“O meu pai não me obrigou, mas foi o Mestre”

Nunca teve muito jeito para jogar futebol, mas acabou por ser no U. Almeirim que começou a carreira de massagista, percurso que João começou, por influência do pai, Eliseu Simões. João conta que chegou a ser enganado, como lesões simuladas “mas o mais normal era eles acabarem por confessar que queriam mesmo era parar”.

Querendo ser médico ou enfermeiro, como surgiu a fisioterapia?
Cedo percebi que pode ser muito gratificante o facto de poder ajudar os outros, nomeadamente ao nível de saúde e bem-estar. A área da Fisioterapia apareceu naturalmente, muito devido a toda a vida ter assistido à satisfação que as pessoas mostravam após uma massagem, fosse ela em forma de reabilitação ou apenas como forma de relaxamento! Assim sendo, e na altura de optar, visto não ter média suficiente para entrar em Fisioterapia (na altura 18,6 valores), resolvi continuar ligado à área enquanto Técnico de Fisioterapia!

Que influência teve o pai nisso?
Quase total! Nunca me obrigou ou forçou a optar por tal, mas foi a grande inspiração e também o meu grande Mestre. Com ele aprendi e ou melhorei grande parte de tudo o que sei sobre Massagem!

Quando é que percebeu que isso iria ser o modo de vida?
Na altura em que acabei o secundário, passei parte das férias a ajudar numa ervanária que na altura abrimos no extinto Centro Comercial Varela. Certo dia, uma pessoa, que, por sinal, na altura era atleta, ia ter ou tinha acabado de fazer um exame académico e ligou a pedir que o víssemos pois estava com imensas dores. Devido à tensão muscular originada pela tensão nervosa, quando chegou parecia um ponto de interrogação, de tal modo se estava a contorcer com dores. A forma como recuperou, deixou-me estupefacto e deslumbrado ao mesmo tempo . Nesse momento percebi o que queria fazer!

Lembra-se da primeira massagem?
Perfeitamente! Na altura, trabalhavam connosco o Paulo Frajuca e o José Antunes, e quando realmente comecei a demonstrar que gostaria de enveredar pela massagem, eles ofereceram-se para ser as “cobaias”. A minha primeira massagem foi mesmo ao Zé. Aproveito para enviar um grande abraço aos dois.

Qual foi a reação?
Foi natural, no sentido em que não foi estranho! Mas ao mesmo tempo inquietante, pois sentia que estava pouco à vontade para uma massagem mais pormenorizada!

Mas em 2000 regressou ao clube para outras tarefas?
Sim. Desde que me lembro de mim que me lembro do Estádio D. Manuel de Mello. Quando o Treinador da equipa Sénior, nessa altura António Costa, me abordou e o Clube me piscou o olho através do Sr. Rogério Vinagre, foi muito fácil e natural dizer que sim! Começou então uma década que foi uma grande escola de vida!

Porque saiu?
Ao fim de uma década, em que o Clube passou por muitas dificuldades a vários níveis, e embora tenha aprendido muito e conhecido muita gente e várias realidades, resolvi afastar-me um tempo dos balneários e dos relvados para dedicar mais tempo à minha família, a minha mulher e filho mais velho. Admito também que atingi um certo grau de desgaste e cansaço provocado pelo acumular dos anos, incidências e reincidências! Aqueles tempos não foram fáceis para o Clube.

E depois como surgiu os Tigres?
Passado pouco tempo de sair da União, fui abordado, primeiramente, por um diretor dos Tigres, Artur Castro, e por essa época declinei o convite. No ano seguinte, o Artur e o Presidente, na altura Carlos Taborda, voltaram a convidar-me e eu resolvi aceitar. Começou então outra aventura por mais seis épocas. Tempo em que conheci pessoas fantásticas, realidades muito diferentes e ambientes incríveis, a começar por alguns grupos de trabalho que passaram no Clube e os inevitáveis Ultras de Almeirim, claque que nos acompanhou a todo o lado, apoiando e ajudando em grandes conquistas para Os Tigres.

Entretanto, este projeto terminou para si. Porquê?
Se o projeto era desafiante, ambicioso e motivador, também foi muito desgastante. Semanas com dois treinos em Lisboa e chegar a casa às duas da manhã e no sábado seguinte ir jogar ao Norte, por exemplo, Braga ou Barcelos, era demasiado exigente e obrigava-me a ser um marido e um pai muito ausente. A minha mulher, por diversas vezes, para eu poder passar mais algum tempo com eles, ia junto com a claque ver os jogos no autocarro, fosse onde fosse, isto com os nossos filhos, sendo que ambos eram crianças e a minha filha ainda de colo. Resolvi então parar novamente para tentar recuperar algum tempo junto com a minha mulher e os dois filhotes!

Um massagista é também um confidente dos atletas?
Claro! Muitas vezes sabemos coisas sobre eles que o treinador nunca chega a saber. Isso também nos dá a responsabilidade/dever de filtrar algumas informações que possamos ter em determinada altura e decidir o que divulgar ou omitir em prol daquilo que for melhor para o grupo de trabalho!

 

Chegou a trabalhar também num surpermercado. Hoje ainda o faz?
Sim! Quando começou, era suposto ser temporário (Natal), mas o tempo foi passando e tornou-se em mais um projeto que abracei.
A terminar, gostava de dizer que me sinto um privilegiado, no sentido em que posso dizer que representei dois Clubes de Almeirim e que me dizem muito, pois se me considero filho do União de Almeirim, também me senti muito acarinhado nos Tigres. Desejo que ambos prosperem e vençam sempre.