Com 15 mil contos até Cláudia Raia esteve contratada para o Carnaval de Almeirim

Carlos Gomes foi durante alguns anos o responsável do Carnaval de Almeirim. As histórias que nunca tinham sido contadas, desde os custos de 15 mil contos a um contrato assinado com Cláudia Raia por dois mil e quinhentos contos. Tudo para ler no Jornal O Almeirinense.

Queria começar por lhe perguntar que explicações é que tem para dar para o facto de o Carnaval de Almeirim ter acabado em 2002.
O Carnaval terminou por razões de várias ordens. Razões de segurança acima de tudo, fundamentalmente segurança financeira. Foi solicitado um seguro de risco, ou algo semelhante, que permitisse à organização ficar salvaguardada de algum percalço, como aconteceu em Tomar, mais ou menos na mesma época em que tiveram um prejuízo extraordinário, devido à chuva não ter permitido a saída do corso, e as pessoas singulares que estavam ligadas a esse evento terem tido problemas financeiros. Nós achámos que não era justo nem correto, uma vez que não se tinha vantagens, nem remunerações, nem nada parecido; logo, também não devia dar lugar a prejuízo.

Não se conseguiu fazer esse seguro?
Ele foi prometido, não disseram que fosse propriamente um seguro. A Câmara, que era a entidade que podia fazer o seguro, não me deu qualquer garantia formal porque em conversa deram-me várias garantias, e eu desejava que esse fosse um assunto que ficasse “preto no branco” para que eu ficasse salvaguardado, particularmente a minha família, que me pressionava imenso sobre o assunto.

Quando estamos a falar de seguro, não é ir a uma seguradora, era a Câmara assegurar que havia aqui uma margem para poder ajudar se por algum motivo não se realizasse o corso.
Exato. Aliás, houve um ano em que, inclusivamente, nós fomos com o corso para a rua, choveu, fez vento e até tivemos um pequeno acidente com um jovem com uma mota e que se teve de cobrir as despesas dos danos. Eu não queria seguro nenhum formal, queria era saber que se, eventualmente, houvesse qualquer coisa ligada a intempéries, quem se envolveu no assunto, já que não tinha vantagens, também não tivesse desvantagens com os prejuízos que viessem daí. Formalmente, só queria que a Câmara assumisse o risco financeiro, como mais tarde o fez quando eu saí da organização do carnaval e teve um prejuízo monumental.

Estamos a falar de que ano?
Não tenho preciso o ano em que isso foi, mas, após ter deixado a organização do corso carnavalesco, foi a vereação da câmara que assumiu a organização e teve um prejuízo enorme, contrariamente aos anos em que eu organizei, que tive sempre lucros altos que eram distribuídos entre a Banda Marcial de Almeirim e o CADCA.

Chegámos a ter carnavais a custar 15 mil contos…
Talvez mais. Se forem avaliados os custos diretos e indiretos, creio que houve um ano em que ficámos por aí. Era um risco elevadíssimo. Houve um ano em que a Câmara propôs que criássemos uma associação que fizesse a gestão dos lucros. Ou seja, a organização ficava com os lucros da atividade anual, que seriam para investir na preparação da atividade do ano seguinte. Ora, para mim isso não era válido, porque eu sempre entendi que este projeto era uma forma de subverter o modo como a Câmara apoiava as coletividades. Este projeto tinha como intenção que o que faltasse às associações de carácter cultural e desportivo da terra, era colmatado com aquela receita que vinha dali. O Carnaval nunca foi uma coisa que me atraísse, contrariamente ao que podem supor, não tinha particular interesse nem nunca fui um grande folião. Tinha era um interesse extraordinário no desenvolvimento das coletividades e sempre pensei que só deve ser subsidiado e apoiado quem produzir trabalho, e estas coletividades apresentavam trabalho significativo e deviam ser subsidiadas desta forma, tendo que trabalhar para serem subsidiadas.

Concorda que Almeirim chegou a ter o melhor Carnaval do país?
Não. Porque o melhor Carnaval custava, na época, entre os 80 mil e os 100 mil contos. Ainda tentámos ter uma parceria com o Carnaval da Mealhada, em que eles trariam um brasileiro e nós traríamos outro e depois perguntávamos um fim de semana para criar mais impacto na opinião pública. O que aconteceu foi que o nosso brasileiro era sempre melhor que o deles. Tentámos criar um entendimento, no sentido de trazermos gente que tivesse uma boa imagem, que passasse nos media com frequência, especialmente em telenovelas. Não conseguimos, mas não estávamos muito longe de outros sítios, como Loulé, que tem um subsídio fantástico de custos diretos e indiretos. Porque se só olharmos para os custos diretos, ficamos com uma ideia, mas se olharmos também para os custos indiretos, como os patrocínios, os números sobem em flecha.

Quantas pessoas envolvia uma organização destas?
A organização, curiosamente, eram duas pessoas: era eu e o Jorge Careca, no início. A seguir, envolveram-se as pessoas das duas associações que colaboravam no evento, mas de uma forma informal. A Câmara participava na forma de apoios monetários, e há quatro pessoas que tenho de ressalvar, que estiveram desde a primeira hora e foram, talvez, as principais responsáveis pelo processo ter ido para a frente, porque encontrei nelas um apoio: foi a senhora Preciosa Bela, o senhor Fernando Ambrósio e o Vítor Franco. Estes já não se encontram entre nós, é uma homenagem que eu lhes presto. A quarta pessoa é o senhor Firmino Cantarrilha, que é um homem que, desde a primeira hora, se disponibilizou para o apoio, porque foram pessoas que estiveram ligadas, desde há imensos anos, a este tipo de atividade, portanto disponibilizaram-se para me auxiliar, dando conselhos e sugestões, todo um conjunto de coisas para ajudar ao sucesso desta atividade. Quanto aos que estão envolvidos, porque é diferente dos que trabalharam na organização diretamente e dos que trabalharam numa segunda e terceira linha, no primeiro ano distribuímos cerca de 250 lembranças, que foram feitas pelo Fernando Veríssimo que fazia os troféus de presença, (desde a primeira hora colaborou na cenografia de vários conteúdos, por exemplo, carros, cartazes, criação do troféu, sempre atendendo a tudo o que lhe foi solicitado de forma generosa e gratuita, aumentando a qualidade do evento) que eram entregues a quem colaborava na organização do Carnaval e que colaborou desde a primeira hora. No segundo ano, fez-se cerca de 600; no terceiro ano, penso que foi o mesmo número, mas, de facto, no último ano foram feitas cerca de 1100 peças, desde as pessoas que participaram, às que colaboraram, aos infantários, aos lares de idosos, a quase todos os tipos de associações do conselho, que era aí que estava a virtude desta atividade, era isso que se pretendia, a dinâmica e o desenvolvimento cultural que se criava com este projeto, é por isso que utilizo a palavra projeto, eram para mim as mais valiosas e as mais importantes, porque naqueles dois ou três meses tivemos cerca de 1100 pessoas a trabalhar neste projeto. Do ponto de vista emocional, era isso que eu valorizava.

E quanto aos visitantes? Era uma loucura, muita gente…
No último ano eu recordo-me que a Rádio Pernes, acho, dizia que havia uma fila, de quem vinha de Santarém, que chegava à Tapada, as pessoas queriam entrar e não conseguiam porque era muita gente. Estimamos que, no conjunto dos três dias, tivemos entre 17 mil a 20 mil pessoas, no máximo. Houve uma altura em que estivemos para dar um passo muito interessante, mas felizmente que a coisa não saiu bem, porque seria o caos. Houve um dos anos que tive a Cláudia Raia como contratada: levou 2500 contos, na altura. A senhora viria a Almeirim durante os três dias, e tínhamos, como condição que ela impôs, estar no Rio de Janeiro na quarta-feira a meio da tarde, porque ela tinha um espetáculo de teatro, e tinha uma sala alugada, e tinha mesmo que dar o espetáculo. Como não conseguimos arranjar um voo que a fizesse chegar a horas, mesmo tentando uma série de situações, não fechámos o negócio. Se o tivesse feito não me sentia tão satisfeito porque seria caótico, e Almeirim não tinha estruturas, na altura, para receber tanta gente.

Foram, essencialmente, atores e atrizes brasileiros que vieram?
A opção foi muito pensada e ponderada. Foi alvo de críticas que eu aceito perfeitamente, só que há uma diferença no número de visitantes com ou sem esses artistas. Posso citar o caso de Sines, em que esteve a Regina Duarte, só uma vez, e à conta dela apareceram cerca de 40 mil pessoas. Eu não tenho dúvidas de que foi ela que levou as pessoas. Se queremos crescer e desenvolver, temos que promover um contacto com estas pessoas. No fim do corso, fazíamos sempre uma festa no Moinho de Vento, e quero agradecer, desde já, ao senhor Francisco Ribeiro por esse contributo, onde as pessoas podiam conviver com os convidados e isso para elas era fascinante.

Chegaram a participar portugueses, certo?
Os portugueses foi posteriormente. Comigo foram duas atrizes brasileiras, os portugueses já foi depois. Curiosamente, os artistas portugueses saíram mais caros do que os brasileiros.

Pode recordar-nos um pouco das histórias das organizações? Porque até 1993 os corsos eram organizados pelos populares.
Sim, por exemplo, o apoio a que me estava a referir – que aquelas quatro pessoas me deram – baseou-se em perceber como é que as pessoas se situavam em volta do evento, como é que se ligavam à atividade. A informação que me deram é que os participantes se dividiam pelas zonas geográficas de Almeirim, ou seja, pelos bairros, e iam tentando sempre fazer melhor do que os outros bairros. Era muito interessante, em termos de atividade cultural, o que havia nesta terra.

Podemos falar em três momentos: há este dos populares, depois a fase em que está ligado à organização e depois a parte que é organizada pela câmara?
Exatamente, pelo menos do conhecimento que eu tenho dos factos foi assim que aconteceu. E termina exatamente quando a Câmara assume, o que é curioso, porque a Câmara é a estrutura que tem mais capacidade e mais potencialidade para suportar uma atividade desta natureza.

O carnaval não foi também politizado?
Se faz essa pergunta é porque sabe, com certeza, porque é que a faz. Provavelmente foi, porque os grupos mais fortes que participavam na construção dos carros eram pessoas públicas que eram muito conotadas com determinadas entidades políticas e isso criou alguns engulhos.

Há outras histórias curiosas dos carnavais?
Sim. Eu vou contar uma que é gira. Quando o Carnaval começou a ser organizado, toda a gente olhava com alguma distância para isto. Quando perceberam que, no primeiro ano, de uma forma perfeitamente insípida, se teve um lucro de algumas centenas de contos, as pessoas começaram a olhar de lado para nós; no segundo ando, quando já se teve mil e tal contos, as pessoas começaram a ver a coisa com outro apetite. Quem participava nesta atividade eram as duas associações: o CADCA e a Banda, e a Rádio Pernes fez umas divulgações fantásticas. Um dia, o presidente da Câmara chama-me e diz: “Ó Carlos Gomes, temos aqui um problema que temos que resolver, há aqui dois clubes que estão interessadíssimos em colaborar com o Carnaval e que querem entrar na organização”. Eu disse: “Ó Sr. Presidente, muito bem, é fácil: no primeiro ano, colaboram graciosamente e não se divide receitas nenhumas deles; no segundo ano, se acharem que estão no espírito deste evento, continuam e são parceiros e obtêm uma cota parte.” O que aconteceu foi que eles nunca mais apareceram. Outra, também, foi a rádio local de Almeirim que me estava colocar, como imposição, que mudássemos da Rádio Pernes para a rádio local. Eu disse que não e agarrei no dossiê que tinha nas minhas mãos e dei-o ao Presidente da Câmara, mas depois conversou-se melhor e resolveu-se a situação de outra forma. O dossiê era entregar as chaves e as fechaduras da organização. Eu não aceito pressões de ninguém, assim como também não as faço, portanto exijo que me tratem da mesma maneira.

Uma vez houve um carro que se incendiou na véspera, não foi?
Sim, incendiou-se na véspera. O gerador estava junto a uma manta que nos tinham emprestado, era tão linda como cara. Estava encostada ao gerador e incendiou-se, e foi uma carga de trabalhos. Depois a organização acabou por pagar aquilo. Houve mais acidentes que nunca se trouxeram a público. Uma vez, caiu um painel, naquele dia do vento, como já referi há bocado. Fazia uma grande ventania, o painel estava preso numa parede e caiu em cima de uma mota, e tivemos que pagar os estragos. Outra vez, houve uma situação em que estávamos à porta da Univinhos, tínhamos ido fazer o tradicional lanche do último dia, e uma pessoa a fazer marcha atrás atropelou uma jovem e partiu-lhe um pé. São coisas que são inevitáveis. Mexemos com milhares de pessoas, é inevitável que aconteçam acidentes.

Acha que há condições para reativar o Carnaval de Almeirim?
Há, porque há pessoas. Isto é um projeto que nasce das pessoas e parece-me que faz parte do ADN da terra, o Carnaval. As pessoas sempre tiveram apetência por brincar e ver o carnaval. Uns como espetadores e outros como participantes. É importante reacender este gosto que as pessoas têm. Eu recordo-me de as pessoas me dizerem que a “Corrida dos Burros” é importante. Eu tentei oferecer 10 mil escudos de prémio de presença para quem quisesse participar, e o prémio final seria 50 contos. Só haveria corrida se houvesse pelo menos 10 burros. Só se inscreveram dois. Eu entendia que isto fazia parte do imaginário das pessoas, e quando se fala no carnaval vêm histórias destas ao de cima.