997. Em Julho de 2016 a nova reformulação é apresentada a todos os docentes após grupos de trabalho diversos, exposição dos trabalhos para novas intervenções e uma equipa coordenadora composta por profissionais de referência, como Isabel Lopes da Silva, Liliana Marques, Lourdes Mata e Manuela Rosa, que já na primeira publicação das OCEPE, Isabel Lopes da Silva foi impulsionadora e dinamizadora da criação do documento, terem refletido, reformulado e avaliado, chegando à finalização e apresentação do produto final.
No passado dia 28 de janeiro de 2017, decorreu em Santarém, no auditório da Escola de Saúde, uma sessão de esclarecimento sobre o tema, ao qual, entre muitos outros profissionais, a equipa técnica do Conde de Sobral marcou presença. Foram apresentados os vários procedimentos e processos que levaram à finalização das novas OCEPE.
Foram apresentados, sucintamente alguns modelos curriculares, uns mais virados para a criança como agente da sua ação educativa e outros mais estruturados, de acordo com as áreas de conteúdo, e organizados pelo educador.
A avaliação foi um ponto de grande preocupação e discussão. Na educação de infância não é suposto existir avaliação quantitativa, facto ainda existente em algumas instituições, nem a existência de checklist que em nada ajudam o educador a perceber a evolução do seu grupo.
Cabe ao educador começar por observar a criança, ser individual, e o grupo, para depois organizar as estratégias que melhor se adaptam àquela realidade. Deverá ser um processo onde os registos das evoluções e conquistas de cada criança são um apoio para poder avaliar e perceber se de facto existe evolução e se as suas estratégias estão a funcionar – Observar, Refletir, Reformular e Avaliar são pontos-chave na educação, seja ele qual for o nível de ensino.
Outro ponto debatido e sugerido ser alvo de reflexão constante em equipa em cada local de trabalho, com outros profissionais, outros parceiros, foi a prática do dia-a-dia de cada educador em contexto sala.
Os anos foram passando e foram-se criando jardins de infância cada vez mais escolarizantes, onde a criança deixou de ser agente da sua ação educativa para passar a ser mero espectador. Começaram a aparecer com mais regularidade fichas estereotipadas e manuais como complemento da prática. A criança passou a executar o que o educador propunha, deixando de ser ouvida e de se ajustar a prática de acordo com o seu interesse.
Surge assim o desafio emergente, que se reinventem novas propostas, novas formas de estar, dando à criança voz ativa, desde a organização do ambiente educativo até ao produto final da sua atividade.
Permitir que através do brincar a criança interiorize, experimente e descubra novas formas de vida, novos e diversificados conceitos, englobando todas as áreas de conteúdo que através da ação e experimentação, através dos seus sentidos desenvolva as suas capacidades e potencialidades.
Quando se fala em brincar é importante lembrar, tal como foi abordado no encontro de reflexão, que este ato pode ser espontâneo, dando-se relevo a atitudes e à autonomia da criança, ou apoiado e planeado pelo educador, tendo finalidades pedagógicas com intencionalidade educativa de forma abrangente e não em compartimentos estanques. Tal ato permite desenvolver o potencial de cada criança de forma holística.
Torna-se necessário que o educador invente e reinvente a cada momento, que pesquise e esteja em constante procura de formação / informação e que dê oportunidade à criança de se exprimir e de apresentar os seus projetos e conquistas. A qualidade só se consegue quando existe um trabalho de toda uma equipa que se preocupa, que partilha experiências, saberes e que se mantém em constante busca e atualização.
De salientar e refletir que, quantidade de trabalho produzido pela criança não é significado de conceitos adquiridos, há muitas vivências diárias impossíveis de representar no papel, como a solidariedade e amizade uns com os outros, as conversas e partilhas, os sentimentos, receios e angústias, dificuldades e conquistas que diariamente inundam a realidade dos jardins de infância.
Toda esta realidade em mudança só terá sucesso numa relação estreita com a família e outros parceiros educativos. As famílias precisam acreditar e valorizar a educação pré-escolar como uma etapa fundamental na formação da criança, precisam sentir que esta etapa é a base para uma estruturação do seu Eu e que, apesar de ser através do brincar, as aprendizagens são fundamentais para uma entrada no 1º ciclo tranquila. Precisam acreditar que cada etapa não é estanque nem compartimentada, que se complementam umas às outras, desde que tenham sido vividas e experimentadas com sucesso, respeito e qualidade.
Na evolução dos diferentes ciclos o que muda é a complexidade do que se apreende nas mesmas áreas do saber. Cada ciclo apresenta o seu grau de exigência, não devendo por isso antecipar-se o que se vai trabalhar no ciclo seguinte mas, deve-se sim preparar, desenvolver as competências da criança para conseguir ultrapassar a nova etapa com bases e estruturas desenvolvidas e securizantes que a permitam evoluir, compreender e crescer. As aprendizagens do pré-escolar e do 1º ciclo estão articuladas, embora de forma mais complexa.
O Colégio Conde de Sobral tem como grande objetivo a promoção de uma educação de excelência, onde a criança tem a oportunidade de se expressar, de em conjunto decidir e combinar o seu dia-a-dia, de avaliar a sua atividade, de reformular e reinventar-se a cada momento.
Pretende-se que a criança se sinta parte integrante do seu processo de aprendizagem. Tal facto implica, por parte das famílias um reconhecimento, aceitação e cumprimento das normas de conduta do Colégio, permitindo à criança sentir-se integrada desde o momento em que chega, até ao final do seu dia, deixando desejo de voltar no dia seguinte.
O jardim de infância é muito mais do que deixar um filho ao cuidado de adultos que garantem a sua integridade física, o seu bem-estar, quer a nível de alimentação quer a nível de cuidados básicos.
É através de um ambiente educativo facilitador do processo de desenvolvimento e aprendizagens de todas e cada uma das crianças, apoiando-se nas fundamentações pedagógicas, criando alicerces na relação através do afeto, criando ambientes securizantes e estruturantes em contextos lúdicos que o jardim de infância se reinventa a cada momento.

Joana de Mello