O tempo em que o demo anda à solta

Em tempos de menor formação e pior informação, era usual associar as fatalidades que assolavam os povos à influência do demo, desculpa pronta para o difícil de explicar, ou para as nefastas opções de governantes alcandorados ao poder por hereditariedade, desculpa que, agora, em tempos de maior racionalidade, deveria soar a falso. Tão falso
quanto as que antigamente ouvíamos sobre a inexistência de alternativas, ou as que agora ouvimos quase diariamente sobre a instabilidade que nos rodeia.
Sejam as parangonas sobre a famigerada dívida pública ou as ameaças de terrorismo, o que importa não é a realidade, mas a perceção que dela temos… ou que os demagogos nos vendem. Entrámos no campo ideal do populismo onde alguém apresenta algumas verdades aceites pela generalidade, mas de cuja enunciação de uma forma incorreta, resulta o seu reconhecimento como o novo salvador.
A crescente vaga de populismo não é um fenómeno novo nem inexplicável: deriva da sensação de insegurança – real ou fictícia – e do medo a ela associado e está a ser especialmente explorada por sectores políticos que oportunisticamente surgem em períodos de crise; veja-se o que aconteceu no primeiro quartel do século passado,
quando bem preparadas máquinas de propaganda conduziram ao poder líderes populistas que rapidamente transformaram em autoritarismo cego a democracia que lhes permitira a existência.
A História pode não se repetir, mas poucos duvidam da semelhança entre os aflitivos tempos da Grande Depressão e aqueles que hoje vivem as economias ocidentais (onde uma mal compreendida crise financeira representou, apenas, o primeiro sinal de uma crise sistémica que se continua a negar) e na qual a cidadania foi reduzida à mera figura de estilo das regulares votações. A conjugação de múltiplos fatores, como a crise económica e social, expressa na forte destruição de emprego e no fraco crescimento das economias ocidentais, a alienação dos cidadãos face à política, e a demagogia de pacotilha das promessas fáceis e da vilanização dos estrangeiros está a conduzir as democracias para um populismo que não pode acabar senão num novo totalitarismo.

 

Arnaldo Xarim

Escritor